Senta a pua, Dona Rita!


Eberth Vêncio, Revista Bula

“Tem muitas coisas na vida que não se precisa de kits e cartilhas do MEC pra gente aprender. Aliás, cartilhas remetem à doutrina, padronização, tutela, normas gerais a serem cumpridas. Ora, já estamos cheios delas na chatice da modernidade. São obrigações demais e prazer de menos.

Quando eu fazia o ginásio (favor não confundir com ginásio de esportes), durante uma aula de Catequese misturada com Educação Sexual, Irmã Amarílis (como é pode uma freira dando as manhas de sexualidade humana?) garantiu que a masturbação, além de ser pecado dos mais graúdos aos olhos do Pai, poderia provocar câncer, loucura, ou as duas coisas ao mesmo tempo.

Não entrava na cabeça da garotada como é que uma simples punhetinha tivesse tantos efeitos colaterais ao ponto de enlouquecer um ser humano. Preferimos apostar que se tratava de mais um blefe ortodoxo, um daqueles dogmas policialescos e sem sentido. Afinal, as irmãs, embora abstêmias de sexo, pareciam gozar (esqueçam o duplo sentido) de saúde físico-mental fragilíssima. Se Deus era assim tão sacana, que viessem o tumor e a loucura, ora essa!

“Senta a pua, Dona Rita”. Dona Rita sorriu, achando engraçado o jeito como eu falei, ao minimizar o seu drama que já se arrastava há mais de cinco anos. Nossa conversa aconteceu na sala de espera de uma Clínica de Psicologia, onde ela se tratava de disfunções da menopausa, e eu, de um “injustificável medo de altura” (acrofobia/aerofobia). Os especialistas em comportamento humano garantem: tudo na vida tem uma explicação, uma razão de ser. Por isto, estávamos ali, para que uma terceira pessoa, uma mulher estranha e muito bem remunerada, nos apontasse a origem dos traumas.

Quebrando o senso comum de jamais conversarmos com estranhos, eu e aquela senhora travamos um diálogo dos mais profícuos e interessantes. Capengando na sétima década de vida, judiada pela artrite e pela solidão, Dona Rita contou-me que há cinco anos “não ouvia os sininhos dos anjos badalarem”, ou seja, perdera completamente contato com o esquisito (porém, gostoso) fenômeno orgasmático. Eu não sei exatamente porque o colóquio evoluiu a um nível tão intimista assim, ao ponto dela me fazer revelações de alcova. Provavelmente, ela estivesse mais solitária que artrítica, que é uma pena. “Velhice é uma merda”, ela emendou.”
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