Imagens do inferno contemporâneo


“Poema em quadrinhos” vai além dos limites da escrita e da ilustração para expor dilemas da arte na alta modernidade

Alexandre Pilati, Outras Palavras

Está disponível no Brasil uma das obras primas de Dino Buzzati (1906-1972), autor italiano internacionalmente conhecido pelo romance O deserto dos tártaros (1940). Trata-se do Poema em quadrinhosi (Poema a fumetti, 1969), uma lancinante recriação gráfica e textual da descida de Orfeu aos infernos à procura de sua amada Eurídice. Dessa reunião entre grafismo e um texto poeticamente apuradíssimo nasceu uma das mais originais recriações do mito órfico e uma das mais instigantes viagens críticas nos meandros das estruturas políticas e culturais da alta modernidade.

Ao que parece, a forma encontrada por Buzzati para se expressar é fruto de um profundo dilaceramento do criador quanto aos materiais que escolhe para dar vazão à matéria poética. Longe de ser um mero texto ilustrado, Poema em quadrinhos é um texto de grande densidade poética articulado, de maneira magistral, a um registro gráfico que não é apenas legenda imagética do texto, mas que funciona como uma instância outra da própria poesia que a criação buzzatiana emana. Nesse sentido, a obra também poderá ser lida como um grito órfico (pela possibilidade de resistência crítica da arte) no meio da pasmaceira estética da indústria cultural. A fórmula de Buzzati, entre texto e imagem, surge, talvez, do dilema que foi indicado por ele mesmo em um livro de entrevistas, intitulado Dino Buzzati, pitore (1969). Como aparece reproduzido na edição brasileira, o artista afirma sobre o seu metier: “Sou um pintor que, por hobby, durante um período infelizmente bastante longo, fez-se também escritor e jornalista. O mundo, no entanto, crê que seja o contrário e não ‘pode’ levar a sério minhas pinturas”.

Levando a sério a empreitada gráfica e textual de Buzzati no Poema em quadrinhos, o leitor poderá fruir a eficácia estética atingida pelo autor na combinação das duas linguagens, que, na obra, diga-se de passagem, funcionam como uma terceira e potente linguagem artística, tamanha é a integração tensionada entre elas. E não poderia ser diferente, uma vez que a escolha do próprio tema impõe um desafio formal ao autor. Trata-se do velho mito de Orfeu que desce aos infernos para resgatar a amada Eurídice. Adaptado para a realidade contemporânea, os personagens centrais são nomeados como Orfi, um jovem cantor pop, e Eura, sua amada que desce ao inferno. Este nada mais é do que uma casa misteriosa e fantasmática na Via Saterna, em Milão, localizada em frente à janela de Orfi. Um dia, o cantor vê entrar na casa um vulto que lhe parecer ser o de Eura, que ultrapassa a porta, como se fosse um espírito. Posteriormente, Orfi sabe que Eura estava morta e decide entrar na casa-inferno para resgatar sua amada. Depois de uma série de acontecimentos, é dada a Orfi a chance de cantar uma canção capaz de emocionar o reino dos mortos o que lhe dará a oportunidade de encontrar a sua amada e retornar ao mundo dos vivos.

Não será necessário desenvolver aqui mais o enredo para que saibamos o quão fiel à narrativa mítica de Orfeu é o Poema em quadrinhos. Nele revemos algumas das unidades míticas que fazem a força da lenda: o cantor/poeta/artista (dono de um poder impotente); a amada (personificação de um ideal de beleza inatingível, ou irreconciliável com a vida); o inferno (sua reprodução pelo avesso do mundo dos vivos, revelando não como é a morte, mas como a vida é grave). Esses, por assim dizer, mitemas essenciais da narrativa órfica, que poderiam ser lidos como meros dados atemporais atualizados, sofrem uma filtragem contemporânea que possibilita reconhecer os câmbios sofridos por eles na intervenção artística buzzatiana, a qual tem como resultado a revelação de uma dolorida reverberação, no molde mítico utilizado, da história contemporânea. Assim, seria apropriado dizer que, no Poema em quadrinhos, não é a atualização do mito grego o dado decisivo para o resultado estético. Nesse caso, seria melhor considerar a forma como restos desse mito (e de outros mitos criados pela modernidade) se recompõem de acordo com novas demandas expressivas, propondo um resultado final de atualização da nossa visão do contemporâneo, sobretudo através das filtragens propostas pelas categorias de “canto”, “beleza” e “inferno”. Entre essas categorias, aquela que assume um potencial de aguda atualidade é a do inferno, transformado no próprio mundo da fantasmagoria burocrática da alta modernidade ocidental. Uma burocracia que é chefiada pelo diabo da guarda, na verdade uma jaqueta falante que controla as entradas e saídas do inferno. Uma burocracia que, além de tudo, é posta em prática por moças sedutoras que, na verdade, são meros simulacros do mundo artisticamente rebaixado da pornografia.”
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