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Um comprimido por dia não demanda esforço nenhum |
Menalton Braff, CartaCapital
Somos um povo sonhador. Estamos
sempre sonhando com algum milagre. E isso, podemos imaginar, vem de
muito longe. Então, se é que existe um tipo a que se possa chamar de
brasileiro, ou seja, se existem brasileiros com características comuns,
senão todos, pelo menos a imensa maioria, somos alegres e sonhadores.
Ah, sim, e acreditamos nos milagres com os quais sonhamos.
Meu compadre Adamastor, filósofo nas horas
vagas e sociólogo amador, afirmou outro dia ser herança do
cristianismo. Desde cedo, dizia ele, estamos ouvindo histórias
exemplares, frases feitas e bonitas, hagiografias, preceitos, enfim,
toda sorte de textos que nos induzem a estar sempre à espera de um
milagre. O paraíso está à nossa vista, ao alcance da nossa mão. Quem
espera sempre alcança, a esperança é a última que morre e outras frases
reforçando nossa crença de que algo além de nossa força e de nosso
esforço vai acontecer dando solução a nossos problemas. Todos nós temos
um “tio da América”, como no filme de Alain Resnais.
Não duvido de meu compadre, mas me lembro daquele rei D. João I, de Portugal, o Mestre de Avis, que, depois de 1385, levantado o cerco de Lisboa, danou-se a conceder títulos de marquês, conde, visconde a antigos mesteirais (barbeiros, tanoeiros, celeiros e tantos outros eiros). A nobreza, com medo, se escapulira para Castela, deixando um vazio administrativo em Portugal. Desde então, nós, mais ou menos portugueses, e plebeus, estamos sempre à espera de algum rei que nos conceda um feudo, com castelo, gado, plantações e servos. Em suma, esperamos um milagre.
Não age diferente o pai que paga um ano inteiro a escola de seu filho e que, no fim do ano, recebe a notícia da bomba levada por seu rebento.
Inconformado, procura a direção da escola e troveja que investiu uma fortuna no dito cujo, que o filho nunca faltou, como é que pode uma coisa dessas? Ele queria o milagre do corpo presente. O milagre do conhecimento adquirido por osmose.
Até para emagrecer nós contamos com milagres. Um comprimido por dia não demanda esforço nenhum. E pululam por aí espertos sacerdotes do comprimido, inclusive com respeitáveis nomes de laboratórios internacionais. Mudar hábitos alimentares, ralar o corpo em exercícios físicos, isso é cansativo. O que nós queremos, em verdade, é vencer sem fazer força.
Tenho um primo que passou a vida à espera de um prêmio da loteria, com que recuperaria o passado de abastança da família. Passava seus dias combinando números, pois um sonho havia prometido a salvação. Nada contra os sonhos, mas ficar sentado à espera de um milagre, isso sim, isso não leva a nada."
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