Como assim divino e maravilhoso?

Eberth Vêncio, Revista Bula

Atenção ao dobrar uma esquina Uma alegria, atenção menina! Você vem? Quantos anos você tem? Atenção, precisa ter olhos firmes Pra este sol, para esta escuridão Atenção, tudo é perigoso Tudo é divino maravilhoso Atenção para o refrão: É preciso estar atento e forte Não temos tempo de temer a morte”
(“Divino Maravilhoso”, de Caetano Veloso)

Que todos morreremos um dia é fato. Fenomenal e certo como um sol repetitivo que se põe (e se dispõe aos nossos olhos) no horizonte. Ora, até a esperança morre a cada dia. Morre e ressuscita, fragilíssima, volúvel como a lua, passageira contumaz dos céus cotidianos. Como instituiu a poeta Florbela Espanca, “tudo no mundo é frágil, tudo passa”.

Mas, aos vinte e seis anos de idade, Joice deveria estar preocupada mesmo era com o noivo (se casavam ou não casavam), com o apartamento novo (se financiavam ou não financiavam), com a carreira profissional (se serviço público ou iniciativa privada); com a fé (se ufologia ou evangelho).

Acontece que, futricando em síndromes e exames, médicos descobriram no reto da moça um tumor maligno do tamanho de um limão (ela mostra as supostas dimensões de um limão, fazendo um círculo com os dedos polegar e indicador da mão direita, elevando os três dedinhos restantes. Se ela não falasse de frutas-tumores, um transeunte alheio ao colóquio haveria de supor que, através de tal gesto, Joice simplesmente me mandava tomar no cú).

Mas o problema — eu lamento profundamente — é no ânus de Joice; não é no meu ou do estranho que passa. A junta médica juntou-se e, juntos, que era pra dar mais coragem de se dar notícia ruim, os doutores anunciaram que o câncer ainda era operável, mas o intestino ficaria plugado diretamente na parede abdominal, procedimento denominado “colostomia”, sem data certa do tubo retornar ao leito original.

Além do mais, por causa de metástases e ramificações já identificadas em exames complexos e caríssimos, viriam pela frente quimioterapia, náuseas, vômitos, alopecia, além de graus variáveis de dúvidas existenciais (esta última parte a equipe médica não anunciou assim abertamente, mas, nem precisava, estranhamente estava escrito no semblante dos homens-geladeira).
Pragmática, como sói ocorre aos virginianos, Joice queria a presteza dos números, da estatística, uma data, uma previsão de sobrevida da competente equipe de cavaleiros-do-seu-próprio-apocalipse. Por mais que os parentes suplicassem e o tio-padre intercedesse com suas orações, a moça percebeu que o seu prazo de validade no planeta estaria minguando.”
Artigo Completo, ::Aqui::
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