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Alberto Villas, CartaCapital
No meu tempo não tinha televisão! Essa frase me
perseguiu durante toda a minha infância. O meu pai dizia isso toda vez
que percebia uma novidade no ar ou via uma pontinha de progresso
entrando pela porta da sala da nossa casa.
Durante décadas e décadas, ouvimos que quando ele
era menino, o sucesso era um rádio GE que ficava no saguão do hotel do
seu pai, meu avô. Era dali que saiam as notícias da guerra, a
sonoplastia bizarra das radionovelas, a voz de Aracy de Almeida cantando
Palpite Infeliz e os gritos de gol de Oduvaldo Cozzi.
O meu pai parecia se orgulhar de ter vivido
num mundo sem televisão. Quando os seus filhos se reuniam para ir ver Os
Jetsons na casa da vizinha, ele achava que o mundo estava acabando,
que aquela invenção era a maldição do século, século passado.
Quando começávamos a comentar os programas como
Bola Murcha, Agarre o que puder, quando começávamos a imitar os
personagens da Rua do Ri Ri Ri ou Times Square, ele sempre voltava com
aquela história de que no seu tempo não tinha televisão, não tinha essas
bobagens.
Outro dia fui fazer uma palestra no interior do
Paraná e as pessoas arregalaram os olhos quando comecei a listar as
coisas que não existiam no meu mundo juvenil.
Vivíamos sem micro ondas, por exemplo. A comida era
esquentada uma a uma no fogão. No meu tempo não tinha protetor solar. A
lembrança que tenho dos nossos verões na Cidade Maravilhosa é de bolhas
no corpo inteiro e muito Caladryl.
Fui revelando pra eles que não havia celular,
apenas um telefone preto e fixo que ficava geralmente na sala. Não havia
supermercado, as compras eram feitas em mercadinhos e se você quisesse
um quilo de feijão, tinha que pedir ao vendedor.
- Um quilo de feijão, por favor!
Contei que no meu tempo não tinha controle remoto e nós ficávamos esperando alguém levantar para pedir.
- Aproveita que está de pé e muda o canal!
Não havia leite longa vida. Comprávamos leite todo
dia e colocávamos pra ferver logo, porque senão azedava rapidinho.
Imagine que não havia cerveja em lata, só em garrafas de vidro e das
grandes. Acredita que vivíamos sem código de barra?
Não havia cartão de crédito, nem caixa eletrônica.
Se precisasse de algum dinheiro, era preciso ir ao banco, enfrentar uma
fila enorme, entregar o cheque pro caixa, esperar ele ir lá dentro
conferir o saldo e a assinatura numa ficha de cartolina.
No meu tempo não havia selfie. Lembro do meu pai
reunindo toda a família, colocando a Rolleiflex dele num tripé,
apertando o botãozinho e correndo pra poder sair bem na foto.
Não havia compra pela Internet. Em Belo Horizonte, a
minha mãe ligava pra Drogaria Araújo e o cara vinha de fusquinha trazer
o Benzetacil. Aquilo era o progresso, o começo de tudo.
Numa outra palestra no interior de Minas Gerais,
quanto mais eu ia enumerando coisas que não havia no meu tempo de jovem,
mais velho ia me sentindo. Quando eu fui explicando que vivíamos sem
Instagram, sem Easy Taxi, sem e-mail, sem Google, sem Facebook, sem tudo
isso, uma jovem levantou o dedo e perguntou:
- Não tinha Netflix?"
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