Passe Livre, FdE e Black Blocs - enquanto Mídia


Duanne Ribeiro, Digestivo Cultural

"Esbocemos uma tese nem tão nova: as ações portam conteúdos narrativos e informativos; as ações são mídia, e, como diz a regra, implicam em reações, também midiáticas. Se assim for, nenhum ato ocorre sem estratégia nesse sentido. Os protestos de junho e correlatos nos dão três exemplos distintos disso. O Movimento Passe Livre (MPL) se dispôs no debate público como um tiro: pontual, compacto, específico, não pode ser diluído no jogo de interesses e ponto de vistas que soe ocorrer. A Mídia Ninja foi por sua vez como uma bomba de efeito moral: sua inserção no campo de atenção das pessoas gerou múltiplos e contraditórios efeitos, o maior deles o vazamento da discussão pela brecha do coletivo Fora do Eixo (FdE), quando explodiu e implodiu. Os Black Blocs, enfim, um homem que ateia o próprio corpo em chamas: indefinido e ao mesmo tempo muito bem definido, sem falar por ninguém, sem nem mesmo se preencher de sentido, obrigou a sociedade a formular sozinha os sentidos, em grandes consensos opostos. Mas as metáforas são só metáforas. Vamos aos fatos.

O Vácuo
Os Black Blocs se definem - um momento, os Black Blocs não se definem... não há líderes ou direção centralizada, não há rigorosamente um grupo, não no sentido de algo que se organiza e permanece. Os Black Blocs surgem da dispersão e voltam à dispersão. Agora: alguns dos indivíduos que participaram desses flash mobs, provavelmente os mais politizados entre eles, serviram de fonte a jornalistas. Esses, sim, definiram a prática dos Black Blocs. À Carta Capital, foram citados como "estratégia", "performance", "tática" - palavras que se referem à ação, a algo que ocorre em um tempo e em um lugar; substantivos com tempo verbal? Presente... De modo mais fundamental, são uma estética: "Nossa sociedade vive permeada por símbolos, e saber usá-los é essencial em qualquer demanda, seja ela política ou cultural. (...) Não se trata de depredar pelo simples prazer ou alegria de quebrar ou pichar coisas. Trata-se de atacar o símbolo que existe representado naquele local ou objeto físico".

Causando, sendo fatos incontornáveis, os Black Blocs enfaticamente demandam reações. A sua falta, ou supressão, de "identidade" tem três efeitos. O segundo e o terceiro são determinados pela forma desse tipo de ação direta e suas consequências: de um lado, os que veem nos atos de violência um potencial criativo; de outro, os que subsomem essas atitudes no conceito mais genérico de "vandalismo". O primeiro deriva de seu estado anônimo: ou a crítica não chega a julgar o que fazem e ataca a partir de um princípio - por cobrir o rosto, se tornam criminosos automáticos - ou tenta lhes dar uma face à força. Não discutimos se são ou não "legítimos" - não é essa a pauta aqui - nos interessamos pela sua potência enquanto meio e mensagem simultâneos (para lembrar McLuhan...). Enquanto mídia, como agem/agiram sobre nós? Que é que somos obrigados a ver, pensar, discutir, fazer?”
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