Eterna meia-noite em Paris


Marcelo Franco, Revista Bula

“Este não é apenas um texto sobre o novo filme de Woody Allen. É um ensaio sobre Paris. Um guia literário de uma época. Um grande passeio pela Paris dos intelectuais, das histórias, dos escritores e artistas que ficaram gravados no inconsciente coletivo do mundo

Todos os que escreveram sobre o último filme de Woody Allen, “Meia-noite em Paris”, captaram bem a sua essência (e o próprio Dr. Flávio Paranhos, woody-allenista da linha de frente, já deu o seu aval ao filme). Agradeçamos aos santos padroeiros do cinema por Woody Allen não ser adepto do hermetismo cinematográfico, esse mal que lota cineclubes e esvazia cinemas: em “Meia-noite em Paris” claramente entendemos que ele questiona se haveria uma idade de ouro melhor do que os tempos atuais em que vivemos. O protagonista do filme volta, por conta de uma mágica qualquer, à Paris dos anos 1920 e passa a conviver com Scott e Zelda Fitzgerald, Hemingway, Gertrude Stein, Picasso, Dalí, Buñuel, Man Ray, Cole Porter. Vê Josephine Baker se exibindo no Bricktop's e dança com Djuna Barnes numa festa, o que lhe permite uma ótima piada: “Aquela era Djuna Barnes? Não me impressiona que ela quisesse liderar” (outras boas piadas acontecem quando ele antecipa o roteiro de “O Anjo Exterminador” para Luis Buñuel, que não o entende — “Por que as pessoas ficam presas na casa?” —, e quando cita uma frase do próprio Hemingway para o escritor, “Acredito que toda a literatura americana nasce com ‘As Aventuras de Huckleberry Finn’”, mas Hemingway, em resposta, apenas lhe pergunta se ele gosta de boxe). Contudo, a mulher por quem Gil Pender, o personagem interpretado por Owen Wilson, se apaixona naqueles roaring twenties, prefere a belle époque, e de novo, por causa de uma espécie de magia, eles recuam ainda mais no tempo e sentam-se a uma mesa no Moulin Rouge com Toulouse-Lautrec, Degas e Gauguin. Woody Allen parece concluir que não há uma época de ouro e que é preciso viver da melhor maneira possível o presente; o filme é assim uma apologia do “ubi sunt?” e do “carpe diem”.

O filme, é também imperdível: Woody Allen nos reconcilia com a parte boa da vida, sempre escondida por nossas agruras habituais. E tudo isso com humor e leveza — como já disse um crítico sobre outra pessoa, não há no filme profundidade, apenas uma infinidade de superfícies, o que em cinema não é defeito, mas sim uma grande qualidade (não me recordo do nome do crítico e tampouco da pessoa sobre quem a frase foi escrita: à medida que envelheço a passos largos, a capacidade de lembrar nomes vai dolorosamente diminuindo: sei agora que o terror da meia-idade é um rosto conhecido que pergunta “lembra-se de mim?”). Quem está no mundo para reclamar poderia dizer que Gertrude Stein parece mais esfuziante do que rabugenta, que Hemingway, que não bebia tanto em 1920, está mais beberrão do que disciplinado, como realmente era então, ou que Picasso não parece tão imponente quanto deveria ser (Gertrude Stein dizia que ele dominava tanto um ambiente que, quando saía, parecia deixá-lo pouco a pouco: “Peu a peu il quitte la pièce”). Não importa: o filme é mesmo muito bom.”
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