Ainda tenho em mim todos os sonhos do mundo


Rebeca Bedone, Revista Bula

"Um dia meu avô paterno veio nos visitar e descobriu que eu gostava de inventar coisas de escrever. Ele ficou tão animado que levou meus versos e publicou no jornal da cidade dele, na seção infantil. Eu tinha 12 anos. Logo depois disso, eu parei de brincar de escritora e essa história foi totalmente esquecida. Porém, outro dia, encontrei o caderno de mais de 20 anos com aqueles escritos e senti uma saudade danada desse meu avô.

Salvador Bedone era o nome dele. Dono de um humor característico de vovô divertido e de uma simplicidade de gente interiorana, ele se sentava no chão para brincar com os netos. Ficava para cima e para baixo com a gente. Íamos ao clube do qual ele era sócio, passeávamos na praça e tomávamos sorvete.

Meus irmãos, minhas primas e eu ficávamos loucos no parquinho onde ele nos levava, pegávamos tanto embalo em um tal de balanço jacaré que até hoje não sei como alguém não saiu voando dali.

Meu avô era inteligente, um homem culto, que gostava de ler romances e ouvir músicas clássicas. Ele adorava piano. Uma vez o convidei para assistir a uma audição do conservatório, onde eu estudava, e toquei “Apanhei-te Cavaquinho”, um chorinho que foi bem difícil decorar — naquela época eu tinha 14 anos e estava apaixonada por choros, descobrindo “Tico Tico no Fubá” e o repertório de Zequinha Abreu. Quando desci do palco, depois que meu avô me deu os parabéns, ele não resistiu e disse que estava esperando que eu tocasse uma música clássica.

No ano em que eu estava fazendo cursinho para o vestibular, fiquei uma semana na casa dos meus avós. Eram férias de julho e eu estava muito angustiada, estudando tanto e com medo de não entrar na faculdade. A vovó cozinhava todos os dias para mim, tudo o que eu pedia. Todo dia, no final do expediente de estudo da tarde, o vovô e eu saíamos para caminhar.

Andávamos pelas ruas até chegarmos a uma pista de caminhada. Meu avô contava suas histórias e eu gostava de ouvir. Naquela época, ainda não percebia, mas o meu avô estava caminhando comigo para vencer as dificuldades.

Esses dias, peguei o caderno e li aquele poema que meu avô gostou. Já fazia algum tempo, mas fui até o piano e toquei “Noturno”, de Chopin, para o vô Salvador. Enquanto desenferrujava meus dedos, contei ao vovô que a menina está escrevendo de novo, e que ela queria mostrar a ele os seus escritos.

Então a saudade ficou passeando aqui dentro, indo e vindo, como no balanço do parquinho. E toda vez que a lembrança veio mais forte, dançando pelos acordes, pedi a ele que continue caminhando comigo pelos descompassos da vida.

A vida é mesmo um grande vestibular. A gente cresce e vai seguindo pelo caminho, estuda e aprende a melhorar os nossos próprios limites, porque é preciso seguir batalhando e passar por todas as provas que se fizerem necessárias. Então, vai sonhando e tentando, vai tocando e levando, mas não longe do chorinho. Um dia a gente sempre chora.

Chora porque o coração é um pandeiro que vive perdendo a sua cadência. A gente chora porque tem carências, porque é difícil ficar sozinho e sentir saudade. Chora-se da falta de sentido das coisas e apanha-se com a distância, da frieza e por nada. Fica-se no escuro, mudo, de todas as dúvidas. Perde-se o tom da melodia. Vai-se o ritmo da canção e toda inspiração. Por ironia, dessa morte, teme-se a saída.

Nessas horas, sem saber o que tocar, nem qual estrada pegar, viver — do jeito que der agora — já pode ser uma entrada. A gente sempre quer respostas imediatas, mas não adianta procurá-las enquanto o próprio amor estiver adormecido, enquanto a música silenciosa d’alma espera pra ser ouvida. Vai, vamos! Vamos dar aquele toque no pandeiro que trará o novo tum-tum-tum a esse coração!

Sim, porque, como disse Fernando Pessoa, temos em nós “todos os sonhos do mundo”. Mesmo que não seja fácil, olhe. Onde há tristeza, há também esperança. A gente se despede do pôr do sol com nostalgia nos olhos, mas recebemos a beleza nas cores do crepúsculo anunciando a chegada da noite enluarada.

É como atravessar a dor no abraço do avô que nos tranquiliza quando temos que seguir em frente. Triste também é feliz no poema desbotado através do tempo, ainda sonhando as coisas que não existem."

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About Antonio Ferreira Nogueira Jr.

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