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Omar Sy e François
Cluzet em cena de ‘Intocáveis’
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Matheus Pichonelli, CartaCapital
“Lembro do desfecho daquela história toda
vez que, no fim do ano, grupos armados de boa vontade pegam crianças das
favelas pelos braços e as levam a conhecer os lugares mais bem frequentadores
das grandes cidades. Algo como: “vamos catequisar as feras levando-as para
conhecer a ópera”. Nada contra as boas ações, mas imaginar a cena seguinte é
inevitável: câmeras desligadas, logo os frequentadores habituais, espanadores
em mãos, saem a limpar os resíduos tóxicos da invasão. Tudo, por fim, para me
lembrar de um amigo, apelidado não por acaso de “Feio”, que, na adolescência,
teve a ousadia de esperar um outro amigo em frente à loja mais sofisticada da nossa
cidade. Saiu de lá algemado por parecer um “elemento suspeito”. Era a
materialização, na vida real, de um mundo que nos era apresentado por uma velha
música do Zé Geraldo sobre o pedreiro que constrói prédios que jamais poderá
frequentar. “Hoje depois dele pronto/Olho pra cima e fico tonto/Mas me chega um
cidadão/E me diz desconfiado, tu tá aí admirado/Ou tá querendo roubar?”
Pela música, pela tevê ou pelos fatos da
vida, aprendíamos cedo que existem lugares que, embora de portas abertas, só
podem ser frequentados por determinados grupos – e um passeio por
universidades, redações jornalísticas ou cinemas pode ser revelador sobre nosso
conceito de “minorias”.
Mas o mundo é um pouco mais complexo do que
gostariam os higienistas de primeira ordem. Os muitos mundos dentro da mesma
cidade se tocam, se penetram, se intercalam. Assim, uma curva malfeita no
Morumbi pode dar em Paraisópolis, assim como o passeio pela Barra da Tijuca é
serpenteado pela Rocinha. O contraste pode ser escondido no cartão postal, mas
grita ao redor dos umbigos mais bem agasalhados.”
Artigo Completo, ::AQUI::
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