O fascismo aqui e no cinema de Rossellini


"Hibernando ou dissimulado no recôndito da (in)consciência, de tempos em tempos o fascio di combattimento de Mussolini irrompe sob a forma da intolerância

Léa Maria Aarão Reis, Carta Maior

Roma, cidade aberta é um dos grandes clássicos do cinema. Filme que deve ser visto e revisto para que não se perca nunca a perspectiva da violência do fascismo como ideologia política e arma de dissolução da convivência entre contrários na vida cotidiana dos indivíduos.

Hibernando ou dissimulado no recôndito da (in)consciência, de tempos em tempos o fascio di combattimento de Mussolini irrompe sob a forma da intolerância, insultos, intimidação, racismo, discriminação e força bruta até nos que pareciam imunes ao veneno - como vemos ocorrer no Rio e em São Paulo em violentas manifestações públicas, por enquanto individuais, nos últimos dias do período eleitoral.

Fácil distinguir o fascista para analisá-lo na ponta da lente do microscópio, e o magnífico cineasta Roberto Rossellini sabia muito bem disso. O fascista, disfarçado de bom moço defensor de pretensas causas justas, diz “eu não levo desaforo para casa,” como avisa o moleque de praia. Promete prender, bater e arrebentar quando detém poder ditatorial. Mente e fala mal – xinga muito – quando sente que está perdendo. São movimentos individuais de vocação fascista.

Roberto Rossellini é o autor de Roma, cittá aperta e mostra o fascismo na Itália. O filme foi realizado em 1945, dois anos depois de terminada a ocupação nazista que durou nove meses e quando a cidade foi declarada ‘aberta’ para bloquear bombardeios aéreos. Rossellini conheceu o fascio na carne: sua família romana perdeu os poucos bens materiais confiscados pelo regime intolerante.

A produção faz parte da Trilogia da Guerra do cineasta - as outras duas obras primas são Paisá e Alemanha ano zero - que transformou a ele e à atriz Anna Magnani em ícones do cinema neorrealista italiano.

Há poucas semanas este trabalho de Rossellini, Palma de Ouro em Cannes em 46, foi apresentado em cópia perfeita recuperada pela cinemateca de Bolonha na homenagem do recente Festival do Rio ao diretor. É exemplar e chegou a ser indicado para o Oscar. Um roteiro admiravelmente enxuto, com a concisão e a limpeza que caracterizam o seu cinema, aqui acrescido do senso de humor profundamente humano de certo Federico Fellini, na época um jovem estreante, e de Sergio Amidei, um dos melhores e mais premiados roteiristas do cinema pós-guerra.

As trajetórias de seus personagens se entrelaçam com um virtuosismo impecável, pequenas grandes histórias de católicos e comunistas de Roma unidos na resistência aos alemães e aos fascistas militares e civis italianos. Mulheres do povo, heróis do cotidiano, bandos de crianças de bairros populares, traidores, colaboracionistas, espiões. Se o filme não segue a estrutura dos contos de cinema usados por Rossellini em diversos trabalhos, ele evoca essa estrutura construída em episódios tão cara ao cineasta.

A firme narrativa vai num crescendo, num timing admirável, carregando o espectador até o final. No desenrolar, os plongés (mergulhos) de câmera à Orson Welles, os enquadramentos precisos nos quais os atores se movem como num balé.

Ritmo ajustado para contar diversas histórias, isto Rossellini provavelmente aprendeu durante sua infância e adolescência vividas dentro do famoso café-teatro Barberini, de propriedade do pai. Uma tradição romana na qual Fellini, décadas depois, também bebeu e com ela se inspirou quando frequentava, aos domingos, outro famoso café-teatro, um teatrino numa rua dentro do Vaticano. 

É inesquecível o pároco Don Pietro interpretado pelo belo ator Aldo Fabrizi, um dos melhores que o cinema já produziu. Ao responder ao oficial alemão torturador que o ameaça com uma morte dolorosa se não falar o que deve falar, o padre oferece uma das chaves do filme dizendo: “O difícil não é morrer bem; difícil é viver bem.”

Outra sequência antológica é a da atriz Anna Magnani fazendo a personagem de Pina, a noiva grávida do líder da resistência. Quando o prédio onde os dois moram é cercado e o seu Francesco é preso pelos alemães e levado num caminhão, ela corre em desespero em sua direção, gritando, é metralhada pelas costas e deixada para trás, morta, na rua.

Rossellini usou atores profissionais e outros não profissionais, gente do povo, e soldados nazistas de carne e osso como extras. Quando em julho de 44 terminou a ocupação, ele recolheu várias filmagens que havia feito dos alemães e outras, em segredo, com os da resistência.

As aberturas dos filmes de Rossellini são sempre claras e cheias de energia. Introduções que situam de imediato o espectador e prendem sua irrestrita atenção como ocorre em Roma, cittá aperta até o desfecho dramático, emoção contida, com Fabrizi/Don Pietro e o bando de meninos observando-o, ao fundo a cidade ocupada. É um dos grandes momentos da obra-prima dentro da qual há outra chave no que diz o alemão bêbado, no cassino dos oficiais, sobre a resistência do italiano à tortura: ”Ele tem que falar para provar que é uma raça subalterna. Se resistir e morrer vai mostrar a inutilidade da carnificina desta guerra.

Intolerância. Racismo. Agressividade. Intolerância. Ódio político.

Como não lembrar, nestes dias finais do período de campanha eleitoral, a pesquisa realizada dois anos atrás pelo Instituto Data Popular entre 18 mil indivíduos de classe média alta, aqui mesmo, no Brasil?

Alguns dos resultados:

- 17,1% acham que todos os estabelecimentos deveriam ter elevadores separados.
- 16,5% acreditam que pessoas mal vestidas deveriam ser barradas em alguns lugares
- 26,4% concordam que o metrô aumenta a circulação de pessoas indesejáveis na região em que moram.

Considerando rever Roma, cidade aberta de Rossellini neste fim de semana, domingo vou votar firme, no número 13. Em Dilma Rousseff."
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