A música clássica ensurdece a democracia caótica


Wellington Machado, Revista Bula

"Crença de criança dificilmente é removida com argumentos adultos. Quando a mais inocente das mentes infantis em formação - a "tábula rasa" de John Locke - é preenchida por uma ideia ou teoria contrária aos ensinamentos dos adultos, dificilmente se consegue reverter a situação. Dia desses fui surpreendido por meu sobrinho com a seguinte frase: "Tio, sabia que música clássica pode provocar surdez?" A informação me remeteu automaticamente a Beethoven, e tentei dar o troco: "Não, você deve estar fazendo confusão; o compositor Beethoven é que ficou surdo". Mal acabara de falar e ele me tascou o seu livro de escola na cara, com uma pequena nota de canto de página (uma espécie de "janela de curiosidades"), avalizando sua afirmativa. Era um livro de ciências e, possivelmente, a matéria versava sobre os agudos provocados pelo violino ou outros instrumentos da orquestra. Admirador de música clássica que sou (e meu sobrinho sabe disso), não tive como contra-argumentar. Foi sua vingança, já que ele não curte muito o estilo.

Não vou citar aqui o nome do livro adotado na escola de meu sobrinho - na verdade trata-se de uma apostila, um dos volumes de uma espécie de "pacote educacional" padronizado, contendo todas as matérias; muito comum nas escolas atualmente. O material é de ótima qualidade e eu seria leviano se o condenasse por uma notinha de curiosidades. Prefiro encarar a informação como um deslize, que poderia ser evitado, já que inúmeros exemplos poderiam ser citados ali. Mas, por mínima que seja, a nota correu o país nas escolas que adotaram o livro.

O Brasil não é um país paradoxal; mas é um país exótico. O improvável parece conspirar a nosso favor, transformando em sucesso as mais remotas ou estapafúrdias possibilidades. Em recente perfil da nossa presidente na revista New Yorker, o país foi considerado uma "democracia caótica", com problemas estruturais graves, apesar do crescimento econômico dos últimos anos. Crescemos economicamente, mas somos um arraso social. Somos um carro novo rodando a todo vapor com combustível de quinta categoria. Mesmo com toda a crise na Europa, que reflete na economia mundial, o Brasil ainda cresce, ainda que timidamente.”
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