Diário de Rato, Chocolate em Pó e Cal Virgem

Duanne Ribeiro, Digestivo Cultural


“Erguemos as barricadas: é preciso isolá-lo. Uma placa de madeira serve de bloqueio para a saída da cozinha à sala. Um tijolo tampa o buraco no canto direito inferior da porta fechada do banheiro. Onde ele pode estar? No fogão. No balcão da pia. Debaixo da geladeira. Levo uma luminária arrastando a extensão até lá. Ilumino cada canto como o holofote das prisões de filme americano, mas a mancha de luz não o denuncia. Não está em lugar nenhum. Você tem certeza de que viu? O rato põe o cotidiano entre parenteses, e nem precisa existir pra isso.

De repente a casa está povoada de sinestesia e perigo. Não pode andar descalço, sob risco de morte. Não pode comer nada que caiu no chão - nem se pegar assim muito rápido! Sou atento ao mínimo som como nunca. Tec. É o rato!? Orelha levantada como um cão de caça. Quais são os barulhos comuns e quais os barulhos incomuns de uma residência? Até ontem só possuíamos esse silêncio chapado indistinto. Pracs. Termina que um roedor é um objeto estético semelhante a 4'33'', de John Cage. Schwiss: algo à minha esquerda. Paraliso. Viro o rosto. A cortina se mexeu. A cortina se mexeu? A cortina se mexeu! Levanto ninjamente. A cadeira do computador ignora meu esforço e range. Me convenço de que ele não percebeu. Subo no sofá, que também range, escandaloso. Olho o pano branco até o piso. Esse volume - será? Sacudo o pano. Não está lá.

Mas a situação é crítica. Atrás do sofá também estão minhas caixas de revista. Eu ameaço o rato em voz alta (sim, você leu: eu ameaço o rato em voz alta): se roer revista minha, mato ele no dente. Como pode ter passado da barreira? Só pode estar ali embaixo. Vassoura na mão, me preparo para passar o cabo no vão do móvel. Tenho no rosto o olhar abnegado do homem que cumpre seu destino. Primeira investida. Nada. Segunda investida - ele dispara feito um foguete, só se vê o rastro cinza rasgar o espaço numa linha diagonal e sem hesitar saltar nossa placa de madeira (ah! então foi assim que passou da barreira...). O rato, desta vez como fato; é preciso fazer alguma coisa.

E sabemos o que fazer. Não é o primeiro. Aliás: o anterior se foi e de saída trouxe o diabo.”
Artigo Completo, ::AQUI::
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