A dominadora’ mais cruel’ de Nova York

Stella
Edward Pimenta, VIP

'Pelo menos uma vez na vida, mais ou menos 10% dos americanos tiveram algum tipo de relação sadomasoquista, segundo o último grande estudo sobre o assunto feito pelo Kinsey Institute, renomado instituto de pesquisa sobre sexo. É um monte de gente. Como base de comparação, basta dizer que 10,7% da população branca fuma cigarros.

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Na maioria dos casos não há sofrimento real. Normalmente o masoquista (quem recebe) estabelece os limites. Os homens geralmente são os dominadores, mas a pesquisa mostra que há muita inversão de papéis. Por isso, fui falar com uma dominadora de quatro costados para entender um pouco mais sobre o assunto e acabei descobrindo esta mulher para você.

Na verdade, minha história começou por causa de uma perturbadora dissonância cognitiva. No Twitter, sigo @TheMissStella, que não é uma tuiteira contumaz, mas quando tem algo a dizer costuma bater forte e colocado. “As pessoas sempre se surpreendem com minha aparência jovem e inocente. Deve ser porque tenho um coração juvenil. Ele está em um pote de conserva ao lado da minha cama.”

Aparentemente, foram estes os 138 caracteres motivadores da minha investigação. Ela é autora de frases de efeito calculado, espirituosas, difíceis de acreditar. Tipo: “Quando a vida te dá limões, esprema-os nos vergões frescos de um submisso amarrado”. Rápida pesquisa e constato que se trata de uma celebridade do BDSM na América, com respeitável presença midiática — até a Luciana Gimenez esteve com ela, há uma foto das duas em sua conta no Instagram.

Vou escrever a ela, pensei, e no dia seguinte a resposta estava na minha caixa: teríamos uma entrevista. Miss Stella não tinha Skype, criei uma conta para ela. Saiu do sul dos Estados Unidos para estudar escrita criativa e psicologia em Nova York, foi bancada pelos pais até começar a trabalhar como modelo, produtora de filmes pornográficos no site K Is for Kink, dominatrix e devoradora de clássicos da literatura.

Quis me tratar como um de seus escravos e tive de dizer que aquilo era uma entrevista, portanto eu estava no comando. Fomos em frente. Escondeu dados pessoais, mas pelas entrelinhas posso arriscar: 27 anos (curtiu Strokes em tenra idade), descendente de russos, provavelmente nasceu no Texas, no condado de Harris, maior concentração de imigrantes daquele país no estado.

Em 90% das sessões não rola sexo, só violência da pesada com machos-alfa (endinheirados, maioria) e intensa possibilidade de derramamento de fluidos corporais, sangue, inclusive. Contou-me que um cliente escreveu resenha desabonadora no respeitável site MaxFisch, classificando-a como sociopata. Mas no mesmo site há um monte de marmanjos em adoração explícita.

Importante: você pode comprar para a sua mulher os modelitos que ela enverga no site da sofisticada loja Brooke Coleman (150 dólares).

E se nós fizéssemos umas fotos? Topado. Minha amiga Julia Rodrigues, fotógrafa que colabora com a VIP, estava em Nova York e foi até Williamsburg, epicentro do mundo hipster, para fazer uns cliques. Era uma manhã ensolarada e Miss Stella tomou uns tragos de bourbon para ficar bem à vontade, tanto em seu bar predileto quanto em público, sob o olhar horrorizado dos judeus ortodoxos. A seguir, um resumo da nossa conversa.
Miss Stella é um personagem ou você é Miss Stella o tempo todo?

Vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, baby. Por acaso você pode dizer ao sol: “Ei, sol, pare com seus raios deslumbrantes e poderosos?”. Não!

“Ei, você, tente ser menos majestático e grandioso?” Não! Pode ordenar a pessoas que usam shorts cargo algo como: “Pare de se apresentar tão desleixado e disforme?”. Não! Quer dizer, você até pode, mas não adianta. Essa é a natureza de Miss Stella.

Liberais ou conservadores: quais são os melhores submissos?

Conservadores. Especialmente os tipo supercristãos porque querem sofrer como Jesus e mais ainda os tipo Tea Party porque desejam secretamente que Obama os domine com seu pinto grande e negro.

Você pode explicar o mecanismo psicológico da negação do orgasmo?

Quando você não pode ter algo, mais você quer ter. Quando você dá duro por uma coisa, a recompensa psicológica é muito maior. Levando a excitação ao limite, os caras frequentemente têm orgasmos poderosos e ejaculam sem que tenham de se tocar. Se você perguntar quais são os meus maiores prazeres, pela ordem: orgasmos, dinheiro e abraçar meu adorável buldogue francês.

Qual é o seu tipo de homem?

Cabelo escuro, olhos claros, pinto grande. Alguém com um grande apetite e refinado paladar por boceta e rabo. Um bem-sucedido machoalfa por fora, mas que seja ao mesmo tempo um supremo submisso por dentro, ávido por obedecer aos caprichos de uma deusa. Boa caligrafia é um plus.

Qual é o seu drinque favorito? E comida? Livro de cabeceira? Ícones de beleza?

Champanhe, claro, superseca, ou um bourbon caubói. Comida é pasto, vocês precisam perder peso, bebam Soylent [composto nutritivo comercializado nos EUA, desenvolvido por um engenheiro hipster com a intenção de substituir todas as necessidades alimentícias] por um mês, seus gordos. American Psycho [romance do americano Bret Easton Ellis] está embaixo da minha cama. Beleza: Miss Piggy, nos primeiros anos, e Jeffrey Dahmer [serial killer americano morto na prisão em 1994].

Por que há tantas dominadoras russas e latinas nos Estados Unidos?

Elas pensam que os americanos são fracos, planejam tomar o governo americano chantageando todos os políticos em quem elas pisaram. Em breve, uma aliança russo-latina vai tomar conta e o que eles não sabem é que eu serei a líder."
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About Antonio Ferreira Nogueira Jr.

Contato- nogueirajr@folha.com.br
Revista- WMB

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