"Mas afinal para que serve a poesia? Para quem não sabe ainda, sou autor de dois livros de poesia, “Meus Seios” e “Peixe Insolúvel”, ambos pela Nankin Editorial.

Continuo publicando e acreditando na necessidade de fazer versos, mesmo sabendo que este campo tem perdido muito de seu sentido, de seu interesse, de seu significado social.

Antigamente, a arte de fazer versos se ocupava, ela sozinha, dos mais diversos gêneros literários. Havia poemas cômicos, poemas narrativos, poemas filosóficos, poemas políticos, poemas de guerra, poemas de amor e mais tantos outros subgêneros da poesia.

Aos poucos, o romance e outras formas de arte mais recentes, como o cinema e a TV, passaram a disputar com a poesia seus assuntos e a atenção do público.

Mas o que mudou na verdade foi a experiência que temos do mundo.
Quem tem paciência hoje para ouvir uma narrativa longa, detalhada, rebuscada, em versos, preocupada com a forma de dizer e não apenas com a informação “objetiva”? Melhor ver um filme, ou melhor, um documentário.
De preferência com 20 minutos.

Quem tem paciência hoje para ouvir e investigar como alguém se sente realmente? Prestar atenção em suas palavras para tentar descobrir o que está além delas?

Para tentar descobrir o que é verdade e o que fica escondido de nós mesmos? Tentar identificar no texto que estamos dizendo a essência de nossa alma?

Porque as palavras não são apenas um meio para transmitir informações. Elas são algo em si. O “como” se diz é tão importante quanto “o que” se diz. Há frases simples e claras que dizem exatamente o contrário de seu valor de face.

Quantas vezes “eu te odeio” não quis dizer “eu te amo”? Quantas vezes “eu não preciso de ajuda” quis dizer, “eu estou desesperado”?

O elogio e a militância radical pela comunicação fácil, pela capacidade de ser sempre claro e objetivo, está fazendo com que percamos a capacidade de prestar atenção de verdade nos demais seres humanos.

Está fazendo com que percamos a capacidade de nos relacionar de verdade com outras pessoas.

A clareza é positiva e desejável em memorandos de empresa, em aulas ministradas nas escolas e nas universidade, em “papers” acadêmicos. Em todos esses casos, é dever de quem fala estar no controle das palavras para tentar eliminar ambiguidades e comunicar com precisão o que se deseja.

Mas não é possível fazer um memorando sobre o estado da nossa alma.

Na vida cotidiana, nas relações pessoais, nas relações afetivas, em que as emoções nos assaltam a cada minuto, em que uma declaração de amor pode soar como uma ameaça e receber de volta uma agressão, não temos o direito de cobrar de quem fala o domínio sobre o que diz.

Agredir a quem nos ama não faz sentido algum, certo?

Pensemos um pouco. Uma declaração de amor, de fato, não é uma ameaça à nossa vida como ela é hoje? Ela não torna concreta a possibilidade de construir uma vida nova e destruir o equilíbrio, sempre tão instável, de nossa existência atual? Mesmo que seja infeliz, ela nos traz alguma segurança.

Fácil entender, portanto, como o amor pode gerar o mais profundo medo.

É pedir demais em casos como esse que as pessoas permaneçam senhoras de si e de suas palavras. É pedir demais que elas permaneçam capazes de dizer o que realmente sentem, pois é justamente isso que está em jogo. É exatamente isso que está em questão.

Elas não sabem o que sentem e muitas vezes não saberão jamais. Algumas terminam ficando quietas e procurando não pensar nunca mais no assunto.
“Não fale do que não sabe”, dizia meu pai. Nada mais antipoético do que isso.
Mas há pessoas que se arriscam e procuram se aproximar desses estados de indeterminação e desespero.

Estados em que o amor, a fé em Deus, o entusiasmo por uma ideia, por uma forma de vida, por uma visão do humano ou da natureza nos incomoda, nos confunde e nos ameaça com a mudez.

Há pessoas que não sabem, sentem medo, mas dizem mesmo assim.

Mesmo quando as palavras se tornam impotentes e praticamente se despedaçam na nossa frente. E é preciso juntar seus cacos para construir uma gramática a partir do zero. E é preciso reinventar a sintaxe para tentar expressar o que ninguém conseguiria dizer de forma clara e objetiva.

Por isso alguns poemas soam tão difíceis: porque algumas coisas são mesmo difíceis, praticamente impossíveis de se dizer.

Tentar manter o controle quando sabemos que iremos falhar, quando sabemos que corremos o risco de acabar insultando a pessoa que mais nos amou na vida. Esse é o risco específico da poesia.

Não se faz poesia com comunicação fácil. Não se faz poesia senhor ou senhora de si e das palavras. Não se faz poesia ou se ama sem sentir medo, sem experimentar a impotência, sem arriscar perder-se no vazio do sem sentido.

Sentir medo e dizer mesmo assim. Mas como, afinal, dizer?

Se esta pergunta faz sentido para você, é provável que você venha a ser um bom leitor, uma boa leitora de poesia. Ou quem sabe, um poeta.

A poesia serve para isso. Para afastar o medo do vazio, do silêncio, da dúvida, da morte, com o seu grito impotente. Impotente porque no fim, tudo será mesmo o silêncio.

Mas até lá, eu posso seguir dizendo mais alguns versos imprecisos. Mas é o máximo que eu posso fazer. Emudecer seria aceitar mansamente o fim de tudo ou se conformar com o mundo como ele é hoje.

A poesia se faz justamente aí, no intervalo entre o que poderia ser e o que não será jamais. Um futuro impossível, que se projeta além da morte.
Mais conhecida como silêncio eterno.

A poesia vive da esperança impossível de não morrer."