Mister Tarantino, eu lhe escrevi um roteiro


Eberth Vêncio, Revista Bula

“Nunca se sabe do que um ser humano é capaz. Um bicho acuado não se entrega facilmente, não clama ao agressor por misericórdia, nem exige interferência divina nos seus dilemas mais fatais. Ou foge, ou luta. Ou morre, ou mata.

Observem: num campo de batalha, cada corpo adversário que tomba agonizante ou sem vida é comemorado como um gol, um touchdown, um peixe graúdo apanhado no anzol. Imaginem só a parede da sala de estar, ornamentada com cabeças de Homens, alces, ursos e outros mórbidos troféus.

Eu jamais imaginava ferir uma pessoa. Aliás, sendo um médico a serviço do sistema público de saúde, meu compromisso era com a vida, com o bem estar da comunidade, com o alívio da dor e do sofrimento daquela gente pobre. Eu rezava convicto na cartilha de Hipócrates. Até que, num dia de fúria, o mal sorriu para mim (já ouviram esta estória antes?!). Mais que isso, penso que ele sorriu de mim.

"— Mãos pra cima, doutor", alguém gritou.

Quando dei por mim, estava prensando o funcionário da lanchonete sobre a chapa de assar hambúrgueres. O cheiro de cabelo queimado dissipou rapidamente dentro daquele cubículo, um trailer improvisado e sujo. A cena apavorou os poucos gatos pingados que matavam a fome naquela melancólica noite de domingo. A minha noite era igual à deles, mas a fome, diferente: eu quis matar aquele homem.

"— Solta ele, senão eu atiro", alguém ameaçou.”
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