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Cena do filme “O
Diário de Bridget Jones”
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“Conversas sobre o retorno de Bridget Jones
— um terceiro romance será publicado no próximo outono, 16 anos depois que a
primeira parte de suas desventuras chegou às livrarias — parecem ter acertado
rapidamente na polêmica questão sobre se a diarista ocasional ainda gosta de
uma bebida e um cigarro e calcula seu consumo diário de calorias. De fato,
Jenni Murray, ao entrevistar a criadora de Bridget, Helen Fielding, no programa
“Hora da Mulher” na Radio 4, com um pouco mais de ironia que a habitual em sua
voz, a pressionou — de modo encantador, é claro — sobre o assunto, apenas para
receber uma evasiva resposta igualmente encantadora.
É compreensível: mesmo que não tenha
dominado seus vícios, seria improvável que Bridget, em mais de uma década,
permanecesse fiel ao hoje fora de moda Chardonnay que ela consumia aos baldes;
enquanto isso, sua dedicação ao Silk Cut provavelmente vacilou diante da
proibição ao fumo, e se ela conta calorias em vez de cortar carboidratos
realmente perdeu o memorando do espírito da época. Atualizar um personagem de
ficção amado é um negócio tão delicado que qualquer um se intimidaria.
Mas há diferenças mais significativas. A
nova excursão de Bridget, ao que parece, transcorrerá em Londres, nos dias
atuais, e Bridget — uma solteira de 30 e poucos anos na década de 1990 — hoje
terá 40 e muitos. Vamos falar francamente: as heroínas do tipo de novelas que
vendem aos baldes geralmente não têm essa idade. Já tiveram, quando as mulheres
podiam escrever novelas cômicas sem ser espremidas em capas cor-de-rosa e
receber títulos engraçadinhos e colocadas em uma prateleira marcada “literatura
para garotas” independentemente de sua qualidade ou intenção. Mas hoje, nem
tanto; e isso, com um sinal para a terrível lei das consequências imprevistas,
cabe em parte ao fato de as editoras passarem dez anos procurando a próxima
Bridget Jones.
Jones sempre foi mais subversiva do que aparentava,
porém, e parece ter continuado assim, enquanto sua narrativa incorpora mudanças
sísmicas em comunicação interpessoal. Em vez de registrar as unidades de
álcool, Fielding deixou escapar, as anotações no diário de Bridget podem
começar com a soma de seus seguidores no Twitter (zero). Mas ela também
reiterou que o que seu personagem deveria incorporar — além das estripulias
românticas, as piadas sobre calcinhas enormes e preocupações com o peso, os
empregos idiotas em que ela era uma idiota — era a imperfeição, e uma aceitação
da mesma.
O que ela gostaria, perguntou Jenni Murray,
que sua literatura nos contasse? Que não precisamos ser “criaturas de marca”,
respondeu Fielding. “Está bem ser apenas normal… você não precisa ser uma
imagem de aerógrafo em uma revista ou foto de publicidade. Se chegou lá, então
acho que isso é poder.”
Parece óbvio, ao ponto de perder o
interesse, mas não é. Na década desde que Jones engoliu seu primeiro tonel de
vinho branco e sofreu com seu grande traseiro, a pressão sobre as mulheres para
caber em moldes se intensificou, apesar de um esforço concertado para fingir o
contrário. Mas uma cultura obcecada por roupas caras, cuidados pessoais, forma
física, a trajetória profissional certa, o cenário reprodutivo ideal, o círculo
social perfeito, etc, etc, não é uma cultura onde a imperfeição é tolerada,
quanto menos incentivada. Para que a “nova” Bridget seja tão de seu tempo
quanto era a “antiga”, muitas coisas provavelmente mudarão; mas por favor, Deus,
deixe-a continuar tão incorrigível quanto sempre foi.”
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