Não se ofenda com a minha nudez, não quero agredir

 , Diário do Centro do Mundo

"Desde pequena, vejo seios e bundas à mostra em todos os lugares por onde passo. A cada esquina, tem uma banca de jornal com seus cartazes nada modestos. Nos filmes, nas novelas. Nem preciso falar do carnaval. Se alguém ligou a tevê semana passada, deve ter visto alguma mulata sambando totalmente nua.

Nem sempre os closes no rego das dançarinas de programas de auditório me parecem belos. E confesso torcer o nariz para muitas das fotos de genitálias ampliadas que vejo diariamente no Twitter. Mesmo assim, ainda me encanto com o desenho de um seio em riste, de um bumbum bem desenhado. A harmonia das formas naturais do ser humano atrai. A nudez é uma forma artística. Corpos despidos são talvez a maior fonte de inspiração dos artistas plásticos, desde os primórdios da história da arte.

Não falta também quem rejeite o corpo à mostra. Quem aponte como se fosse prova de falta de virtude. Dá para entender. Um discurso religioso pregado durante séculos. Na Idade Média, a nudez foi tão castigada, que puro era quem sequer tomava banho. Até tocar o próprio corpo era recriminado – mesmo que apenas por higiene. Acontece que já passou da hora de parar de enxergar o corpo humano como algo demoníaco. E deixar de lado esse preconceito de que exibir suas formas publicamente é privilégio de mulher burra. A beleza ofusca demais atributos. Mas se olharmos atentamente, podemos ver intelectos invejáveis em muitas das beldades que já vimos em ensaios sensuais.

E mesmo assim, diante de tanta informação explícita espalhada pelo mundo, recebo frequentemente mensagens de quem parece se incomodar por eu mostrar meu corpo. A crítica que mais leio é que publico fotos nuas para aparecer, chamar atenção. De fato, atrai olhares – para o bem e para o mal.

Confesso. Já usei meu corpo como meio de divulgação do meu trabalho na internet. Sem que vissem o que eu faço, nada disso aqui faria muito sentido.

Talvez muito do conteúdo que produzi sequer existisse. Como o texto que você lê agora. Também já postei fotos de que não gostava tanto. E depois me arrependi. Estou empenhada nesse aprendizado. De como mostrar o que tenho de belo para as lentes da câmera. E provocar o espectador.

Ao exibir meu corpo, estou sempre em busca de resultados estéticos – dentro das condições ali viáveis. Minhas formas não são grandiosas, nem excepcionais. Tenho um monte de defeitos físicos. Aprendi a superá-los com o tempo. De tão traumatizada que eu era com meu corpo, de tanto bullying que sofri na adolescência, cheguei a achar que nenhum homem iria me querer. Que nunca ia ter um namorado legal. Balela.

Continuo do meu jeito. Nem tão sexy, nem tão gostosa. Mesmo assim, gosto do que sou. Ao agir com naturalidade, sem esconder a realidade do meu corpo, quero de alguma maneira mostrar às outras garotas que não é preciso ter peitão-bundão-coxão para ser atraente. Que pessoas fora do padrão midiático, sem muita produção ou tantos retoques de photoshop podem também se sentir bem diante das câmeras.

Inicialmente, com medo de parecer conteúdo pornográfico, optei por cobrir os seios, usar ao menos uma calcinha sempre que tirava fotos. Com o tempo, passei a questionar esses limites do que é o nu artístico. O que diferencia erotismo e pornografia? Se há ou não pelos pubianos à mostra? Garanto que nenhuma equação leva a essa solução exata. Conteúdos explícitos podem também ser muito eróticos. Ou não.

E muito obrigada. Elogios costumam servir de incentivo. Porém não suprem qualquer carência ou vontade de aparecer. A verdadeira satisfação – e talvez o maior desafio – é em me sentir atraída pela minha própria imagem. Desejar a mim mesma, quase como uma viagem narcisística. Mesmo com toda a minha autocrítica.

Continuarei eternamente incompreendida em meu erotismo. Mas quero ainda explorar muito as potencialidades do meu corpo. Da minha imagem.
Não se ofenda. Essa sou apenas eu."
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About Antonio Ferreira Nogueira Jr.

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Revista- WMB

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