Sua vida como autista



“Você acorda e se sente como se estivesse em outro planeta. Todos os seus sentidos se transformaram: as cores são mais vibrantes, os sons, mais intensos, os odores, mais fortes. O barulho de uma colher caindo ao chão parece um sino de igreja. Pessoas rindo parecem monstros vampirescos, gargalhando diabolicamente. E as convenções sociais são hipocrisias com as quais você não consegue lidar. A sua mulher pergunta: “Como fiquei nesse vestido?”. E você responde: “Ficou velha, feia e gorda”, com a tranquilidade de quem está apenas falando a verdade.

Se isso acontecer, tenha certeza: você acordou com os sintomas de um autista. Essa hipersensibilidade é um dos temas explorados pela Sociedade Nacional do Autismo do Reino Unido, onde existe cerca de meio milhão de autistas, em quatro vídeos de uma campanha recente. Os vídeos mostram como os autistas percebem acontecimentos rotineiros, muitas vezes insuportáveis para eles.

“Muitos deles têm hipersensibilidade. Podem, por exemplo, se incomodar com o barulho do lápis que usam para escrever. Não conseguem filtrar os estímulos que recebemos normalmente”, diz Maiara Ignez Fischer, psicóloga especializada em autismo, ressaltando que há um amplo espectro da síndrome. “As partes do cérebro de um autista funcionam separadamente, recebem as informações de maneira fragmentada e têm dificuldades de fazer as conexões”.

Essa característica explica o comportamento que têm em algumas situações mais críticas, em que simplesmente fogem da cena ou tampam os ouvidos e abaixam a cabeça, procurando ignorar a realidade — como bem demonstram os vídeos.

Autistas são fiéis ao que sentem e pensam — e têm dificuldades de apresentar o comportamento social estabelecido. Não olham nos olhos de seus interlocutores, por exemplo. Não só porque têm dificuldades de interagir com outras pessoas mas, também, porque não compreendem a necessidade de fazer esse gesto. “Eles só fazem aquilo que tem função lógica.Pra que olhar nos olhos? Não entendem o jogo social, não conseguem praticar a ‘mentira social’”, explica Maiara.

O que explica, de certa forma, a dificuldade que apresentam de fazer amigos. Eles só conseguem se aproximar daqueles que têm interesses semelhantes aos seus. Autistas adotam interesses peculiares, como, por exemplo, carros, borboletas, idiomas ou viadutos — e se aprofundam nesses temas como verdadeiros especialistas. E praticamente só conseguem se relacionar com aqueles que compartilham os mesmos interesses e são capazes de conversar sobre o assunto horas seguidas. Do contrário, para que ser amigo de quem não se interessa pelos mesmos assuntos?

Tudo funciona dentro da lógica — e nisso, os autistas são incomparáveis. A ponto de muitas empresas, principalmente na Europa e nos Estados Unidos, abrirem vagas específicas para eles. “São disciplinados, pontuais, obedientes e produtivos. Se dão bem principalmente em atividades solitárias, que não exigem convívio social e que utilizam a lógica, como, por exemplo, trabalho com computadores”, diz a psicóloga.

De certa forma, autistas são pessoas absolutamente normais, com sentimentos e sensações muito semelhantes ao que todos temos. A diferença básica é que não possuem “filtros”, como denomina Maiara. Afinal, quantas vezes você já não questionou a hipocrisia social, não teve o impulso de fugir de situações que  incomodam, não se sentiu agredido pelos ruídos, cheiros e atitudes das pessoas à sua volta e não desejou intensamente se isolar de tudo para apenas executar as funções que domina e gosta?

Acordar certo dia como autista talvez não seja tanta novidade assim.”
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About Antonio Ferreira Nogueira Jr.

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Revista- WMB

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