Macarena Gelman: “Não há Justiça sem Verdade”

Seus pais biológicos foram sequestrados em Buenos Aires, em 1976, em uma ação da Operação Condor, e assassinados. Ela foi colocada na porta da casa de um policial uruguaio e só descobriu sua verdadeira história 23 anos mais tarde, graças à busca incansável do avô, Juan Gelman. Em entrevista à Carta Maior, Macarena Gelman fala sobre o sentido de sua busca pela verdade e pela justiça e sobre a importância fundamental de ter acesso à informação para dissolver o véu de desinformação tecido pelas ditaduras. 

Marco Aurélio Weissheimer, Carta Maior 




Verdade e justiça são palavras que passaram a frequentar muito concretamente o cotidiano da jovem Macarena Gelman. Ela teve seus pais biológicos sequestrados em Buenos Aires em agosto de 1976, numa ação da Operação Condor da qual participaram agentes das ditaduras uruguaia e argentina. Marcelo, filho do poeta argentino Juan Gelman, foi o primeiro a ser assassinado. Maria Claudia, grávida de oito meses, foi levada para Montevidéu, onde teve Macarena e, logo em seguida, também foi morta.

Seu corpo até hoje está desaparecido. Macarena foi colocada na porta da casa de um policial uruguaio. Ela só descobriria a verdade 23 anos mais tarde, quando descobriu sua verdadeira identidade, graças a uma investigação conduzida pelo avô. De lá para cá, ela dedica a vida a descobrir os restos da mãe para poder enterrá-la e a buscar a verdade e a justiça, duas palavras que, para ela, são inseparáveis.

Macarena Gelman esteve em Porto Alegre no dia 30 de março, participando do 5º Encontro Latinoamericano Memória, Verdade e Justiça. Ela participou de uma mesa que apresentou o caso Gelman e o caso Araguaia, que resultaram em condenações para os estados uruguaio e brasileiro pela não investigação do destino de desaparecidos. O painel debateu o conteúdo e as consequências das sentenças da Corte Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA), autora das condenações.

No dia 21 de março deste ano, o Estado uruguaio cumpriu dois pontos da sentença: a colocação de uma placa no local Maria Claudia ficou presa e onde passou seus últimos momentos com Macarena; e o reconhecimento pelo Estado uruguaio, na figura do presidente da República, Juan Pepe Mujica, dos crimes ocorridos durante a ditadura. Não chegou a ser um pedido de perdão. E Macarena fez questão de dizer que nunca pediu nem pedirá isso ao Estado uruguaio. “Se um dia o Estado quiser pedir perdão poderá fazê-lo”.

Em entrevista à Carta Maior, Macarena Gelman, falou sobre o sentido de sua busca pela verdade e pela justiça. “Uma das coisas que aprendi nesse processo é que não é possível a verdade sem a justiça e nem a justiça sem a verdade”. Para ela, uma das grandes condições para ter êxito nessa busca é ter o acesso a informações verdadeiras sobre tudo o que aconteceu. “Muita gente diz que já se falou muito sobre esse tema. Na verdade, não se falou nada, porque o que foi dito, muitas vezes, não era a verdade. É precisamente por isso que os agentes da ditadura se encarregavam, entre outras coisas, de mesclar as informações com elementos confusos e muitas vezes falsos”. Abrir todos os arquivos daquele período, coordenar esforços nos países que foram vítimas de ditaduras e compartilhar informações: essas são algumas das tarefas apontadas por Macarena para dissolver o véu de desinformação tecido pelas ditaduras e seus agentes, até hoje.

Carta Maior: Na intervenção que fez no seminário, na Assembleia Legislativa, você estabeleceu uma relação muito estreita entre verdade e justiça, afirmando que uma não pode existir sem a outra. Como é que você compreende essa relação e como ela se materializou na sua experiência de vida?

Macarena Gelman: Quando o drama principal é a ausência de alguém, o desaparecimento de um ser querido, no caso a minha mãe, instintivamente colocamos diante de nós os temas da verdade e da justiça. Depois, com o passar do tempo, eu fui me dando conta que era muito difícil, senão impossível, obter uma sem a outra. A busca pela verdade, no meu caso encontrar os restos de minha mãe e as condições de sua morte, recém começou de forma efetiva a partir da apresentação da causa judicial.

Quando se discutia o tema da anulação da Lei de Caducidade da Pretensão Punitiva do Estado as pessoas contrárias à essa anulação diziam que se os casos fossem encaminhados à Justiça, os militares iriam falar. No entanto, desde 1986, quando a lei passou a valer, os militares acabaram não falando e lá se vão quase 30 anos. Se é verdade que ocorreram algumas tentativas de buscar a verdade, por meio da Comissão pela Paz, cujo objetivo era receber testemunhos confidenciais sem nenhum tipo de pressão ou obrigatoriedade, é verdade também que a maioria dessas informações se revelaram falsas. Portanto, é um recurso enganoso dizer que se a lei fosse anulada os militares não falariam e não se conseguiria nada.

O certo é que os corpos dos desaparecidos serão encontrados na medida em que se avance na Justiça. Mas, obviamente, para avançar, a Justiça precisa de testemunhos e precisa da verdade. Então, são duas coisas que se retroalimentam e que não podem ser separadas.”
Entrevista Completa, ::Aqui::
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