Os cretinos também amam



“Idiota, imbecil ou cretino? Vamos de cretino, pois, cretino rima com intestino, que remete imediatamente à merda, deixando o adjetivo muito mais adequado para aplacar a minha ira e pulverizar os protagonistas desta crônica que — eu torço — vocês sorvam até o talo.

Cretino que é cretino de verdade dá uma rapidinha de manhã, queira a sua companheira ou não. Sonolência? Preguiça? Dor de cabeça? Bafo? Que nada. Há que se obter, sem réplicas nem tréplicas, qualquer orifício, adentrar com o falo e… pimba! “Tenha um bom dia, querida”.

Mulheres cretinas costumam se afeiçoar por homens cretinos. É uma atração natural, uma espécie de saga bíblica pela perpetuação da espécie. Uma vez devoradas pelo parceiro, ainda que a contragosto, sofredoras natas e cretinas cumprem com devoção o papel de fiéis depositárias de esperma alheio. Então, tomam uma ducha, trocam de calcinha, e dificilmente trocam de marido, a não ser que seja por outros cretinos, pois os cretinos se merecem ao ponto de contrariarem as próprias leis da física: no caso deles, pólos iguais não se repelem, mas, se atraem.

Há certo fascínio das parceiras dos cretinos pelos trabalhos domésticos, pelo permanecerem domesticadas. Mulheres cretinas têm ambição rasa, não almejam carreiras, não se incomodam por dependurarem no arrimo de família, e até se vangloriam por isso.

Mulheres cretinas suportam cada bucha. Elas convivem com a humilhação diuturna como se fosse uma missão divina, um aconselhamento das suas mães igualmente cretinas. O cretinismo é uma praga impalpável que costuma passar de pai pra filho, que nem sífilis.

Elas, as cretinas conformadas, absorvem as ofensas como se absorvessem, de forma retrógrada, o próprio sangue menstrual. Elas toleram o descaso e o desamor, supostamente, com muito amor e muita conveniência também. Elas relevam o afeto dos companheiros pelas concorrentes, afinal, a aventura é uma particularidade dos homens, sejam eles cretinos ou não.

As mulheres cretinas são as melhores companhias que um cretino pode ter notícia, desde que o cretinismo brotou nas cavernas e, por conseguinte, nas grutinhas de amor (termo lúdico que os amantes cretinos utilizam ao se referem à boa, velha e elástica vagina). O relacionamento compete com o sofá antigo e puído da sala: vai sustentando o peso dos dias, sem cuidado, sem dignidade alguma.

Mas, voltemos aos homens cretinos, e deixemos que as suas submissas companheiras varram quintais, catem cocô de cachorro nas calçadas da vida pacata e chata que escolheram. Após ejacular na parceira como se fosse um geiser desavisado, o cretino se irrita porque tem que trabalhar, então, chuta o cachorro que, alheio a tanta mediocridade, tenta lamber a sua mão. Àquela hora da manhã, não há motivos para tamanha sentimentalidade, ele pensa. O tempo urge. O cão gane de dor e medo, e se esconde embaixo do tanque de lavar roupas, ocupando o espaço que deveria ser de uma filha, de um filho, ou até mesmo de um botijão de gás.

Cretinos quase sempre estão apressados, atrasados, pois são preguiçosos, desorganizados, odeiam acordar cedo. Enquanto usa o banheiro, o homem cretino grita que a mulher providencie, o mais rápido possível, o café da manhã, o qual ele devora, afobado, como se transasse. A vingança é um prato que se come frio: homens cretinos costumam ter ejaculação precoce.

Barriga cheia, pé na areia: o cretino ganha as ruas e quem perde é o mundo. Com seu carro deseducado a soltar óleo e fumaça pelo caminho, ele fura o sinal vermelho (como se rompesse um hímen), para sobre a faixa de pedestre (como se pisasse nos anseios de uma mulher), ultrapassa pela direita (porque o desamor não tem limites), buzina feito um alucinado (em casa, ele diz cantar de galo), suborna o guarda de trânsito (na hora do jantar, gaba-se aos filhos por ser desonesto).

Homens cretinos são viciados em ócio. Portanto, eles preferem ocupar cargos comissionados em órgãos públicos, pois não precisam se esforçar muito para entrarem lá, nem para se manterem. A cada dois anos, dedicam contrapartida aos partidos políticos que os indicaram, bajulam o deputado amigo, participam das campanhas eleitorais, pedem e compram votos para os candidatos cretinos da legenda. Enfim, cretinos adoram politicagem, mais do que os porcos apreciam lavagem.

Para que os dignos funcionários públicos não se sintam ultrajados, suponhamos que o cretino desta crônica (não me refiro ao autor, evidentemente) trabalhe numa empresa privada. Comumente atrasado, o cretino tem um repertório extenso de desculpas esfarrapadas. “Se não ficou satisfeito, que me mande embora”, ele diz, a destilar empáfia.

Um cretino contumaz não se contém em reclamar do trabalho, do governo, do casamento, e do acasalamento (lembrando que, para um mau amante, até o escroto atrapalha). Vocês não estão entendendo, senhores: flutuamos num mar de mediocridade e um cretino está no leme. Antes o baquinho vagasse à deriva.
Cumprida a terrível jornada de oito horas, o cretino apressa-se em bater o ponto, embora preferisse bater no patrão. Antes de voltar pra casa, melhor tomar umas com os amigos cretinos. Cretino esperto não tem essa de beber com moderação, não. Cretinos, quando embriagados, pensam dirigir melhor que a maioria dos não cretinos.

Porém, quando um acidente acontece, e o cretino bêbado passa com as rodas do seu carro sobre o otário que atravessa a rua na faixa de pedestres, aí a culpa é de Deus, do atropelado, do cara que pintou a faixa no asfalto, ou da fatalidade. Fatalidade é uma mulher parir um cretino, isso sim.

Quando, finalmente, adentra o portão de casa, o cretino se sente o mais valoroso dos homens. O cão que, por causa de seu comportamento ingênuo e extrovertido parece tão cretino quanto o dono, não foi adestrado para discernir entre seres humanos cretinos e não cretinos. A devoção cega tem este defeito. Então, o bicho pula, e lambe, e late, e apanha de novo pela inconveniência ao extravasar tanta alegria.

Uma mulher cretina pode até ser uma boa cozinheira. Afinal, a burrice independe dos dotes culinários. Mas, mesmo que o jantar esteja delicioso, para diminuir ainda mais uma mulher, não custa ao cretino reclamar da dureza do bife, da dureza da vida, da falta de sal na comida e no relacionamento, do ovo com a gema dura que ele preferiria com a gema mole.

Terminado mais um dia, para alívio da humanidade, os cretinos finalmente adormecem. Só que eles sonham uns sonhozinhos bem medíocres, como se estivessem acordados.”
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About Antonio Ferreira Nogueira Jr.

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Revista- WMB

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