De David Fincher (“Garota Exemplar”) a Coppola e Chaplin: por que grandes diretores são tiranos?

Fincher com Rosamund Pike, de “Gone Girl”
Da BBC Brasil

"O novo filme do cineasta David Fincher – “Garota Exemplar” – é uma saga sombria sobre manipulação, crueldade e loucura. Essa descrição é sobre os temas abordados no filme, mas pode servir também para retratar o processo de criação do longa metragem.

Fincher é conhecido por ser perfeccionista, e gosta de filmar a mesma sequência dezenas de vezes – levando todos do elenco da produção ao limite da exaustão.

Em “Clube da Luta”, ele teria feito todo mundo trabalhar a noite toda – apenas para conseguir um “take” certo… de uma barra de sabonete. Em “Zodíaco”, ele insistiu em 90 “takes” da mesma cena.

Robert Downey Jr descreve Fincher como um “disciplinador”. Jake Gyllenhaal teria ficado aos prantos no final do trabalho.

“Eu odeio atuações sisudas”, disse certa vez o cineasta. “Geralmente lá pelo ‘take 17′ toda a sisudez já sumiu.”

Dois dias para uma cena

Fincher não está sozinho ao ficar no limite entre “diretor” e “ditador”. Charlie Chaplin fez, em média, 53 “takes” para cada cena filmada em “O Garoto”. Ele próprio descrevia seu processo criativo como “perseverança extrema ao ponto de loucura”.

O diretor de “Titanic”, James Cameron, tem a mesma fama. As pessoas que trabalharam com ele chegaram a fazer uma camiseta com os dizeres: “Você não me assusta. Eu trabalho para James Cameron”.

Mas todos os padrões de “tirania” são pequenos quando se compara com o método de trabalho de Stanley Kubrick.

O filme “De Olhos Bem Fechados” levou 400 dias para ser filmado – um recorde na indústria. Dois dias foram gastos apenas para uma pequena cena que mostra Sydney Pollack entrando em um escritório.

Para muitos de nós, isso parece extravagância ou até mesmo um instinto sádico. Esses diretores são mesmo malucos com instintos escravagistas, como costumam ser retratados? Ou são apenas perfeccionistas atentos a todos os pequenos detalhes, com altos padrões de qualidade?

O diretor Saul Metzstein – que fez muitas coisas para a televisão britânica, como “Doctor Who” – diz que na indústria cinematográfica não é nada incomum repetir dezenas – ou uma centena – de “takes”.

“Quando o filme tem problemas, em geral esses problemas são pequenos, mas vão aumentando aos poucos. No final da produção, já não há muito que se possa fazer para corrigir. Mas se você é como o Fincher, que já lida com os problemas na medida em que eles aparecem, isso poupa você de mais trabalho. Se você tem o dinheiro e a força para conduzir 50 takes, vá em frente”, diz Metzstein.

Essa foi a atitude de Francis Ford Coppola durante “O Poderoso Chefão”. “Ele ficava resmungando porque os produtores não deixavam ele repetir ‘takes’”, revelou Al Pacino, estrela do filme. “Mas, para mim, havia um lado positivo nisso.”

Pacino gostava de não precisar repetir “takes”. Mas e se a ordem do diretor de repetir cenas provocar resmungos no elenco?

“Alguns diretores são seres humanos horríveis. Isso não é incomum”, diz Metzstein. “Mas, no final, ninguém te aplaude por ter feito uma cena meia-boca. Não se pode colocar uma legenda na tela dizendo: ‘desculpa, este foi o melhor take que tínhamos’.”

Mas há diretores que, com poucos “takes”, fazem ótimos filmes. O que isso diz a respeito dos “tiranos”? Se eles são tão bons no que fazem, por que demoram tanto para acertar?

Perfeccionismo ou tirania?

Andrew Abbott, que dirigiu documentários sobre a produção de filmes como “O Exorcista”, diz que tudo está relacionado à ambição do diretor.

“Eu tenho bastante simpatia com os Kubricks e Finchers deste mundo. Estas pessoas não querem fazer um filme passável ou OK. Eles querem fazer algo incrível. Eles são perfeccionistas. Você pode ser perfeccionista como novelista ou pintor e ninguém nunca reclama. É só quando você trabalha em um meio colaborativo como filmes que isso vira polêmica.”

Há quem defenda que esse comportamento sequer pode ser descrito como tirânico.

“As pessoas acham que Kubrick inventava as coisas na hora… e depois incomodava os demais até conseguir o que queria, mas isso é totalmente falso”, diz Peter Kramer, crítico do British Film Institute e autor de um estudo sobre o filme “Doutor Fantástico”.

“Ele podia ter passado anos escrevendo um roteiro, mas aquilo era só um ponto de partida. Quando estava filmando, ele tentava explorar cada possibilidade daquele roteiro, e tentava obter algo que não havia previsto antes. Isso não é ser tirânico. É apenas ser generoso com quem está financiando o filme!”

Kramer também lembra que todos no set de filmagens eram pagos. Ou seja, se precisavam trabalhar mais, também estavam recebendo mais dinheiro.
A mudança tecnológica favorece esse tipo de abordagem a la Kubrick e Fincher na indústria cinematográfica atual. A tecnologia digital permite reduzir o custo em cada “take”, e muitos diretores se aproveitam disso.

Cineastas que vem de outras experiências também desenvolvem essa cultura. Ridley Scott também repetia inúmeros ‘takes’ durante a filmagem de seu clássico “Blade Runner”.

“Ridley foi um dos primeiros cineastas a sair do mundo da publicidade. Então se você está filmando um comercial caríssimo da Nike, você só tem 15 ou 20 segundos para conseguir criar um grande impacto. Qualquer cena que não tenha ficado 100% vai direto para o lixo. Ridley Scott trouxe essa sensibilidade ao cinema”, diz o crítico.

No fundo, para Kramer, a questão principal é que os diretores sempre querem trabalhar com mais tempo do que o disponível.

“Por isso sempre existia essa hierarquia de filmes e televisão. Se você trabalha em algo para a TV, você ganha uma ou duas semanas. Se você trabalha em um filme de Hollywood, ganha muito mais tempo. É por isso que os grandes diretores batalham: mais opções, mais dias, mais ângulos de câmera, mais ‘takes’.”
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About Antonio Ferreira Nogueira Jr.

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