História de vidas dissolvidas


“Lançado no Brasil após meio século, livro de Georges Perec expressa, em casal parisiense, anulação dos desejos sob imperativo consumista

Alexandre Pilati, Outras Palavras

As coisas – uma história dos anos 60 (Cia das Letras, 2012), do francês Georges Perec (1936-1982) foi agora lançado no Brasil, 47 anos depois de sua primeira edição francesa. Passado tanto tempo, cabe, talvez, perguntar qual é a atualidade de um texto que se apresenta deliberadamente datado ao leitor. Uma das dimensões literárias que justificam a permanência deste texto, que grita de dentro do oco fetichista de um momento primevo da nova sociedade de consumo, pode ser a maneira como Georges Perec encara o exaurir-se das formas narrativas naquela já longínqua década de 60, em que se via o esgotamento tanto do nouveau roman quanto do engajamento literário sartreano.

Como momento primevo de uma nova etapa do consumismo, os anos 60 experimentaram, não obstante as diversas formas de reação ao imperialismo americano e ao conservadorismo mundo afora, uma inocência diante da nova etapa da industrialização e dos novos circuitos mercantis em escala mundial. A mercadoria, nesta época cultural e politicamente flamejante, era uma sutileza capaz de penetrar imperceptível na raiz da condição do homem ocidental. Nesta nova sociedade (aurida no pós-guerra), a mercadoria e sua lógica tornavam-se o princípio sutil, gerador de uma nova forma de atitude diante do mundo e de sua própria subjetividade. A mercadoria passava a ser mais agudamente o mistério básico das relações sociais e dos fluxos subjetivos, sobretudo nos grandes centros urbanos.

A eficácia estética do texto de Perec está, então, muito relacionada à capacidade que ele tem de, por meio de uma forma romanesca que assume o agastamento das possibilidades narrativas da experiência humana no Ocidente, problematizar a invasão da lógica da mercadoria. Em As coisas, essa problematização passa pela elaboração de um contexto ficcional não eufórico, no qual a mercadoria não proclama sua autocelebração (como ocorria à época, por exemplo, na sociedade americana). A mercadoria e sua lógica de fetichismo e reificação, no contexto observado/criado por Perec, aderem a tudo, silenciosamente. No romance, os objetos não são mais que coisas; os personagens são subjetividades coisificadas; o estilo literário é deliberadamente exaurido de chicanas e firulas estéticas, coisificado que está por uma espécie de tédio, que é, no fundo, o resultado final da anestesia do humano imposta pelo reino da mercadoria. 

No livro vemos, na Paris dos anos 60, um casal de classe média bem posto e esclarecido. Aos poucos, será revelada uma vida que só tem sentido na densidade fantasmagórica das coisas, do dinheiro e das expectativas individualistas mais mesquinhas, embora suavemente triviais. Sem anseios, Jérôme e Sylvie, menos que personagens, são coisas, numa sociedade regida pelo tédio do consumo. O traço básico desse tédio revelado por Perec é que ele está revestido de refinamento aconchegante e conforto familiar. Basta lembrar o alucinante primeiro capítulo, uma verdadeira problematização do mundo narrado para além da face descritiva patente no texto. Jérôme e Sylvie aparecem ao leitor por meio da eloquência silenciosa da mercadoria. Um pedaço de parágrafo é suficiente para vermos o tipo especial de enunciação narrativa eivada de criticidade: “Às vezes pensariam que uma vida inteira poderia harmoniosamente transcorrer entre aquelas paredes cobertas de livros, entre aqueles objetos tão perfeitamente domesticados que eles acabariam acreditando terem sido criados desde sempre unicamente para uso deles, entre aquelas coisas belas e simples, suaves, luminosas”.
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