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Espaços limitados, alimentos industrializados, sedentarismo e publicidade abusiva são alguns dos obstáculos para o desenvolvimento de uma infância saudável e equilibrada. Foto: Don Hankins/Flickr |
“Não é tarefa das mais fáceis criar filhos
nesses tempos modernos, cercados de alta tecnologia e profundas mudanças de
comportamento. Nós, pais, costumamos nos queixar dos apelos do consumismo e da
pressão exercida pelas crianças para comprar uma gama variada e extensa de
traquitanas de todos os tipos e valores. Temos que trabalhar arduamente para
fazer frente a essas pressões, mas também para garantir educação, saúde e o
lazer dos pequenos.
Por outro lado, já tentamos fazer o
exercício de nos colocar no lugar deles? Tenha em mente que a vida de nossas
“pestinhas” também não é um mar de rosas!
Pois bem, aqui registro algumas reflexões
sobre a cada vez mais complexa condição de ser criança neste século. No
passado, não tão remoto assim, o ser criança era, de uma determinada maneira,
bem mais simples. Brincar era uma atividade invariavelmente praticada na rua.
Estudar, basicamente na escola do bairro. E comer, ato trivial e cotidiano, o
almoço e o jantar preparados pela mãe, avó ou outros familiares. Só para fechar
o rol de atividades mais ordinárias do dia a dia, assistir televisão era
apertar o botão e usufruir da limitada programação ao lado da família. Fosse
ela de conteúdo destinado às crianças ou adultos.
Eis que tudo mudou, e não foram poucas as
mudanças. A acelerada urbanização trouxe consigo dois fenômenos gêmeos: a
redução dos espaços e a verticalização. Como consequência, a rua deixou de ser
um local para brincar e passou a exercer o papel de vilã. Agora, rua é sinônimo
de perigo! Azar das crianças que tiveram reduzidos os seus espaços
tradicionais.
O correr livre e solto praticamente deixou
de existir. Brincar em casa virou regra, ao invés de exceção. E, o mundo
virtual acabou por ocupar esse vazio. Agora não é mais a criança que corre,
joga bola e se exercita com outras brincadeiras ao lado dos amiguinhos: quem
faz isso é o vídeo game. Os relacionamentos se desenvolvem nas redes sociais.
Resultado: crianças sedentárias e obesas.
Por falar em obesidade, a variedade de
produtos comestíveis muito atrativos, saborosos e, em geral, pouco saudáveis, é
uma verdadeira tentação a nos provocar, com especial atenção às nossas
crianças. Um prato que contenha cereais, carnes e legumes perdeu toda a graça
diante das suculentas porções de “batatas com sabor artificial de bacon, com
queijo cheddar”.
As frutas na sobremesa, comuns na
alimentação do passado, têm sido substituídas por doces coloridos com muito
açúcar e gorduras. Tudo isso agravado pelo fato de os pais trabalharem fora e
as refeições preparadas por eles terem sido substituídas por pratos prontos.
Para completar o kit “obeso e sedentário”,
a televisão também chamada por muitos pais de “babá eletrônica”, possui
atualmente um leque de canais para o entretenimento de qualquer idade. São
variados, e em bom número, aqueles dedicados às crianças. Ali, a publicidade
deita e rola oferecendo a felicidade em forma de brinquedos e roupas mágicas e
especiais. Mais pressão sobre os pais e muita frustração para os filhos que não
terão acesso a todas aquelas maravilhas!
“Muito
Além do Peso” merece ser assistido
Uma triste combinação de alimentos nada
naturais, tecnologia sofisticada e insegurança carregam consigo uma carga de
variados comprometimentos ao futuro das novas gerações. Entre elas, as
nossas crianças começam a apresentar sintomas de doenças conhecidas até pouco
tempo apenas em
adultos. Problemas no coração, respiratórios, diabetes,
hipertensão e até mesmo depressão já fazem parte dessa nova realidade.
Sobre esse tema, vale a pena conferir o
documentário Muito Além do Peso (www.youtube.com/watch?v=K0y82oVGiPE)
que aborda as grandes e nocivas mudanças de consumo na infância. Algumas das
alarmantes constatações de especialistas entrevistados no filme apontam que 33%
das crianças brasileiras já estão acima do peso. Outras 56% consomem
refrigerantes com alguma frequência. A diretora Estela Renner imprime um tom
dramático em histórias reais, que seriam até engraçadas se não fossem trágicas.
Escolas
que formam super-heróis
Por fim, o ato de estudar ganhou ares
extremos de complexidade. A variedade de escolas pedagógicas causa, em primeiro
lugar, um verdadeiro nó na cabeça dos pais. Qual a melhor para o meu filho? Em
qual ele ou ela irá se tornar uma pessoa de valores éticos e morais altíssimos,
humano, solidário, sensível e ao mesmo tempo capaz de enfrentar todos os
obstáculos e superar os concorrentes que ousarem enfrenta-lo? Não podemos admitir
que nossos filhos sejam algo menos que um super-homem/super mulher ou um semideus/semideusa.
Será que a escola está sendo capaz de
desenvolver todo o imenso e extraordinário potencial do meu filho? Nesta hora,
a pressão sobre os pequenos, mesmo que indireta, começa a se fazer sentir desde
a mais tenra idade.
Então, que tal reduzirmos tanta pressão
sobre eles e nós?
Portanto, sejamos mais solidários com
nossos filhos e deixemos um pouco de lado as nossas próprias angústias. Não
acho que existam fórmulas simples para enfrentar essas e muitas outras questões
que envolvem a criação dos pimpolhos, mas quem sabe um pouco mais de atenção,
amor e uma boa e salutar convivência familiar não atenuem, e até mesmo
eliminem, alguns desses sintomas da modernidade.
Sejam eles geniais ou apenas normais,
talentosos ou simplesmente cidadãos corretos e bons profissionais, ao invés de
pensarmos em criar seres incríveis devemos contribuir para que as crianças se
tornem adultos felizes e que vivam suas existências em paz.”
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