Pretérito mais que imperfeito

Eberh Vêncio, Revista Bula

“Já era quase noite e ainda não havia encontrado a árvore perfeita em que pudesse atar a ponta da corda. Carecia ser uma árvore imponente, espécime de grande porte, com galhos firmes e inflexíveis, como a vida. Calculava se matar de maneira rápida, objetiva e eficaz. Morreria de qualquer jeito, de morte natural, maltratado por um tumor que lhe espremia os miolos, um caso perdido pela ciência, pelos charlatães e milagreiros. Então, que antecipasse, ele mesmo, o inevitável desfecho. Era virginiano, sistemático, exigente, metódico. O controle remoto da TV, do lado direito da estante; o do som, do lado esquerdo. A “Bíblia” volumosa, aberta bem ao meio, rigorosamente. Afinal, era um ateu dos mais detalhistas.

Leitor contumaz sabia da eficácia de alguns produtos químicos que, injetados no canudo da veia, produziam uma morte breve e sem sofrimento, um sono derradeiro e sem dias seguintes. Uma vez dopado, a asfixia nem seria sentida. Morreria dormindo, as mucosas azuladas como a água do mar, a morte que todo o mundo sonha ter. Contudo, não sabia ao certo o nome dos medicamentos, muito menos, a dosagem preconizada, as combinações necessárias, a velocidade de infusão do veneno pelo embolo da seringa. Além do mais, o pavor pelas agulhas carregava consigo desde a infância. Seria incapaz de furar a própria veia sem que desfalecesse, antes de consumar a injeção. Demandaria recrutar um ajudante, um comparsa, uma criatura por demais compreensiva ao ponto de apoiar o procedimento, sem remorso, sem reparos, sem lágrimas ou discursos para demovê-lo. Nenhuma chance. Riscou da ideia o uso do coquetel de drogas.

Poderia, quem sabe, jogar-se na frente de um veículo. Ônibus, van, um caminhão-cegonha carregado de carros novos. Ah... Jamais a indústria automobilística vendeu tantos carros como neste ano, é quase um milagre econômico, nos discursos dos governantes... O trauma, sem dúvidas, seria brutal e deletério ao seu franzino corpo de homem na meia idade. Um homem meia-sola. Não queria, porém, envolver terceiros naquela mórbida missão. Não tinha o direito de desgraçar com a vida dos outros. Mais escrúpulos de um perfeccionista. Desistiu do atropelamento.”
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