Sabotar Mais Médicos é coisa de espírito de porco


Por mais que discorde da posição de alguns médicos, sobre o Mais Médicos, do governo federal, não dá para dizer que essa postura não é legítima. Mas a sabotagem não dá para aceitar

Cadu Amaral, Brasil 247

Discordância. Algo tão salutar para fomentar construções no campo das ideias. É na discordância e contradição que muitos avanços surgiram na humanidade. Exemplos não faltam. Por mais que discorde da posição de alguns médicos, sobre o Mais Médicos, do governo federal, não dá para dizer que essa postura não é legítima. Mas a sabotagem, não dá para aceitar.

Na primeira semana de inscrição para o programa, mais de 11 mil médicos, de 753 cidades se cadastraram, 80% deles formados no Brasil. O tempo de participação no programa é de três anos. Porém há rumores de que muito o fizeram para não assumir a vaga que pleitearam apenas para atraso de cronograma e criar confusão. Pensam essas almas sebosas estarem sabotando o governo federal, mas sabotam o povo mais pobre, especialmente os de locais mais distantes e dos 700 municípios brasileiros onde não existe um único médico sequer.

Os que discordam alegam, entre outras coisas, que falta estrutura em hospitais públicos e postos de saúde. Forma às ruas com essa premissa. O gozado é que nunca o fizeram antes. Nunca "pintaram" as ruas de branco com seus jalecos cobrando das autoridades melhores estrutura hospitalar pública no Brasil. Então por que agora?
Toda a "revolta" começou após o governo federal anunciar a vinda de médicos estrangeiros – cubanos! – para suprir vagas na atenção básica, em cidades do interior. Se a informação fosse de que viriam profissionais dos EUA, por exemplo, talvez o ranger dos dentes fosse menor. Para disfarçar o preconceito contra a ilha com a melhor medicina preventiva do planeta, passaram a cobrar a infraestrutura.

É mais do que justo reclamar desse problema. Ninguém em sã consciência se nega a fazer isso. Mas também não dá para negar o aumento em investimentos nessa área na última década. A saúde no Brasil é municipalizada. Se o dinheiro vem e não é aplicado, cobre da sua prefeitura. Em alguns casos, como hospitais gerais, do governo estadual.

Depois cobraram plano de carreira para que os médicos pudessem voltar do interior para as capitais. Chegaram a comparar com a carreira de juízes, onde o Estado dá mais garantias do que devia, vamos combinar. Será que os médicos estariam dispostos a abrirem mão das clínicas particulares para se dedicarem exclusivamente ao SUS? No Judiciário juízes e promotores não podem advogar. Com a palavra o Conselho Federal de Medicina (CFM) ou a Federação Nacional dos Médicos (Fenam).

Outro argumento é o do aumento do curso de Medicina em dois anos a partir de 2015. Esses anos a mais são para atendimento de atenção básica no SUS. Entre as diversas alegações está o de que o internato – etapa obrigatória nos cursos de Medicina – já se dá pela rede do SUS. Mas ninguém de jaleco diz que essa etapa é feita de forma fragmentada pelas especialidades médicas. O que se propõe é que nos dois anos de SUS os estudantes atendam o paciente como um todo e com o devido acompanhamento das universidades.

Aí falam que as instituições de ensino superior não estão preparadas para essa mudança e que os reitores não foram consultados. Sobre o preparo, essas mudanças no curso de Medicina somente passam a valer a partir de 2015. Ou seja, os que ingressarem nos cursos a partir dessa data é que passarão por essas mudanças. Sobre os reitores, sim, eles deveriam ter sido consultados.

Sobre as remunerações não há o que dizer. Dez mil reais, mas ajuda de custo com o deslocamento que pode chegar a R$ 30 mil.


E o Revalida?

O exame para revalidação do diploma médico existe para que profissionais médicos de outros países atuem no Brasil. Outras nações aplicam testes semelhantes. Como quase tudo na vida, há um porém: se os médicos estrangeiros que vierem para trabalhar no Mais Médicos fizerem o Revalida, após o término do três anos de programa, eles poderão atuar onde quiserem no país. O que geraria disputa de mercado com os médicos brasileiros. Essa não é a intenção do governo federal.

Ainda sobre esse exame: os brasileiros que estudam no exterior estão na sexta colocação do ranking de aprovados no Revalida. Venezuela e Cuba são os primeiros colocados, respectivamente. E por que não aplicar a prova aos formandos em Medicina, assim como faz a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) para os bacharéis em Direito que desejam exercer a advocacia? O que tem de médico que não olha para o paciente e seus diagnósticos são sempre a maldita virose, não tá no gibi.

Ninguém nunca, em lugar algum, afirmou que a vinda dos médicos estrangeiros ou a ida dos médicos brasileiros para o interior e as periferias das grandes cidades é a salvação da lavoura ou que todo o resto vai de vento em popa. Mas que isso ajuda e muito a questão do atendimento preventivo e na atenção básica, ajuda sim.

De todo jeito, sempre vale o debate. A sabotagem, não. Você é médico e não quer participar do Mais Médicos, acha que um absurdo ser "escravizado" com salários de R$ 10.000,00 atendendo pobres, simplesmente não se inscreva no programa. E depois tem gente que acha ruim quando se afirma que médicos (sempre há exceções!) são elitistas.’
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About Antonio Ferreira Nogueira Jr.

Contato- nogueirajr@folha.com.br
Revista- WMB

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1 comentários:

Pensador cômico disse...

A alcunha que a classe médica é eletista e corporativista é uma imagem popularesca e irreal, posto que sempre a sua profissão foi ligada a atenção e dedicação ao ser humano, onde anos de estudo e trabalho permitiram seu sucesso, tanto profissional ou econômico. Porém, a campanha governamental coloca a classe médica como a primeira opção, alegando que eles não estão interessado em trabalhar por um bem comum. Mas será?
Médicos sempre lutou por melhoras no SUS, que seu investimento vem da prefeitura, ou seja, quantas vezes em diversos municípios, cartas, vereadores e reunião com secretários de saúde nunca foram atendida e por ser algo de cunho regional, nunca foi divuldado no Jornal Nacional...
Assim, quando um plano nacional "mais médicos" surge distorcido, a manifestação contrária colocam médicos brasileiros como covarde que teme a "concorrência". Não! A concorrência é bem vinda, troca de experiência é necessária mas como muitos bons médicos que vem de fora e passam por Revalida alertam, isso é perigoso e não resultará numa melhoria real, pois faltam remédios, equipamentos, leitos e o absurdo de luvas e seringas.
Poderia listar séries de problemas e incongruências mas o que de fato quero elucidar é que a medida não foi feita em conjunto com o CFM que poderia oferecer planos emergenciais que está de acordo com a classe, lutar para melhoria do SUS para desafogar, o que quase ninguém seba, a extrema concorrência no sistema privado de saúde que na verdade, 60% da população brasileira utiliza.
Tudo o que o governo conseguiu foi um tratamento publicitário para elaborar um plano heroico que possa salvar a sua imagem, mas para salvar a saúde seria algo a longo prazo e sem retorno eleitoreiro como disse, equipar um posto de saúde municipal de uma cidadezinha não vai chamar atenção. Assim, todo ato em que existe o heróis, existe o vilão... Infelizmente, o vilão são os médicos.