Feminismo pra quê?


Clara Averbuck e Nádia Lapa, CartaCapital

"Pra quê feminismo?", ouvimos com frequência. Tentam explicar o suposto anacronismo do movimento: "mulheres já podem votar, fazer faculdade, trabalhar fora, tomar pílula." Ignoram que isso tudo foi conquistado exatamente com o tal feminismo. Nada disso foi entregue de mão beijada.

Parece irreal. Afinal, as sufragistas foram às ruas lutar pelo direito de votar há mais de cem anos. A segunda onda do feminismo, a que nos deu alguns direitos reprodutivos, começou em 1960. Nossos direitos nem deveriam mais estar em discussão. É bizarro que tenhamos de lutar por uma premissa básica, muito básica: homens e mulheres devem ser tratados como iguais. Deveria ser óbvio. Mas não é.

Olhando de longe, parece que está tudo bem. Você sai às ruas e vê mulheres interagindo socialmente, dirigindo, saindo sozinhas, pagando contas. 

Chegando mais perto, conversando com essas mulheres, você percebe que elas sofrem violências diárias por causa do seu gênero.

Está no contracheque, apontando um salário 30% menor que o colega homem que exerce a mesma função.

Está no medo de usar o transporte público. No ônibus, vai precisar se afastar do corpo do outro passageiro. Muitas vezes, fingir que não está percebendo a agressão dos olhares, palavras e - horror dos horrores - toques. Ela vai repensar a própria roupa. Estaria curta demais? O decote, muito provocativo? É a bunda que cresceu mais do que devia? É culpa dela? 


Está nas dezenas de revistas femininas que ensinam como fisgar um homem, como se vestir, como se portar, como se maquiar, como se depilar, como e o que falar para estar dentro de um padrão irreal que a sufoca diariamente. Ela nunca vai estar perfeita. Ela nunca vai ser boa o suficiente. Ela precisa tentar, gastar horas do seu dia e muitos reais do seu salário atrás desse ideal, ou "nenhum homem vai querer" com aquela barriga, com aquele cabelo, com aqueles peitos.

E, caso ela não goste de homem, é porque não encontrou nenhum que a satisfizesse, e não porque essa é a sua orientação sexual. Caso ela opte fugir desse padrão, tem que querer quem a quiser, sem o direito de dizer não. O "não" da mulher vale muito pouco, quase nada.

O corpo dela será sempre motivo de regulação e análise.

Se ela quiser ter vida sexual ativa, terá de se "cuidar". Usar métodos contraceptivos e exigir que seu parceiro, se ela for heterossexual, use camisinha. A ele, só o prazer (mulheres não gostam de sexo mesmo...). Se engravidar, problema é dela: caso decida pelo aborto, pode encarar anos atrás das grades. Se tiver dinheiro, pode procurar uma clínica - sempre tem alguém que conhece. Se não tiver dinheiro, se ferra em dobro, corre sérios riscos de saúde e poderá até morrer em decorrência a um aborto malfeito. Os direitos reprodutivos conquistados há décadas ainda estão atrasados no Brasil.

Ai dela se transar casualmente. O caráter dela será colocado à prova. Vadia, periguete, rodada. Desvalorizada. Na verdade, ela nem precisa fazer nada disso; em algum momento da vida, toda mulher será julgada - e considerada culpada. Mesmo fazendo tudo "direitinho" como a sociedade espera. Namora, fica noiva, casa.

Na vida doméstica, gastará nove vezes mais tempo limpando a casa e lavando a louça do que seu parceiro, que vai se gabar de "ajudar" em casa às vezes. Uma dica: em casa civilizada não se "ajuda", se divide tarefas.

Esta mulher não é livre sequer para sair despretensiosamente. Ela só quer tomar uma cerveja em paz para relaxar depois de um dia cansativo. Sozinha, nem pensar. Farão mil conjecturas a respeito dela; tentarão descobrir o que ela pretende, quanto ela cobra pela companhia, que tipo de golpe quer dar. Se está sozinha, é porque "está querendo". Às vezes pode estar mesmo. Outras vezes vai querer ficar sozinha, apenas. Mas não dá. Não deixam. Enchem o saco.

Se decidir se separar, que se prepare! É possível que o ex-parceiro possa agredi-la e até matá-la, tudo com a benção da sociedade, que se recusa a enxergar que não é apenas um problema de "ignorância", é machismo mesmo, aquele que faz o homem acreditar que a mulher é um bem que lhe pertence. "Ele amava demais", "foi crime passional", "ela que traiu". Ela virará estatística.

Não, isso não é uma invenção. Segundo relatório publicado este mês pela Organização Mundial de Saúde (OMS), a violência contra a mulher atinge níveis de epidemia. Mais de um terço das mulheres do mundo sofrem violência física ou sexual.

De todos os assassinatos cometidos contra mulheres, 42% têm como criminoso o ex-parceiro. A situação é tão grave que o crime tem até um nome para chamar de seu: "feminicídio", o assassinato evitável de mulheres por razões de gênero.

Essa mulher (e você também) precisa do feminismo. Um dia ela não vai precisar mais. Um dia.”

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About Antonio Ferreira Nogueira Jr.

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Revista- WMB

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