As cinco maiores balelas que são ditas ao pé da cova

, Revista Bula

"Mesmo sem terem lido o livro “Os Cinco Maiores Arrependimentos Quando se Está Morrendo” (The top five regrets of the dying), cuja autora é Bronnie Ware, uma bem remunerada enfermeira australiana especializada em pacientes fodidos e mal pagos, a qual relata, em pormenores, por maiores que eles possam parecer, os cinco principais arrependimentos que os pacientes terminais sussurram antes de irem para o saco, Lázaro e Milagres procuraram-me na lanchonete do Cemitério Segura na Mão de Deus e Vai, ocasião em que fui dar uma última olhadela na fuça de um babaca que me devia, por baixo, umas trezentas e quarenta e cinco noites de insônia.

Desconfiado, tolo, tosco e hipocondríaco desde que nasci, achei mais prudente não comer os pastéis de carne moída vendidos naquela birosca com cheiro de formol, portanto, devorei uma muito segura porção de pães de queijo, cercado por uma porção de gente choramingante a mastigar rumores. A morte é um porre, vocês sabem: incomoda todo mundo, exceto o próprio morto, um dos maiores felizardos quando a luz se acaba.

Lázaro trabalhava como coveiro naquele arquivo de apagados há uns sete anos, portanto, era muito experiente e aquinhoado no ofício de plantar tijolos nas marquises subterrâneas e atirar pás de cal sobre os pinhos, além de ter armazenado na cachola um sem número de canções da despedida e depoimentos improvisados de última hora, a maioria deles sem pé nem cabeça, quiçá hilários, paradoxais, falaciosos, pura pataratice em se tratando dos calhordas, dos patifes, dos imorais, dos abjetos, quando eles finalmente morrem e deixam a atmosfera do planeta mais respirável.

Milagres — sua esposa — trabalhava como auxiliar de serviços gerais que, de fato, eram ocupações bastante genéricas: iam desde a plantação de grama, begônias, bananeiras e esperanças vãs sobre as sepulturas, até a varredura dos salões de funeral, nos quais catava quinquilharias de toda sorte, como bitucas de cigarro, papéis de balinha, folhetins religiosos, farelos de bolacha, pétalas de rosas, lágrimas de crocodilo e resíduos de ressentimento (dentre tanta sujeira, este era o lixo mais comum).

Certa manhã, enquanto o funéreo casal se esmerava nos preparativos para o sepultamento de um deputado fila-da-puta, que era também um reconhecido gangster local, um autodenominado (auto-endemoninhado) cristão temente ao Senhor, muito bem relacionado com os senhores do Estado, Lázaro teve a inspiração de escrever um livro com a companheira Milagres, no qual descreveriam — da maneira mais jocosa e sincera que conseguissem, embasados na experiência de ouvintes involuntários das lamúrias, das injúrias e das patacoadas — o suprassumo das palavras jogadas ao vento, o must das balelas que são ditas ao pé da cova, enquanto os defuntos de caráter desprezível dormem. É impressionante: mesmo depois o último suspiro, a companhia desses degenerados cheira menos mal do que se estivessem vivos.

Naquele antro sórdido, porém, necessário, os mortos não tinham pressa alguma, ao contrário do administrador. Tanto assim que Lázaro e Milagres, ao saberem — sei lá por que cargas d’água (penso eu que para a simples conveniência e nexo desta estória) — que eu era um escriba a devorar coxinhas vegetarianas numa lanchonete que fedia enxofre com paco rabanne, escapuliram momentaneamente da vigília do patrão para se aconselharem comigo, apresentando-me o boneco do livreto rascunhado num pedaço de papel celofane, que era largamente utilizado nos bastidores impensáveis e indispensáveis da empresa para lacrar fendas e orifícios da freguesia inerte.

Eu disse a Lázaro e Milagres que o livro, por conta da sua sinceridade supostamente ultrajante e blasfematória, a despeito do ineditismo, da justa violação a mais desperdiçada e infrutífera tristeza que ainda se reservava àquele naipe de seres humanos (os espúrios por opção), provavelmente seria um enorme fracasso de vendas. Pouquíssimas pessoas gostam de falar a respeito da morte. Rir dela, portanto, ainda que para satirizar os malandros, poderá satanizar os seus autores aos olhos da maioria.

O casal pareceu decepcionado com o meu bombástico parecer técnico, então, como forma de amenizar a sua desilusão, prometi replicar as anotações nesta crônica embalsamada e com prazo de validade vencida, para a avaliação dos meus leitores. Quem estiver vivo por aí, levante o dedo e diga algo. Aqueles que, por força da finitude e da mortandade, não possuam mais voz, nem vez, nem dedos, sei lá, manifestem-se de outra forma, enviem um sinal, um raio que seja, uma tremura de candelabros, nada que seja muito assustador ao ponto de abalar as minhas miseráveis convicções existencialistas.

Eis o Top Five das balelas que são ditas ao pé da cova, enquanto os canalhas descem ao forno da mansão dos mortos, para ocuparem canaletas justas obviamente preparadas para que de lá jamais escapem, ainda que alguém por eles clame, discurse e chore. Nesses casos — creiam — as lágrimas e as palavras não valem o defunto.

Esse vai fazer muita falta, vai deixar uma enorme lacuna… — Vai fazer falta, sim. Vai ser riscado de uma vez para sempre da malha fina da Receita Federal, da lista de procurados pela Interpol. Lacuna pouca é bobagem: só Deus, os auditores e os tatus sabem o tamanho do rombo que o infeliz deixou no erário.

Era um cidadão do bem que nunca incomodava ninguém… — mais ou menos. Era quase isso. De fato, dormindo, ele era uma gracinha, não molestava ninguém, ainda que fossem ninfetas de, no máximo, treze anos de idade.

Era um ser humano incrível... — A incredulidade em questão provém do simples fato de que ele tratava a todos com tanta estupidez que parecia mais um animal, um paquiderme com pretensões humanas.

Era um incompreendido, um homem além do seu tempo… — Verdade seja dita: ninguém compreendia, por exemplo, de onde provinha aquela velada compulsão pelos meninos, ao ponto de colocá-los nus no colo, e não era só pra contar estórias para boi dormir, não. Ele era um especialista na produção de terror e pesadelos em série.

Nunca mais haverá alguém como ele… — Assim seja. Pois, o planeta e o húmus não merecem fermentar, nem mais um dia que seja, por conta de um pulha como aquele."
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About Antonio Ferreira Nogueira Jr.

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