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Foto: Galeria de JD Hancock/Flickr |
Menalton Braff,
CartaCapital
"Nenhum de nós, do internato, podia dizer de
onde caíra aquela figura singular, o nosso professor de Português. O professor
Brandão (ou, como preferia o Diretor do colégio, o doutor Brandão) falava com
esses e erres muito diferentes dos nossos, andava com passos mais curtos do que
nós e tinha um ar sofrido que nós, entre os dez e os quinze anos, ainda não
tínhamos razão para ostentar.
Algumas informações, finalmente, vazaram.
Por exemplo, que nosso professor de Português era advogado. E a imaginação da
rapaziada excitava-se em exercícios que justificassem aquele súbito
aparecimento. Um dia, o pai de um aluno, em visita ao colégio, abordou nosso
professor e perguntou se poderia assumir uma causa no fórum local. O professor
Brandão ergueu para o céu seus dois olhos negros e redondos e, depois de um
suspiro, afirmou em voz abafada que advogar, não, jamais voltaria a fazê-lo.
Sua expressão, então, foi de profunda dor.
Nunca ficamos sabendo por que o doutor
Brandão abandonara a profissão para a qual se preparara. Muitas pessoas, mais
tarde aprendi, cometem o equívoco de levar um curso até o fim pela única razão
de o haver começado. As vocações nem sempre se manifestam muito cedo. Mas o
caso do doutor Brandão, que supúnhamos ter exercido a advocacia por muito
tempo, parecia bem mais tenebroso. Algum deslize, uma escorregadela, coisa nem
sempre provável, mas quase sempre possível para um ser que luta pela
sobrevivência neste conturbado mundo de deus? Não sabíamos, mas conjeturávamos.
Alguém trouxe de fora a informação de que se apossara, nosso cândido professor,
de todos os bens de duas crianças órfãs. Foi quase uma semana de ódio e rancor.
Ele não podia entrar na sala de aula sem que rosnássemos de cabeça baixa. Por
uma série de detalhes, descobrimos, à luz de velas em nosso esconderijo, que
era uma informação falsa. Ah, sim, porque também havia os alunos que o admiravam.
O professor Brandão era casado, e sua
esposa, uma normalista, como então eram chamadas as professoras primárias, dava
aulas nas séries anteriores ao ginásio (que era esse o nome do atual Ensino
Fundamental 2 – não ficou mais bonito? Fundamental!, isso não é pra qualquer
um). Eles não tinham filhos, e esse era outro motivo de assombro para nós, tão
acostumados a famílias de proles numerosas, pois era assim que Deus mandava e o
Brasil queria.
O que mais nos espantava, entretanto, era o
ar de grande sofrimento de nosso professor quando tentava explicar as
diferenças entre um verbo e um advérbio. Ele segurava o giz sem muita
convicção, enrugava a testa, sacudia a cabeça e botava algumas palavras na
lousa (que chamávamos de quadro-negro, porque o era realmente). Mas ele gostava
de ler. E trazia poemas para que lêssemos e perguntava quem freqüentava a
biblioteca, o que encontrávamos lá. Ouvíamos algumas histórias e às vezes
contávamos algumas também.
Até o fim do primeiro ano, ninguém mais
queria saber a origem do professor Brandão, nem por quais mistérios da vida um
homem tão diferente dos outros que conhecíamos viera parar ali. Meu entusiasmo
pelas fórmulas da matemática arrefeceu em favor de Mário de Andrade e Cecília
Meireles. Nunca entendi por que essa aproximação em suas preferências, mas isso
pouco ou nada me preocupou.
Quarenta anos mais tarde fui fazer uma
visita ao colégio onde estudei interno. O prédio principal era ainda o mesmo,
apesar da cor horrível com que o disfarçaram. Fui apresentado a outros prédios
mais recentes. Uns intrusos. Os professores todos pareciam tão estranhos quanto
nos parecera, no início, o professor Brandão. E ele, onde estaria? Ninguém
sabia de sua existência. Não desisti enquanto não o encontrei. Ele estava
colado, muito miúdo e assustado, em um quadro de formatura. Quanto a mim mesmo,
descobri que não havia deixado o menor vestígio de minha passagem por lá. Em
que espelho, Cecília, ficou perdida minha face?”
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