Pesquisa constata “revitalização” feminista nas mídias sociais ao redor do mundo



“Um estudo feito por duas pesquisadoras da Macquarie University e da Universidade de Sydney constatou que, a partir de 2012, houve uma “revitalização do pensamento feminista” na Austrália e em outros países, em especial nas redes sociais, onde há maior abordagem do tema e páginas dedicadas ao assunto. No caso australiano, a retomada do feminismo aconteceu, segundo a pesquisa, por causa de um famoso caso envolvendo falas misóginas e sexistas por parte de um radialista contra a ex-primeira-ministra do país, Julia Gillard.

Em 23 de setembro do ano passado, poucas semanas após o falecimento do pai de Julia, que foi a primeira mulher a assumir o cargo no país, o apresentador de rádio Alan Jones aproveitou um discurso durante um jantar organizado por uma associação privada para tecer comentários considerados ofensivos à então primeira-ministra. “O velho morreu recentemente, há algumas semanas, de vergonha. E pensar que ele tinha uma filha, que disse mentiras cada vez que se dirigiu ao parlamento”, disse.

Na ocasião do jantar, Jones autografou um casaco feito de palha que foi a leilão na mesma noite. A peça de roupa era uma referência a comentários anteriores do próprio radialista, nos quais dissera que a primeira-ministra deveria ser “colocada em um saco de palha e atirada ao mar”. Os comentários foram secretamente gravados por uma jornalista que estava presente no jantar e divulgados mais tarde. O caso gerou ampla repercussão, e o radialista chegou a perder toda a publicidade de seu programa de rádio.

O estudo foi coordenado pelas pesquisadoras Jessica McLean e Sophia Maalsen, que avaliaram os impactos subjetivos do caso na população e seus desdobramentos na internet. A partir de exemplos práticos decorrentes do escândalo, como a campanha intitulada “Destroy the Joint” (algo como “destrua a articulação”), as pesquisadoras exploram a possibilidade de estudar a “geografia” do pensamento feminista na rede.

Para elas, houve de fato uma revitalização ou retomada do pensamento feminista na Austrália desde meados de 2012, com um claro objetivo de combater a desigualdade de gênero em inúmeros espaços. Elas citam tanto o ambiente político como os espaços públicos. “É uma tarefa desafiadora para criar um mapa e registrar essa revitalização, já que os diferentes espaços em novas mídias estão mudando constantemente por meio de suas redes dinâmicas. É, no entanto, uma tarefa que vale a pena”, afirma Jessica.

Destruição da articulação masculina

A pesquisa observou que a campanha “Destroy the Joint”, que se tornou uma página no Facebook, é protagonista da revitalização do pensamento feminista no país. Hoje, são mais de 34 mil fãs no Facebook e cerca de 8.500 seguidores no Twitter. A campanha ganhou ainda mais força com a adesão da escritora britânica radicada na Austrália, Jane Caro, e da médica Jill Tomlinson.

Ambas passaram a fazer comentários no Twitter contra o radialista Alan Jones, ao afirmar, por exemplo, que “as mulheres estão destruindo a articulação [masculina] em cargos públicos ao redor da Austrália”, já que há uma clara ascensão de mulheres a cargos políticos no país, além da chegada de Julia a um cargo até então tradicionalmente ocupado por homens.

“Ao analisar a revitalização feminista aparente em relação ao ano passado, verificamos que houve um grande número de campanhas menores, a partir do DTJ [Destroy the Joint], que alcançaram sucesso substantivo em comparação com outras campanhas, como Kony 2012, que levantou fundos notáveis, mas ofereceu retornos limitados”, explica Sophia.

As pesquisadoras se referem a iniciativas de sucesso da campanha feminista na internet, como quando o grupo conseguiu garantia de livre acesso a números de telefone privados de uma operadora de telefonia celular australiana para sobreviventes de violência doméstica. Outra campanha de sucesso do grupo foi justamente a que culminou com a retirada da publicidade ao programa de rádio de Alan Jones.

Paradoxo do sexismo

Por outro lado, as pesquisadoras constataram que muitos desses novos espaços sofrem de um indireto paradoxo ao tratar de feminismo, enquanto, ao mesmo tempo, procuram continuar a se desenvolver e a se reconstruir como uma linha de pensamento nas mídias sociais. Isso porque a audiência e o sucesso das campanhas motiva, do mesmo modo, a reação misógina de internautas nesses espaços.

“De fato, assim como esses sites podem oferecer um espaço para decretar o feminismo, eles também podem ser usados para perpetuar o sexismo e a misoginia, como as recentes ameaças de estupros feitas via Twitter e as ameaças de bomba contra jornalistas mulheres”, diz Jessica.

“A desigualdade de gênero requer uma ação em diversas frentes, e não é o único eixo de diferença que pode ser renegociado no ciberespaço. Pegando emprestadoas palavras proferidas por Julia Gillard em seu último discurso como primeira-ministra da Austrália, o gênero 'não explica tudo, não explica nada, ele explica algumas coisas'”, conclui a pesquisadora.”

Com informações do Phys.org
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