Wagner, Tristão e Isolda, Nietzsche


Jardel Dias Cavalcanti, Digestivo Cultural

O encontro máximo da arte
não é senão o mais suave adeus?
E a música: este último olhar
que lançamos para os nossos eus!
(Rilke)

"É preciso encontrar a palavra justa para a entonação de voz, a nota certa para se conseguir tocar nas profundezas do ouvinte. Para entrar no coração é preciso que se adapte o andamento da música ao andamento do coração.

A relação entre Wagner e Nietzsche é notável. A ópera de Wagner adora ritmos hesitantes, perdas de referência, harmonias sem repouso, perfil melódico flutuante e aberto, cromatismos voltados para si mesmos, com síncopes e retardos que embaçam e suspendem qualquer idéia de direção. O ritmo da vida trágica não seria esse? Flutuações, direcionamentos inesperados, incertezas, inconclusões. E não é justamente nessa tensão que a vida se afirmaria mais e mais? Para Nietzsche também não existe possibilidade de pacificação da vida, ela sempre será um contínuo e interminável combate de forças criativas e destrutivas e é nesse mesmo combate que se encontra o próprio devir criador dessa vida.

A idéia de uma espécie de "vontade de potência" de Nietzsche talvez já estivesse guardada nestas palavras assustadoras de Leonardo da Vinci:

Digo que a potência é uma força, uma virtude espiritual, uma causa invisível, inerente e infusa nos corpos, dotando-os de uma atitude maravilhosamente infinita. Impele toda coisa criada a mudar de forma e de lugar, se lança com fúria à sua extinção, e caminha diversificando-se segundo as causas. A lentidão a acresce e a velocidade a esgota. Nasce por violência e morre de sua liberdade, e quanto maior é, mais depressa morre. Repele, furiosamente, o que se opõe à sua destruição, pode vencer e matar a causa que constitui obstáculo para ela, e vitoriosa, morre. Sua voltagem aumenta com os obstáculos; derruba, furiosamente, quanto se opõe à sua morte. Toda coisa criada quer ser perene. Toda coisa constrangida, constrange por sua vez. Nada se move sem a força, ou potência.

O que acontece com a música de Wagner é que a concepção direcional do tempo é destruída. Não há uma situação projetiva e antecipadora na sua obra. O arco melódico, se assim podemos dizer, que se constitui em princípio, meio e fim, que é a idéia de se construir um delineamento temporal que se expande em direção a um desenvolvimento final a partir de uma estrutura linear, em Wagner não tem mais sentido.

A questão é: porque Wagner desrespeita esta estrutura? Em Tristão e Isolda, o desejo de infinitude e de transcendência dos limites físicos desaparece. A satisfação de expectativas que se insinuam e se fecham num arco melódico harmônico total é quebrada. Estamos na forma da ópera como o apaixonado está na forma do seu delírio amoroso. Os estados interiores variam irracionalmente nesse caso. Estamos no tempo do sonho ou do pesadelo, da embriaguês e do incomensurável. Sendo mais certeiro, no reino do inapreensível. Por isso, os arcos melódicos devem partir-se, esgarçar-se, fragmentar-se, não mais conduzindo o expectador numa certeza esperada.””
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