Mosaico de Rancores, romance de Márcia Barbieri

Jardel Dias Cavalcanti, Digestivo Cultural  

 "A literatura como uma entranha aberta. Depois que a vida foi esfolada, seus retalhos são servidos aos leitores como cacos de um espelho de carne e alma despedaçados. Gozo e dor. A ânsia da vida e a impossibilidade de sua realização. É o que propõe o romance Mosaico de Rancores, da escritora Marcia Barbieri, publicado pela editora Terracota, de São Paulo.

Uma literatura necessária, em tempos em que a força inconsciente da vida tem sido julgada imprópria, pois foi substituída pela imagem, seu simulacro vazio e publicitário. Pequenos talhos no desejo, contradições no universo dos afetos, levados ao extremo. Barbieri metaforiza, num mosaico imensamente perturbador, o sexo, o amor e a dor, que se abrem na sua literatura como uma vulva cheirando a cópulas impuras, como só cheirariam as flores do mal.

Literatura de cortes na linguagem, que traduzem na sua forma os pedaços quebrados da suposta "verdade da vida". Sem construções seguras ou de fácil assimilação. Erótica, mas sem descuido do poético, como na seguinte passagem: "Heroína, tua pica nas minhas veias. Quente, grossa, latejando. Os mortos de papoulas caem aos meus pés, lambem, acariciam, sugam toda sua imundície. Sobem devagar, relincham soltam os freios, chegam ao ventre e se dispersam. Êxtase."


Metáforas surreais de uma existência perdida entre a dúvida da traição, a impossibilidade da fusão emocional entre (ou com) as pessoas e a ausência de sentido da vida. Somado a isso, a recusa e o repúdio a tudo o que se oferece como anestésico (nenhum Deus de barro é consolo). Como escreve Barbieri: "Não posso acreditar na beleza dos corais, nem na dureza dos carvalhos. Tampouco posso confiar nos escafandros pendurados nos nossos cabides."

Uma literatura que goza de suas próprias perversões, que não se abstrai do cheiro do esperma, dos líquidos vaginais ou de qualquer outra gosma - e que, também, não se furta a exibir o esgoto in natura dos conflitos conjugais. "Tateio meu corpo e finjo orgasmos. Clitóris e lábios não são suficientes. Gemidos me calcificam. Pedras em coma submergem. Faço dos meus lençóis o leito frágil do meu rio. Não há graça nem louvor nos meus suicídios diários."

Construção abismal, nos leva de lá para cá, sentindo o gozo, sua frustração e sua razão de ser: o caos. "Vulvas vermelhas recordam a solidão antes do nascimento. Deflorações. O paraíso perdido de Milton. Clitóris na procura incessante do gozo. Línguas bipartidas. Cobras venenosas. Teu pau no meu sexo. Minha boca buscando alento no seu desprezo. Desafetos geram embriões. O amor é violento, afasta vértebras. Meninos estuprando realidades de quatro. A rosa corrompida dos ventos."

Uma literatura que exibe as verdadeiras carências, que acusa e nomeia os rancores, que ilumina as feridas abertas, que avança sobre os dejetos da existência como um falo de aço faminto e sedento que salta sobre uma vulva aberta.

Uma literatura corajosa, um jorro de vida, amor e êxtase, e que, como morte anunciada, espinafra a infértil fraqueza da razão, distante e fria com a vida, que só lhe presta louvor quando, falsa, é "enquadrada nas fotos" que jorram por aí."
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