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Foto:
Adamina/Flickr
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Menalton Braff,
CartaCapital
“As cidades nasceram sob o signo da
insegurança. As feras atacavam impunemente este serzinho desprotegido, sem
presas nem unhas que prestassem, que era o homem. Nasceram e logo depois foram
muradas. Claro, não contente com os ataques ferozes, isto é, das feras, o homem
inventou os ataques ferozes, isto é, do homem. As feras queriam fazer dos
homens seu repasto (não é preciso escamar nem depenar) e alguns homens a todo
custo queriam tomar posse do que outros homens tinham. O remédio foi mesmo
criar os muros.
Então veio o fim da Idade Média e os modos
de ganhar o pão-nosso-de-cada-dia foram-se transformando. Depois do artesanato
veio a manufatura. Depois da manufatura veio a indústria, e na era da sociedade
industrial tudo foi racionalizado. As poucas e pequenas cidades começaram a
inchar porque uma das leis do processo de industrialização era a concentração.
Os custos caíam quando homens-produtores, máquinas, matérias-primas,
homens-consumidores se aglomeravam.
Os problemas apareceram como subproduto da acelerada e tumultuada urbanização. Subproduto indesejável e de solução às vezes quase impossível. Onde arranjar escola para tanto bacuri, dizia o alcaide coçando a cabeça de ralos cabelos. E onde jogar tanto dejeto? Bem, alguns jogavam-se no rio, ou no mar, ou sabe-se lá onde. As cidades não davam conta de criar tantas veias pelas quais deveria circular nosso almoço de ontem antes de desaparecer. Os rios e os mares, então, arcaram com o sacrifício: foram poluídos. A saúde, ora a saúde, e muito bom tecnocrata raciocinava como verdadeiro Malthus. Mas nem todos eram malthusianos e o prefeito arrancava os fios restantes de cabelo.
Ora, em nome do lucro se tinha criado uma solução e um problema. Em nome do lucro criou-se também um outro tipo de sociedade: a sociedade de consumo. Sem consumo não há lucro. Então toca consumir, porque esse verbo passou a ser fundamental para a vida das cidades. No meu tempo de criança, íamos à padaria com uma garrafa de boca mais larga, conhecida como a garrafa do leite. Esta garrafa, depois de bem lavada voltava à sua nobre função, e isto por um, dois anos. Com sorte, ela durava uma geração toda. Hoje o leite nos chega num saquinho plástico que, depois de usado, vai fazer parte do lixo urbano. São milhares e milhões de casas em que se consomem mercadorias e se produz lixo.
Nós, os que não somos malthusianos, estamos
escandalizados. Algum tempo atrás, a Cetesb fez um levantamento e chegou à
triste conclusão de que 50,4% das cidades paulistas jogam seu lixo em lixões a
céu aberto, sem tratamento de resíduos, como deveria ser. Destes novos inimigos
(insetos, pequenos roedores, répteis, quase sempre invisíveis, mas
provavelmente transmissores de alguma peste) não há muro que nos defenda. E
agora, José?”
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