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No momento em que
os evangélicos parecem
apenas abraçar
causas conservadoras, valeria
a pena refletir
sobre o legado de Calvino,
Müntzer e Luther
King, entre outros.
Foto: Pedro Presotto |
Vladimir Safatle, CartaCapital
“Uma das questões maiores de nosso tempo é
a relação entre religião e política. O filósofo italiano Giorgio Agamben, em
seu livro O Reino e A Glória, foi mais longe do que o habitual no
desvelamento da dependência entre as estruturas institucionais dos Estados
laicos e as construções teológicas. Maneira de dizer que o campo político
moderno não é o campo da laicização da sociedade, mas a esfera da secularização
de construções teológicas.
Uma das consequências desse raciocínio está
na consciência de que talvez nossas sociedades ocidentais nunca consigam se
livrar da matriz teológica que nos constituiu. O que coloca questões
importantes para aqueles que
compreendem como o desafio maior para os
processos de modernização social encontra-se na desativação do conservadorismo
político, moral e de costumes patrocinado atualmente pelas igrejas.
Vejamos, por exemplo, o caso dos protestantes. Atualmente, o Brasil encontra-se diante da recrudescência da força política das igrejas evangélicas, normalmente associadas a uma pauta radicalmente conservadora em matéria de costumes e política. O que não poderia ser diferente, uma vez que as missões evangélicas que vieram para o Brasil nas primeiras décadas do século XX partiram, principalmente, de grupos profundamente ancorados no Sul dos Estados Unidos. Os mesmos grupos que hoje constituem o Bible Belt, dando suporte às alas mais conservadoras do Partido Republicano, como as famosas igrejas batistas do Sul.
No entanto, a tradição protestante contém, em seu interior, uma impressionante prática revolucionária, isso ao menos desde Thomas Müntzer, reformador líder da revolta dos camponeses contra a opressão pelos príncipes alemães. A esse respeito, Ernst Bloch escreveu um belo livro: Thomas Müntzer, Teólogo da Revolução.
Lembremos ainda como são os protestantes que enunciarão, ao menos no Ocidente, a centralidade do direito de resistência contra a opressão. Longe de ser a simples enunciação dos direitos da individualidade liberal-burguesa, ele se funda na noção de que os valores maiores presentes na vida social podem ser objeto de problematização e crítica, o que exige a institucionalização da liberdade.
Em Calvino encontramos uma afirmação como: “Os governantes de um povo livre devem envidar todo esforço a fim de que a liberdade do povo, pelo qual são responsáveis, não desvaneça de modo algum em suas mãos. Mais do que isso: quando dela descuidarem, ou a enfraquecerem, devem ser considerados traidores da pátria”. É fato que ele evita generalizar tal consideração sob a forma de um direito geral de resistência. No entanto, a noção calvinista mostra claramente a possibilidade de uma crítica ao poder feita em nome de exigências de institucionalização da liberdade.
Essa crítica será radicalizada por setores
do pensamento reformado, como o próprio Müntzer e alguns reformadores puritanos
ingleses. A partir deles, o direito de resistência aparece como fundamento da
vida social. Essa abertura do pensamento reformado ao problema da resistência
alcançará o pensamento político. Ela será radicalizada pela tradição
revolucionária francesa, que não deixará de ser influenciada pelos huguenotes.
É de Martin Luther King a afirmação de que
há algo errado com o capitalismo. “Deveria haver uma melhor distribuição de
recurso e talvez a América deveria ir em direção ao socialismo democrático”. Neste
momento em que uma faixa dos protestantes parece abraçar despudoradamente
causas conservadoras, valeria a pena meditar sobre essa outra tradição que os
constituiu.”
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