10 livros para inspirar o final de ano


Euler de França Belém, Revista Bula

"O “filósofo” Millôr Fernandes escreveu que livro não enguiça. Tem razão. E dura mais do que automóveis, roupas, sapatos. Livros, como diamantes, são eternos. No período de Natal e Ano Novo, vale, e muito, presentear (com) livros. Nesta lista, idiossincrática como qualquer outra, menciono livros recém lançados, como “O Pintassilgo”, de Donna Tartt; e “A Balada de Adam Henry”, de Ian McEwan; e outros que foram editados no Brasil há alguns anos, mas que ganharam uma nova edição ou nova tradução, como “Homem invisível”, de Ralph Ellison; e “Odisseia, de Homero”.

A Festa da Insignificância, de Milan Kundera

 O pequeno romance “A Festa da Insignificância”, de Milan Kundera, recebeu uma resenha próxima da mendicância num jornal de São Paulo, que não percebeu a ironia, o humor e a sutileza da história (leituras rápidas às vezes são empobrecedoras). O autor tcheco cometeu o “erro” de sua vida ao obter sucesso com o belo (“mas” popular) “A Insustentável Leveza do Ser”. Comparável a Saul Bellow, Philip Roth, Ian McEwan, John Updike e Joyce Carol Oates, em termos de qualidade literária, Kundera é lido, às vezes, como se fosse um Sydney Sheldon sofisticado. Uma comparação esdrúxula. Outra coisa que choca alguns acadêmicos é o fato de Kundera ser um ensaísta de primeira linha, com textos do balacobaco sobre, por exemplo, Cervantes. (Companhia das Letras, 236 páginas, tradução de Teresa Bulhões)

 
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O Pintassilgo, de Donna Tartt



 O romance “O Pintassilgo”, de Donna Tartt, é Fiódor Dostoiévski e Charles Dickens transplantados para os tempos atuais. Porém, ao adaptar a história noutra época, e não no século 19, a escritora americana recria seus influenciadores, mudando-os. Assim, ela é e não é a Dostoiévski e a Dickens de saia. Há uma certa ironia, talvez uma certa brutalidade feminina (rara de se ver, exceto em Joyce Carol Oates), que a diferencia, definindo uma persona literária específica. De resto, o livro é muito bem escrito e a história é muito boa. Donna Tartt transforma a história policial em grande literatura, poderiam dizer P. D. James e Ruth Rendell (admiradora da prosa de Donna Tartt). Uma crítica negativa de James Wood, num raro momento infeliz, “produziu” parte da crítica patropi, quase sempre colonizada. (Companhia das Letras, 728 páginas, tradução de Sara Grünhagen)

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A Balada de Adam Henry, de Ian McEwan

 O escritor britânico Ian McEwan consagrou-se com a obra-prima “Reparação”, um dos grandes romances do século 21. Mas não deixou de publicar boa literatura. Agora, lança mais um livro apontado como racionalista, ou melhor, contra a suposta irracionalidade das pessoas. No romance que saiu este ano no Brasil, o jovem Adam Henry tem leucemia e precisa fazer uma transfusão de sangue, mas sua família, composta de Testemunhas de Jeová, é contrária. A juíza Fiona Maye, séria e competente, enfrenta a parada, mas, no meio do caminho, surpreende-se com novos fatos e angulações. Espécie de “Reparação” menor, mas de idêntica qualidade. (Companhia das Letras, 200 páginas, tradução de Jorio Dauster)





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Vida e Destino, de Vassili Grossman

 

O romance “Vida e Destino”, de Vassili Grossman (1905-1964), é simplesmente o maior romance russo do século 20 (muito acima de “Doutor Jivago”, de Boris Pasternak), ombreando, em densidade narrativa, com o romance “Guerra e Paz”, de Liev Tolstói, sua clara inspiração. Perseguido pelo stalinismo, que censurou o livro, Grossman não pôde ver a sua publicação, anos depois de sua morte. O livro trata da Segunda Guerra Mundial e, claro, da vida sob o stalinismo (daí a censura e apreensão dos originais). O leitor brasileiro tem sorte: Irineu Franco Perpetuo traduziu a obra diretamente do russo, e muito bem, e a edição da Alfaguara (915 páginas) é caprichada. Franco Perpetuo é autor de um prefácio curto mas instrutivo. “Vassili Grossman é o Tolstói da URSS”, disse o inglês Martin Amis. É um dos grandes lançamentos do ano.

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Paradiso, de José Lezama Lima

Pense no Guimarães Rosa de Cuba. Pois o País do Caribe talvez seja lembrado, daqui a 100 anos, menos pela ditadura de Fidel Castro e Raul Castro e mais pela prosa e poesia de Lezama Lima. Trata-se do maior escritor da terra de José Martí. Saiu no Brasil este ano a nova tradução do romance (de formação, barroco) “Paradiso”. É uma obra-prima universal. A tradução de Josely Vianna Baptista é esmerada e fluente. Parece que se está lendo o livro em espanhol, tal a proximidade com o original. (Estação Liberdade, 612 páginas)










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Odisseia, de Homero

 O Brasil é um país de sorte: há várias traduções do livro “Odisseia” (640 páginas), do grego Homero. E traduções de qualidade, como as de Carlos Alberto Nunes, Donaldo Schüler e Trajano Vieira. Agora, Christian Werner traduz o longo poema numa linguagem coloquial, mas sem pedanteria. O posfácio é do escritor Luiz Alfredo Garcia-Roza, com apresentação de Richard Martin, com textos de Franz Kafka e do poeta Konstantinos Kaváfis. A edição da Cosac Naify é primorosa. Há duas versões — uma popular e uma de luxo (mais cara). Mesmo a popular é de excelente qualidade.

 

 

 

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Reprodução, de Bernardo Carvalho

Nos nossos tempos de violência física nas ruas e brutalidade verbal nas redes sociais e blogs — nas quais adversários políticos se tratam como inimigos em guerra aberta, com brigas homéricas sendo apresentadas como debates —, nada como ler o excelente romance “Reprodução”, de Bernardo Carvalho. Trata-se de uma ficção que captura, às vezes, com precisão o espírito dos tempos atuais — bárbaros, selvagens, anti-civilização. (Companhia das Letras, 168 páginas)

 

 

 


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O Paraíso Reconquistado, de John Milton

 O poeta britânico John Milton é sempre apresentado assim: “segundo maior poeta inglês, abaixo apenas de Shakespeare”. Harold Bloom, que “acha” que Shakespeare “inventou” Homero e o homem moderno, nem se fala. Os críticos podem até ter razão, mas Milton é um grande poeta, como prova “Paraíso Perdido”. Agora os brasileiros ganham “Paraído Reconquistado”. É a segunda parte do primeiro livro. (Cultura, traduzido por Guilherme Gontijo Flores e quatro profissionais, ilustrado por William Blake, 304 páginas)










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Homem invisível, de Ralph Ellison

 
“Homem Invisível” deve ser incluído entre os 10 melhores romances americanos do século 20 (ao lado de “O Grande Gatsby”, “O Som e a Fúria”, “Adeus às Armas”, “O Arco-Íris da Gravidade”, “Coelho Corre”, “A Filha do Coveiro”, “O Teatro de Sabbath”, “Henderson, o Rei da Chuva” e “O Sal da Terra”). Ralph Ellison, um autor requintado, capturou, com rara mestria, a vida complexa dos negros americanos. O registro da brutalização das ruas, como se os personagens estivessem vivendo numa espécie de transe, impressiona. A nova tradução é bem-vinda. (José Olympio, 574 páginas, tradução Mauro Gama)







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O Museu da Inocência, de Orhan Pamuk

 “O Museu da Inocência”, do Nobel de Literatura turco Orhan Pamuk, é um belo e trágico romance. O núcleo do livro é a história de um homem, jovem, que se apaixona por uma mulher e luta para ficar perto dela, mas sempre há algo impedindo. Durante o relacionamento, numa paixão obrigatoriamente platônica, vai colecionando (subtraindo) objetos que pertencem à amada. Pequenas coisas sem importância. Quando tudo parece que vai bem, e se dará o desfecho romântico, ocorre uma tragédia. Ao contar a história do jovem casal, Pamuk (ele próprio personagem) vai exibindo a Turquia, como se fosse um grande museu, ainda que não da inocência. (Companhia das Letras, 567 páginas, tradução de Sergio Flaksman).

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