O suplício da pele


Elisa Andrade Buzzo, Digestivo Cultural

“Em uma passagem do livro A hora da estrela, de Clarice Lispector, Macabéa enamora-se de uma propaganda de "creme para pele de mulheres que simplesmente não eram ela". Sente desejo de comê-lo às colheradas, diretamente do pote. Faltava-lhe gordura ao organismo, dá como explicação a narradora. Seria este creme, tal qual licor espesso, que poderia lhe restituir um pouco da vida que não tivera? A partir de qual momento necessitamos dele?

Não me parece estranho a personagem, tão carente de vida, necessitar não só do creme, de suas propriedades benéficas e nutritivas, como de sua ideia em geral: consistência, espessura, gordura. E até mesmo, senão principalmente, seu sentido figurado de principal, nata, escol. A palavra até enche a boca do poeta quando ele fala do café, Café Creme. A conhecida cereja no topo do bolo ou o crème de la crème. Brilhante metáfora e ironia clariciana.

Outro dia me perguntei: em qual ponto da vida meu organismo sentiu necessidade de engomar-se, besuntar-se em uma camada de óleo e olor; se até então tinha aversão à viscosidade que o creme imprimia à pele? Por que será que os cremes se tornaram tantos e necessários que nos exigem dinheiro e dedicação? Vamos nos resumir a observar a questão pelas bordas.

A história começa com um pote de vidro com creme de amêndoas. Avermelhado, parecia até mesmo de comer. Mas o cheiro era enjoativo, extremamente adocicado, aquele cheiro de fêmea lisongeira, que chega a dar dor de barriga. Não teria sido de propóstio que a filha deixou o pote escapar das mãos? O vidro do pote, trincado, a gordura estatelada já não teria mais uso.

Vamos voltar para um pouco mais próximos do presente. Também está aí o creme como lembrança da sensualidade. O creme é necessário, sacramental, se o que se trata é a conquista da languidez. A mão que acaria o próprio corpo, o emoliente e flácido contato entre peles, há algo de uma lascívia implícita aí. O rosto rebrilha ao longe e ao se aproximar para um beijo, sente-se o cheiro forte, encorpado.”
Foto: Magaly Bátory
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