John Gray diz que ateus se tornaram evangélicos radicais

Euler de França, Revista Bula

“Sou ateu. Ateu católico. Porque, embora ímpio, delicio-me com música de igreja (desde que de qualidade) e com os sermões (Antônio Vieira, afinal, era padre) — em geral, um mix do secular, a moralidade dos homens, com o religioso, a espetacularização de Deus, mas também o mistério da vida e da, digamos, alma. Agrada-me a pregação de um mundo melhor, por meio da paz, da harmonia (talvez impossível) entre os homens, contra a violência pregada pelos herdeiros do Iluminismo. Por isso sou contrário ao ateísmo militante, contra a pregação de que é possível mudar a “natureza” dos homens pela força, pela planificação, pela ciência. Como escreveu o bardo britânico, há mais entre o Céu e a Terra do que imagina a nossa vã filosofia. A religião, o místico, permite-nos navegar pelo incognoscível. As religiões seculares, como o marxismo, não têm dúvidas — só certezas. Em nome do “certo” (o paraíso) fizeram o errado: mataram milhões de seres humanos. Ióssif Stálin mandou assassinar cerca de 30 milhões. Mao Tsé-tung teria mandado matar 70 milhões. Historiadores dizem que a estatística pode estar subestimada. Hitler matou milhões — só judeus foram 6 milhões. O ateísmo está na moda, especialmente por conta de um vulgarizador científico, o zoólogo inglês Richard Dawkins, com o livro “Deus — Um Delírio”, e de um vulgarizador popular, o jornalista inglês Christopher Hitchens, com a obra “Deus Não É Grande”. Ultimamente, a demonização dos religiosos e da religião tem sido criticada, em geral de forma satírica, sobretudo nas entrevistas, pelo filósofo e crítico literário britânico Terry Eagleton. Antes dele, o filósofo britânico John Gray, talvez com mais precisão mas sem perder o matiz sardônico dos ingleses, examinou as ideias de Dawkins, Hitchens (ex-trotskista), Daniel Dennet, Martin Amis, Michel Onfray e Philip Pullman (“A Bússola de Ouro”). O livro “Anatomia de John Gray — Melhores Ensaios” (Record, 515 páginas, tradução de José Gradel) contém um de seus melhores textos, “Ateísmo evangélico, cristianismo secular” (até o título é expressivo).

Deus está na moda — como saco de pancada dos intelectuais herdeiros do Iluminismo, não necessariamente socialistas ou comunistas. Gray não faz exatamente a defesa da religião, e sim uma crítica corrosiva dos “ateus-religiosos”, de como, ao trocarem Deus pelo homem e pela ciência, se tornaram porta-vozes de tiranias jamais vistas na história das sociedades. O filósofo registra que os ímpios devem mais à religião do que pensam. “A era secular foi ilusória. Os movimentos políticos de massa do século 20 foram veículos de mitos herdados da religião, e não é por acidente que a religião revive agora que esses movimentos [socialismo, nazismo] entraram em colapso. A atual hostilidade à religião é uma reação contra essa reviravolta. A secularização está em retirada, e o resultado é a aparição de um tipo evangélico de ateísmo, que não se via desde os tempos vitorianos.”

O proselitismo do ateísmo, aponta Gray, “é um projeto de conversão universal”. No pedestal de Dennet e aliados, religião é atraso, e a ciência, deusa. “A ciência é a melhor ferramenta para formar crenças confiáveis sobre o mundo, mas não difere da religião ao revelar uma verdade crua que a religião vela em sonhos”, diz Gray. “Dawkins parece convencido de que, se não fosse inculcada nas escolas e pelas famílias, a religião desapareceria. Essa é uma perspectiva que tem mais em comum com certo de tipo de teologia fundamentalista do que com a teoria darwiniana.” No caso brasileiro, não analisado por Gray, é um pouco diferente. Porque a religião inculcada na cabeça dos alunos é a marxista — daí que os estudantes são marxistas mesmo quando não sabem. Dawkins aponta as atrocidades cometidas por movimentos religiosos, mas, ressalva Gray, “dá menos atenção ao fato de que algumas das piores atrocidades dos tempos modernos foram cometidas por regimes que reivindicavam sanção científica para seus crimes. O ‘racismo científico’ dos nazistas e o ‘materialismo dialético’ dos soviéticos reduziram a insondável complexidade das vidas humanas à mortífera simplicidade de uma fórmula científica”.
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