Networking para crianças?


Raquel Oguri Ribeiro, Digestivo Cultural

“Medo do motoboy, medo da babá, medo de torcedor. Somos especialistas em personificar a ameaça de violência em tipos de gente. Adoramos estigmatizar grupos. Até que um dia o mal aparece onde menos esperamos.

Meu horror apareceu em um belo dia de sol, na porta da escola. Ele tinha forma de uma mulher. Não uma mulher qualquer. Mas uma mulher muito loura, muito bem vestida, muito fina.

Enquanto eu esperava meu filho, encostada no portão, ela resolveu puxar assunto. Demonstrou-se indignada com a violência entre crianças que tem acontecido nas escolas, o que chamam de bulliyng.

Papo vai, papo vem, ela muda o rumo da conversa e pergunta para mim se eu conheço a escola tal, ali perto, porque pensa em matricular seu filho nela, no ano seguinte. Deduzi que o menino deveria ser vítima do bulliyng, pois era o assunto que estava em pauta. Para minha surpresa, o motivo era outro.

Ela estava em busca de uma escola onde seu filho tivesse um melhor networking. É isso mesmo que você ouviu: n-e-t-w-o-r-k-i-n-g. Uma rede de contatos.

Com uma pessoa que fala esse tipo de coisa, não podemos esperar muita profundidade ou sentido nas justificativas. Ela simplesmente disse que "networking hoje em dia é tudo". Desde então, essa palavrinha em inglês não saiu mais da minha cabeça.

Vejo como um grande mal o tão almejado networking da mulher muito loura, muito bem vestida, muito fina. E pior: temo ser um vírus diabólico em processo de mutação. Está prestes a virar senso comum.

É preciso que se entenda que raios significa networking. Só assim posso convencer alguém a jamais usar essa palavra quando se referir a uma criança.

Pra começar, networking se refere ao mundo profissional. É a gestão de nossos contatos de olho em uma boa vaga no mercado de trabalho. Como os envolvidos estão preocupados com outras palavras em inglês como feedback, headhunter e coaching, não há espaço para palavras como essência, coração e amizade.

No mundo do networking, ninguém está preocupado se você se desdobra para ser uma boa mãe ou se trata sua empregada com o mesmo respeito que trata o seu diretor.”
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