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As famílias correm
o risco de ficar
sem empregadas e
sem refrigerante
no avião. Dá para
sofrer mais?
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Matheus Pichonelli, CartaCapital
“Foi uma confluência de incidentes. No
mesmo dia em que descobriu que terá de pagar hora extra para a empregada e o
guaraná no voo da GOL, acabou o estoque de lexotan na casa do Almeidinha. Se
fosse na semana anterior, seria uma quádrupla tragédia, a contar o litro de
leite de soja com detergente ingerido após o treino de spinning.
Não está sendo fácil.
Almeidinha já faz as contas do quanto terá
de economizar para dormir tranquilo, com a cueca limpa e sem passar vontade nas
duas horas e pouco da viagem até Porto Seguro com a família que pagou a
prestação.
Pensa em levar amendoim e garrafinha Dolly
enrustida no casaco para evitar um escarcéu do filho mais novo. Se começar a
espernear, berrar, babar, fingir desmaio, o menino é capaz de convencer os
comissários de bordo a distribuir gratuitamente até PlayStation no avião.
Diante dos reveses às vésperas das férias
familiares, Almeidinha já se decidiu: a empregada, que faz as vezes de babá
nessas viagens, terá de se virar se o estômago roncar durante o percurso. Se
pedir amendoim, a resposta virá no padrão GOL: que saque o FGTS e compre.
Isso se a menina vingar até lá. Para não se
responsabilizar pela doméstica e a creche dos filhos da doméstica – são só
dois, o suficiente para Almeidinha imaginar que ela procria feito coelho – a
estratégia é desfazer o vínculo aos poucos. A moça deixa de trabalhar e dormir
na casa da família Almeida de segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado e
domingo e passa a vir apenas dois dias na semana. Nos outros, os homens da casa
terão de ajudar – teriam, porque o Almeidinha já pensa num jeito para derrubar sem
querer três em cada quatro pratos lavados para convencer a esposa, ela sim
prendada, de que não tem talento para a coisa.
O saldo de pratos estraçalhados é a imagem
da punhalada provocada pela PEC das Domésticas – que no solar dos Almeidas
ganhou o nome de PEC da Ingratidão. Afinal, eles encontraram a menina
famélica, deram abrigo, comida e roupa a ser lavada. E agora ela vem falar em
hora extra? Para isso o Almeidinha tem um lema: “A gente ajuda os empregados. Os
empregados é que não se ajudam”.
Como previu o professor José Pastore, da
USP, as mudanças já provocam irritação entre a esposa, que Almeidinha chama de
patroa, e a doméstica, que ele não sabe o nome. A revolta da patroa, que
precisa das domésticas para desenvolver suas atividades profissionais, tem como
alvo os parlamentares e a presidenta Dilma, que, segundo o professor, pode
ganhar alguns votos das domésticas mas, se depender dela e das vizinhas, não se
elege nunca mais – se dependesse delas a presidenta não teria sido eleita logo
em 2010, mas esta é outra história.
Para elas, é o fim da picada: pagar tantos
impostos e não ter direito a uma secretária 24 horas. Culpa de quem? Do Bolsa
Família, das cotas nas universidades, do Prouni, das distribuições gratuitas de
camisinha no Carnaval, do sistema prisional que cuida de bandidos em vez de
fuzilar. Noves fora, o Almeidinha se questiona: estudar, sem bolsa, pra quê? Pra
pagar impostos e financiar a corja toda? Melhor largar os estudos, viver de
programa social, praticar pequenos delitos e garantir vida boa na cadeia. Nesta
vida de humano direito, conclui, quem trabalha está condenado a pagar a própria
bebida no avião. Isso quando a bebida não vem contaminada por detergente. Nunca
foi tão difícil viver.”
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