Sobre impostos, racismo e um conselho de minha avó


Camila Pavanelli, Blog: Recordar, Repetir e Elaborar / GGN

“Como a essa altura todo mundo já sabe, a FIFA escolheu a apresentadora branca Fernanda Lima para ser mestre de cerimônias de um evento, no lugar da atriz negra Camila Pitanga. Essa escolha, que gerou acusações de racismo à entidade, foi tema de uma entrevista dada por Fernanda hoje.

Nela, a apresentadora disse não ter nada a ver com isso e procurou distanciar-se da polêmica sobre racismo dizendo coisas como “só porque eu sou branquinha?” e “pago meus impostos”.

Esta não é uma discussão sobre impostos nem muito menos sobre a situação fiscal de Fernanda Lima: é uma discussão sobre racismo.

Mas, já que ela tocou no assunto “impostos”, eu gostaria de fazer um breve desvio de rota antes de passar ao que realmente interessa.
Não sei como é em outros países, mas para mim está claro que nós brasileiros temos muito o que aprender sobre impostos, o que eles representam e significam.

Em primeiro lugar, precisamos aprender que “pagar impostos” não equivale a rezar um Pai Nosso e duas Ave Marias: não isenta de todo pecado e não livra de todo mal. Para a obtenção de benefícios espirituais, existe o pagamento do dízimo. Imposto é outra coisa.

Precisamos aprender também que pagar impostos não faz de ninguém uma pessoa moralmente imaculada. Pagar impostos é uma obrigação da vida em sociedade. Não é algo para se ter orgulho. Ao pagar seus impostos, você simplesmente não está cometendo o crime de sonegação fiscal – assim como, ao não matar ninguém, você apenas não está cometendo o crime de homicídio. Ninguém sai por aí batendo no peito e dizendo “nunca matei ninguém, hein!”, como se isso merecesse algum parabéns. Em compensação, estufamos o peito para dizer “pago meus impostos”, como se a não-sonegação de impostos fosse indicativa de força de caráter ou de uma alma superior.

Por fim, precisamos aprender que “pago meus impostos” não é argumento para nada. Vale lembrar que Descartes não disse “pago meus impostos, logo existo” nem Hamlet afirmou que “pagar ou não impostos, eis a questão”. 

Podemos estabelecer como regra o seguinte: o pagamento ou não-pagamento de impostos não se coloca como argumento em discussões nas quais nosso contador não está interessado. O pagamento de impostos, afinal, é não apenas uma obrigação como também um fato banal e corriqueiro da vida, assim como lavar a louça e escovar os dentes. Usar o argumento “pago meus impostos” em uma discussão sobre racismo faz tanto sentido quanto usar o argumento “escovo os dentes todo dia” em uma discussão sobre políticas de redistribuição de renda.

E, já que não faz nenhum sentido mesmo, vamos logo ao que interessa.

***

Minha avó costuma me dar um conselho-conceito dentro do qual se encaixam inúmeras coisas:

“Filhinha, faz tudo direitinho!”

Sempre gostei desse conselho justamente pela generalidade da fórmula: as coisas a serem feitas direitinho eram todas aquelas que meu superego assim determinasse.

(Por exemplo, é preciso pagar os impostos direitinho.)

Eu costumava pensar que fazer tudo direitinho seria suficiente – fazer as coisas direitinho era o que a vida exigia de mim.

Fazendo tudo direitinho, pensava eu, tudo ficaria bem.

Depois da leitura de certo livro, porém, passei a questionar o conselho de minha avó.

***

Em É Isto Um Homem?, Primo Levi conta como sobreviveu à sua estadia em um campo de concentração na Alemanha nazista.

Comecei a ler o livro imaginando que os momentos mais aterrorizantes seriam as descrições de execuções em câmaras de gás. Mas, como costuma acontecer em toda experiência de leitura digna desse nome, minha expectativa foi subvertida: o que mais me impressionou não foram os momentos em que pessoas eram mandadas explicitamente, diretamente para a morte, por assim dizer.

O que mais me chocou foi a descrição das pessoas que morriam no campo por doença e/ou exaustão, após quatro ou cinco meses de trabalho forçado – sem que fosse necessário enviá-las para o gás.

Para morrer no campo, você não precisava ter feito nada de errado: pelo contrário, bastavafazer tudo direitinho.

Se você fizesse tudo direitinho, isto é, se seguisse estritamente as regras impostas pelos alemães – comendo exatamente a ração de comida que lhe era destinada (em vez de roubar algum alimento a mais) e trabalhando com afinco todos os dias (em vez de enganar seu superior e se poupar) – você morreria em poucos meses. Os alemães criaram aquelas regras justamente para que seu correto cumprimento levasse à morte. Assim, bastava que os prisioneiros fizessem tudo direitinho – coisa que a imensa maioria fazia – para que morressem dentro de pouco tempo.

Sobreviveram apenas aqueles que conseguiram, em alguma medida, burlar o sistema.

***

Calma, pessoal: eu não vou dizer que o mundo é governado por uma conspiração de nazistas malvados e que vamos todos morrer em cinco meses se continuarmos pagando impostos e escovando os dentes.

O que eu vou dizer é coisa muito pior – coisa que eu gostaria que pessoas brancas como eu se dispussem a ouvir e pensar a respeito.

Ao fazer tudo direitinho, sem mover um dedo para infligir qualquer mal a quem quer que seja, nós brancos somos beneficiários silenciosos de um sistema opressor que nos precede e, apesar de que não o queiramos, nos define.

***

Quando eu era criança, trabalhava em minha casa uma empregada doméstica negra que tinha uma filha mais ou menos da minha idade.

Eu nunca fiz nada de mau para a filha da minha empregada. Assim como Fernanda Lima (e digo isso sem nenhuma ironia), eu sou uma fofa. Nem o rabo do gato eu puxava.

Só que a filha da empregada doméstica, negra e pobre, estudando numa escola de má qualidade e tendo que trabalhar também como empregada doméstica a partir dos 16 anos para complementar a renda da família, teve uma péssima formação escolar.

Enquanto isso, eu, a filha da professora de francês, branca e de classe média, estudando numa escola pra lá de razoável e trabalhando a partir dos 15 anos como professora de inglês apenas para ter uma experiência bacana e ganhar um dinheirinho só meu, tive uma formação escolar bastante boa.

Acho que ninguém estranhará se eu disser que a filha negra da empregada doméstica foi uma concorrente a menos para a filha branca da professora de francês no vestibular da USP.

***

Em termos bem concretos, a negritude e a pobreza dela e de tantas outras meninas e meninos me beneficiaram enormemente – e isso apesar de eu nunca ter feito nenhuma maldade para nenhum deles.

Eu sempre fiz tudo direitinho, afinal.

O problema é que “fazer tudo direitinho”, no nosso mundo, é exatamente o que o mundo exige para o mundo permanecer exatamente do jeito que está.

Se continuarmos fazendo tudo direitinho, escovando os dentes, pagando impostos, aceitando convites da FIFA e passando no vestibular, passaremos os próximos duzentos anos sem que as futuras Camilas Pitangas sejam alçadas ao posto de estrelas internacionais – e, o que é muito mais grave, sem que as futuras filhas de empregadas domésticas consigam estudar em boas universidades.

***

Claro que Fernanda Lima recebeu o convite da FIFA em função de seu próprio trabalho, esforço e mérito. Ninguém lhe está negando essa conquista. Da mesma forma, eu também passei no vestibular por trabalho, esforço e mérito meu.

O que não dá para desconsiderar sem uma boa dose de hipocrisia é o seguinte:

Nesse processo de sermos eleitas pela FIFA e pela FUVEST, tanto ela como eu recebemos umabela ajudinha.

Essa ~bela ajudinha~ nos foi dada pelo racismo estrutural da sociedade brasileira, que eliminou centenas e milhares de possíveis concorrentes nossas sem que precisássemos, nem Fernanda nem eu, movermos uma palha para isso.

É um sistema perfeito: a gente apresenta o evento da FIFA, estuda na USP e ainda paga de boazinha (afinal – repito – nunca fizemos mal a ninguém!).

***

Ao dizer que paga impostos, Fernanda Lima tentou se esquivar do assunto racismo.

Não posso dizer que não a entendo. Quando o assunto é racismo, nós brancos geralmente preferimos falar sobre impostos, sobre pobreza, sobre o julgamento do mensalão e sobre a morte da bezerra – tudo para não tocar no assunto tão incômodo com o qual morremos de medo de lidar. (Aliás, eu fiz exatamente isso, exatamente neste texto.)

Sem nunca tê-lo ouvido antes, Fernanda Lima mostrou ter compreendido bem a essência do conselho de minha avó. Sua entrevista poderia ser resumida assim:

“Pago meus impostos, sou uma cidadã, e agora querem me envolver em treta de racismo?Como assim, se fiz tudo direitinho?

Acontece que, no nosso mundo, uma pessoa branca que faz tudo direitinho é uma pessoa que não se descola da sua posição de opressora.

Minha avó que me perdoe, mas é preciso fazer tudo ao contrário."
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Revista- WMB

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4 comentários:

Galvam disse...

Eu sinto muito, mas você está errada! Completamente errada!
Em primeiro lugar se estivesse certa você está "cobrando" da Fernanda Lima uma atitude que você nunca teve e não tem ainda. Acredito que o seu "benefício" por "contribuir" para o "racismo estrutural da sociedade brasileira contra as pessoas negras e pobres" não se limitou a concorrência do vestibular e deve beneficiá-la até hoje.
Senão vejamos mesmo formada e com todos os requisitos necessários uma pessoa pobre e negra não conseguiria de jeito nenhum o emprego que você tem, não conseguiria acesso a crédito com os mesmos juros - Teria que pagar mais caro - e até alugar uma casa ou apartamento seria difícil mesmo tendo dinheiro e podendo pagar, as pessoas não aceitariam uma pessoa negra vivendo ao lado delas!
Eu sei! Você quer abordar aquele racismo velado, que não aparece diretamente, aquele que faz a polícia suspeitar de um homem negro por exemplo. Só por ele ser negro ele é abordado, revistado e inquirido sobre as suas intenções naquele local... Eu entendo. (cont.)

Galvam disse...

(cont.)
Então vamos acabar com alguns enganos, estereótipos que algumas pessoas (não quer dizer o seu caso!) quando resolvem ser politicamente corretas entendem como verdades:
- Em primeiro lugar, nunca neste país escola particular foi sinônimo de excelência, se você não estudou em escola pública não deve acreditar em tudo que você ouve falar. As escolas públicas mesmo antes do seu tempo de criança eram e algumas ainda são (algumas é realmente lamentável hoje em dia, deveriam ser todas!) ótimas escolas!
- Há inúmeros exemplos de pessoas, não necessariamente negras, que tornaram-se profissionais de sucesso tendo como origem a escola pública.
- Em segundo lugar a pobreza não escolhe raça ou cor. Veja conheci muitos filhos de japoneses de segunda e terceira geração que nem tinham sapato para ir à escola, e estudaram em escola pública tornando-se médicos advogados e engenheiros, claro mitificando mais ainda a raça que até hoje tem a fama de estudiosos.
Podemos neste caso atribuir as tradições arraigadas nos pais como fator fundamental para isto acontecer, mas um fato é verdadeiro eram tão pobres quanto qualquer negro que eu conhecia (que era pobre claro!).
- Tomando os japoneses como exceção a regra, também conheci várias outras pessoas de cor branca muito pobre que também venceram na vida! Todas advindas da escola pública. Veja o Governador do meu estado natal (vou omitir aqui) era filho de um carroceiro, um senhor que tinha uma carroça puxada por cavalo ou burro transportando entulhos e materiais de construção!
Era branco, tão branco cujo apelido era "pé-vermêio", pois o pé era encardido por causa da terra vermelha da nossa terra!(A gente usava muito sandália havaiana antes de ela virar grife!).
Enfim o que eu quero dizer é que:
- Não é preciso criar cotas raciais, ou sociais para garantir boa educação ou empregos públicos. Do mesmo modo que não é preciso trazer mais médicos para resolver a saúde pública.
É utópico afirmar isto mas só o que é preciso é que os nossos líderes políticos façam o seu dever da maneira como deve ser feito!(Façam tudo direitinho!)
(cont.)

Galvam disse...

(cont.)
E para forçar este comportamento eu sugiro uma mudança no pensamento da classe média brasileira. Eu sei que todos os pais querem o melhor para os seus filhos, por isso sofrem um grande estelionato quando algumas vezes pagam caríssimo pela educação dos seus filhos em colégios e universidades particulares!
Se o seu filho estuda em escola particular e vai bem, acredite não é a escola é o seu filho que se esforça para isso! Conheço toneladas de pais que pagaram um absurdo de escola e os filhos são verdadeiras toupeiras! Depois quando alguns se conscientizam, vão para cursinhos, freqüentam faculdades particulares que tem excedente de vagas e acabam em um curso superior mequetrefe! O que não seria necessário se a escola particular fosse excelente! Tenho certeza que todos devemos saber de casos e gente assim!
O que nós temos que fazer já que vai demorar para os governantes caírem na real?
Podemos ajudar se mesmo podendo pagar, passando a colocar os filhos na escola pública. Se ela for uma droga, ir a reunião de pais, participar, pressionar, cobrar, provocar mudanças, os mais esclarecidos com boa formação, podem ajudar os pais mais carentes a entender que eles tem direito de cobrar excelência do serviço público. Aí os governantes vão começar a sentir medo do povo e tomarão providências.
Quem não estiver disposto a isto, então não deve ousar criticar ou falar nada da Fernanda Lima.
Voltando a sua infância, a empregada negra da sua casa e a filha. Eu sinto muito, mas foi escolha dela e da filha não perseverar e seguir em frente com o estudo, é cruel eu sei, mas com 16 anos e vendo a mãe trabalhar como doméstica ela deveria querer mais do que tudo fazer o possível para ter uma vida melhor. E só o estudo poderia fazer isto.
Nem governo nem ninguém podem ou deve ser paternalista o tempo todo, chega uma hora que cada um deve tomar suas próprias decisões e arcar com as conseqüências!
Bom, assim eu acho que nem o Lázaro Ramos e nem a Taís Araújo tem que ser os escolhidos só por serem negros! Tem que ser quem a entidade quiser!
E acredito que não há racismo nenhum nisto! É só uma escolha e pronto!
Um esclarecimento:
Os prisioneiros judeus nos campos de concentração eram em sua maioria civis pacíficos e cidadãos muito ordeiros, mais do os cidadãos não-judeus dos países em que viviam. Os judeus mesmo antes da tragédia nazista sempre sofreram muito preconceito. Eram agredidos e escorraçados sazonalmente. Assim era comum que eles formassem verdadeiras comunidade nas cidades (como acontece até hoje) para melhor se protegerem. No leste europeu, na Rússia, Polônia e outros países, eram comum a prática do Pogrom (massacre étnico) em datas religiosas da igreja católica ortodoxa, sem contar que muitas vezes em questões judiciais e policiais as autoridades as vezes sempre se posicionavam contra os judeus mesmo eles tendo toda a razão. Assim se um judeu tinha a loja assaltada a polícia simplesmente não atendia o caso. Isto fez dos judeus um povo sempre amedrontado e pronto para fugir e se esconder. Os nazistas tomarem tudo deles e aprisioná-los era um fato que eles esperavam, mas esperavam ser deportados para algum outro lugar. Muito tardiamente eles tomaram consciência que seriam escravizados e exterminados em campos próprios. Então, fazer tudo direitinho no campo de concentração era uma maneira de não ser espancado até a morte, não ser alvejado, ou morrer de alguma outra forma cruel, enfim era como se deveria sobreviver lá. Procurar não criar problemas, não chamar atenção, pois periodicamente alguns eram retirados do convívio aleatoriamente e não mais voltavam! O terror ficava pelo mistério de saber o que aconteceu com eles! Os que sobreviveram? Foi só uma cruel loteria!
O conselho da sua avó é válido sim para este caso e temos que fazer com que os governantes o sigam!

J.A. Catapretta|Charlotte Ohara disse...

Em relação a impostos, as pessoas estão certíssimas em dizer que pagam seus impostos e bater no peito por isso, se você não sabe, vivemos em um país que as taxas de impostos são as mais altas do planeta terra, e as pessoas dizem isso por causa desse fato, não dizemos isso por orgulho, mas sim pelo abuso que sofremos todos os dias. Não podemos aceitar isso calados.