Aperte o “C” para subir ao céu


, Revista Bula

"Amanheci com um espírito danado de escritor de autoajuda. Mesmo assim não vou atrapalhar o dia de ninguém a distribuir conselhos. Queria mais vendê-los. Essa vocação compulsória para “ombro amigo” já me deu nos nervos. Então, vou só contar uma historinha que não se passou comigo. Pode ser que seja inventada. Se vocês não se importarem, eu também não.

Foi assim. A coisa toda aconteceu dentro de um elevador. Entraram comigo naquele cubículo potencialmente claustrofóbico um sujeito com cara de 30 e uma menina que, pela graça e delicadeza, eu arriscaria tivesse ela uns 4 anos. Eu disse bom dia. Ouvi nada — senão os cabos de aço a nos içarem — e apertei o número 7.

Embora fosse ainda muito cedo, o homem parecia mal humorado à beça, e cutucou o botão mais alto, aquele que ia marcado com a letra “C”. Crianças, vocês sabem, são curiosas feito o diabo. A menina quis saber do pai se aquele “C” era um “C” de céu. Não. Não era. Aquele “C” — ora e essa! — era um “C” de cobertura, o último andar, o pavimento dos bacanas, ele respondeu impaciente, apressado, e sem esboçar qualquer vestígio de ludicidade. Então saltei no sétimo andar — podem apostar — mais arrasado que a menina.

Ao longo da vida, as decepções acontecem e elas não são poucas. Eu sei que parece irrisório, mas eu fico puto-além-da-conta quando alguém não responde aos meus “bons dias”. Sinto raiva por atirar palavras ao vento. Desde muito cedo convivemos com a dor e o sofrimento, e aprendemos que mesmo o tal mar de rosas está sujeito às ressacas.

Muitos navegam considerável parte das suas vidas sob a tutela cruel de pais que prefeririam não ter sido pais, fulanos afetados, pragmáticos como só, sempre muito céleres em trocarem palavras por porradas, e desfazerem fantasia ao apresentarem aos rebentos incautos a vida como ela é (aparentemente, uma bela porcaria, graças a eles, inclusive). Diferentemente de uma planta, quando se podam os sonhos, não brotam outros no lugar. Esse retalhamento não lhes parece cruel?

A família é um mal necessário (esta frase não é minha, mesmo assim achei divertida, embora eu tenha crescido num núcleo familiar confortável e sem turbulências relevantes). Tanto assim que as crianças e adolescentes criados dentro de lares caóticos, onde o autoritarismo e a truculência grassam soltos, prefeririam, quem sabe, não dar qualquer tipo de presente. Aliás, eles certamente se sentiriam presenteados caso o Domingo dos Pais caísse direto numa segunda-feira, para que fossem levados logo cedo às escolas e tivessem um mínimo de paz e sossego.

Para essa garotada que brota da lama dos lares corrompidos, e escapole com alguma saúde mental do jugo de pais violentos que não nasceram para serem pais, segue abaixo uma lista com sugestões de itens para presentear canalhas no segundo domingo de maio, antes que eles desçam em elevadores até o Inferno. Ou será que aquele “I” se refere apenas à Infelicidade?

Uma camisa-de-força para a contenção de palmadas.

Sandálias de pedras para caminhar sobre as águas paradas.

Uma passagem só de ida para longe, pois longe é um lugar que existe sim, senhor.

Faixas de Gaza para conter palavras violentas na boca.

O abraço de um homem bomba disfarçado de homem gol.

Um voo panorâmico de ultraleve sobre consciências pesadas.

Os óculos de cebola de Lennon e McCartney.

Camisinhas de Vênus com sabor pimenta da Bahia.

Pijamas de anfetaminas para se passar noites em claro.

Uma gravata com cadafalso de brinde.

Meias verdades de elã.

Um relógio sem futuro."
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About Antonio Ferreira Nogueira Jr.

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