É muito fácil vender a mãe


Graça Taguti, Revista Bula

“De certa forma vender a mãe é como repassar a alma ao diabo. Os sentidos são múltiplos. Não ter escrúpulos, ser íntimo do cinismo, fazer conchavos com a dissimulação, trair a confiança dos que algum dia já foram importantes pra nós, torpedear aquilo que em outros séculos se convencionou chamar de caráter, vergonha, pudor e variações de termos afiliados.

Normalmente, quem vende a mãe se comporta  de acordo com as conveniências. Já enterrou os ideais remanescentes do outro lado do rio. Atirou os sonhos no lixo faz tempo, porque a grande meta de sua existência consiste, aliás, em não perder tempo com o que não vale a pena. Quinquilharias bestas da mente que não asseguram retornos, lucros buliçosos e polpudos, de tão promissores.

Vender a mãe é extremamente prático. Carece de reflexão, psicanálise, cutucadas da consciência. Basta rejeitar valorosos princípios de antigamente, como ética, honestidade, delicadeza, discernimento. Para que apostar no que perdeu a serventia e a aplicabilidade cotidianas, na insaciável rotina da atualidade? Uma resposta, dentre tantas que pairam no ar das dúvidas terrenas.

A minha e a sua mãe recebem, costumeiramente, xingamentos de todo tipo. “É a mãe! Filho de uma égua; Vai pra puta que te pariu” e congêneres.  Imagina-se a princípio que todas as genitoras provêm de luz e bondade seus descendentes. Até mesmo porque elas são inatacáveis, Virgens Marias, Madres de Deus, redentoras dos pecados da frágil e dissoluta humanidade.

Mas é prudente se acautelar. O demo, belzebu, tribufu, ou o apelido que se pretenda emprestar ao Zé do Tridente, fareja diuturnamente ataques certeiros a almas cambaleantes, permissivas, fáceis de corromper.

O filósofo Sartre já afirmava: “O inferno são os outros”. E nós — com o peito chamuscado em chamas e vendas de aço nos olhos — flagramo-nos irremediavelmente condenados à escuridão. Ejetando, vazando, transbordando mazelas de todas as cores, tamanhos e lamúrias em cima de qualquer cristão ou ateu que nos circunde.

Toma que o filho é teu. Longe de mim acolher, nos pátios vazios do meu corpo,  sentimentos medíocres e comezinhos, como cobiça, ganância e rancor — clamarão os pobres e indignados mortais. Ao contrário: tudo é lindo e maravilhoso, como assevera a canção. É preciso estar atento e forte. Atenção para o refrão. Só que não.

É simples agir assim, desprendendo-se das próprias atitudes. Lavar as mãos impune e automaticamente, à la Pôncio Pilatos, rejeitando  qualquer responsabilidade sobre atos ou intenções soturnas. Quem ama o feio bonito lhe parece — ratificaria a personagem Pollyana, em seus “jogos do contente” habituais.

No filme espanhol de 1999, “Tudo Sobre Minha Mãe” o cineasta Pedro Almodóvar aborda temas complexos como AIDS, travestismo, identidade sexual, religião, fé e existencialismo. Hoje, a busca pela reinvenção dos conceitos de  maternidade, extrapolou paradigmas de qualquer ordem genética ou social.

Homens e mulheres transitam entre inseminações, fertilizações e direitos mais que modernos dirigidos à semântica embutida no vocábulo.
É fácil matar a mãe quando a dita cuja, entre um bocejo e outro, despeja mais um rebento no mundo. E o faz quase sem se dar conta, dando vida às sombras — não à luz.  Mães assim defecam ao invés de parir. Parte-se então para a ousada tarefa de esterilizar dogmas e advertências religiosas vinculadas à inextricável e inquestionável beatitude da maternidade.

Cora Coralina, brava poeta goiana, sublinhou conselhos num de seus poemas: “A humanidade se renova no teu ventre. Cria teus filhos, não os entregues à creche. Creche é fria, impessoal. Nunca será um lar para teu filho. Ele, pequenino, precisa de ti. Não o desligues da tua força maternal”.

Simone de Beauvoir, escritora feminista, na obra “O Segundo Sexo”, instigava seus leitores:  “Foi como Mãe que a mulher tornou-se ameaçadora; é na maternidade que ela deve ser transfigurada, domesticada”.

Concentrado na temática, Freud permitiu-se engendrar certas digressões, sobre o que o médico denominava  de “enigma da natureza feminina”.

Para ele, passividade, masoquismo, frigidez, vaidade, são atributos da constituição feminina, resultado da consciência da castração e consequente inveja do pênis.  Esta inveja, mais tarde, será substituída pelo desejo de ter um bebê — preferencialmente masculino, para quem a mãe transfere a ambição que ela foi obrigada a suprimir.

Machista, tendencioso em muitas de suas teorias? Volta e meia Freud, lá do seu túmulo, ainda sofre bombardeios de psicanalistas e correlatos.  Mas e você, o que pensa? Sentiu raiva ao debruçar seus olhos no trecho acima? Então, sejamos justos. Para o seu alívio, saiba que é muito fácil matar o pai, também.’
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