O sangue é mais forte que a cultura?

'O filme relata a história complexa de dois bebês trocados na maternidade, quando nascem, e destrocados pelos casais que os estão criando seis anos depois 

Léa Maria Aarão Reis, Carta Maior

Hirosaku Kore-Eda, de 42 anos, diretor do filme Pais e Filhos, venceu o premio especial do júri no Festival de Cannes do ano passado. A expectativa geral era a de que ganharia o premio máximo. Mas competiu com Azul é a cor mais quente e por um triz não levou para casa a Palma de Ouro. Mas com seus outros trabalhos (Tão distante e, em especial, Ninguém pode saber) já mostrou que é dos legítimos herdeiros de uma ilustre linhagem de filmes orientais. No seu caso em particular, do cinema japonês.

O cinema de Kore-Eda já foi comparado ao de um talento cinematográfico, Hou Hsiao-Hsien, de 67 anos, chinês educado em Taiwan, autor de, entre outros, Flores de Shangai e de Three Times – dois filmes excepcionais - e, mais além, no passado, ao de um cineasta clássico, Yasujiro Ozu, morto há nove anos e autor de filmes imperdíveis e inesquecíveis: Dia de outono, Era uma vez em Tóquio, Fim de verão, Pai e filha e mais uma bagatela de cinquenta outras produções, todas impecáveis. Algumas delas atualmente estão sendo reapresentadas no Brasil.

Ao receber o prêmio conferido a Pais e filhos em annes, Kore-Eda repetiu as palavras da cineasta francesa Claire Denis e homenageou o seu mestre: “Somos todos filhos de Ozu”, disse, emocionado. Tem razão. Tanto ele como Ozu têm a família como tema central do seu trabalho. Este, esmiuçando as relações familiares de antes e do pós-guerra no Japão, a forte influência cultural americana que se iniciava sob grande pressão a partir de 45, e as formidáveis mudanças que começavam naquela sociedade.

Kore-Eda fala sobre a família japonesa de agora com o mesmo ardor e interesse de Ozu. Das relações internas entre os seus membros, determinadas pelo cenário do Japão atual, da sua geração. O país do ultra capitalismo e, apesar de imerso na globalização, com formas culturais e sociais específicas. De um lado, as milenares e possantes raízes de uma civilização inspirada na honra, disciplina, obediência, discrição e cortesia, e do outro, os apelos irresistíveis, principalmente para os jovens yuppies que se vêm se formando a partir dos anos 80, da intensa competição profissional e da obsessão à caça ao dinheiro através de uma vida de trabalho extenuante nas mega corporações.

Pais e filhos tem um belo roteiro original. É de autoria do próprio cineasta. Foi escrito para ser filmado. Relata a história complexa de dois bebês trocados na maternidade, quando nascem, e destrocados pelos casais que os estão criando seis anos depois, quando o fato é informado pelo hospital e os meninos devem iniciar suas vidas, desta vez com os pais biológicos. Destrocar as crianças é a única solução. Faz parte do código de honra japonês.

Um dos pais é Ryota, (ator japonês famoso, Masaharu  Fukuyama), jovem arquiteto vitorioso, pai distante, formal e sempre ausente, um terno-Armani obcecado pelo sucesso que faz carreira em uma importante corporação. Vive com a mulher, que convive amorosamente com o suposto filho, sempre solitária com este marido bissexto. A família de Ryota sofre uma grande transformação e está em vias de se dilacerar quando descobre que durante seis anos criara um garoto filho de outro homem – mas que é muito amado. “Eu percebia que alguma coisa estava errada”, Ryota diz, ao saber que o menino Keita não é seu filho, se referindo à força do sangue familiar. O menino, tímido e introvertido, não se mostraria, segundo seus padrões, como alguém ambicioso e com iniciativas próprias e enérgicas. 

Pior: o outro homem, o verdadeiro pai do “seu” filho é o oposto de Ryota. Vive uma existência modesta e simples. É um pai sempre presente, alegre e afetuoso com os meninos, um mecânico, pequeno comerciante, dono de uma loja de ferragens na periferia de Tóquio. Vive bem com a família sem maiores questionamentos existenciais.

A ação do filme se concentra em Ryota e sua família, embora vá e volte seguindo a troca das crianças, as dificuldades de todos, o sofrimento e a perplexidade gerada com a situação inesperada. “Não podemos trocar as crianças como se troca bichinhos de estimação”, diz uma das duas mães, as mais sensíveis, na complexa situação.

Uma lista completa de ingredientes dramáticos para um filme de lágrimas, sentimental, fórmula adequada para espectadores das sessões vespertinas dos cinemas plex dos shoppings centers.

Mas Pais e Filhos vai além. Do ponto de vista formal tem-se uma câmera zen que pousa, sem pressa, com imensa delicadeza, nas cenas mais comezinhas dos grupos familiares – assim mesmo como Ozu fez em seus filmes – acompanhadas por uma pontuação musical de poucas notas de um piano onipresente acentuando a realidade objetiva e dos silêncios orientais.

Um cinema de substantivos, com pouca adjetivação, para ser pensado – mais uma vez: como o de Ozu. 

E Kore-Eda joga na mesa (ou melhor, na tela) questões que envolvem as novíssimas gerações no mundo de hoje. Será o sangue, serão os pais biológicos tão ou mais importantes que os pais culturais? Os pais adotivos ou os pais escolhidos pelos filhos de uns (umas) e de outros(as)? Para uma cultura como a brasileira, na qual são frequentes várias uniões de homens e mulheres, e na qual casais com filhos se formam e se desfazem no percurso de uma existência – às vezes amigavelmente; noutras, em meio a litígios e ressentimentos – pode-se afirmar, como ocorre em um diálogo do filme, que “esta questão de sangue está superada”?

Até que ponto a educação – na escola e no círculo da família direta – molda o perfil da ação e reação da criança/adolescente no futuro, no mundo adulto? Os pais não serão mais exemplos nem modelos para os filhos? Então, quais são as referências para construir a identidade do filho (a) hoje?

E como anda esta educação, os valores com os quais ela se processa hoje, nas escolas e universidades – o assunto começa a ser discutido com maior atenção atualmente -, em ambiente carimbado pela competição, hiperconsumo, mais valia, especulação e, principalmente, por teorias econômicas viciadas? Esta educação leva mesmo as novíssimas gerações a caminhos predeterminados?

Sartre dizia que o problema não é o que os pais fazem com as cabeças dos seus filhos. O importante é o que esses filhos fazem do que seus pais fizeram com suas cabeças. Então, segundo Kore-Eda, podemos afirmar que tanto faz- sangue ou cultura – o homem é o senhor absoluto do seu destino?

Os direitos do roteiro de Pais e Filhos foram adquiridos por Steven Spielberg. Ele ficou encantado com a história de Keita e de Ryusei, o garoto criado pelo mecânico, mas filho biológico do yuppie Ryota. Aguardemos para ver como será sua versão americana. Cinema de lágrimas ou de reflexão?"
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