Miguel Sanches Neto, Revista Bula
As listas são um instrumento crítico de grande relevância, pois trazem,
subjacente, um conceito de literatura — este conceito talvez seja mais
importante do que as obras escaladas. Ao escolher apenas 10 romances
brasileiros eternos, segui alguns critérios: não repetiria livros do
mesmo autor; privilegiaria obras que trouxeram alguma inovação formal; e
daria preferência a livros que fossem mais do que uma história, que
tivessem um valor metonímico, representando um período literário, um
painel histórico, um grupo social, uma tendência estética. Podem ser
considerados como marcas comuns a todas as narrativas listadas o desejo
de construir um retrato do Brasil e o investimento em uma linguagem
identitária — cada título, logicamente, à sua maneira. Teríamos aqui
então um pequeno mapa do grande romance nacional.
Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Machado de Assis
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Uma desconstrução do Brasil, por meio da ironia, que escancara a
hipocrisia da nossa elite dirigente no século 19. Machado de Assis dá
voz a um narrador defunto que, longe da vida social, pode zombar do
caráter das pessoas com quem conviveu. O romance também é importante por
se valer de novas técnicas narrativas, fazendo-se a obra mais inovadora
daquele século. |
O Ateneu (1888), Raul Pompeia
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É o precursor da autoficção, um romance carregadamente autobiográfico,
centrado nas desilusões do menino Sérgio em um colégio que era tido como
o melhor o país. Ele descobre a falsidade e os comportamentos sórdidos
de um mundo onde não há lugar para o amor e a amizade. Escrito com um
cuidado de poeta parnasiano, este é o romance brasileiro em que a
linguagem literária chegou ao seu ápice. |
Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), Lima Barreto
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É a obra que faz a passagem da língua mais formal, de matriz lusitana,
para a linguagem quente das ruas, que representa os seres marginais em
um Rio de Janeiro que sonha com a modernidade. Aqui, Lima Barreto
acompanha o drama de um mulato inteligente, que é violentamente
discriminado por sua cor, o que o autor promove é uma naturalização da
linguagem para dar espessura humana a atores sociais que nunca haviam
sido protagonistas na literatura brasileira. |
Macunaíma (1928), Mário de Andrade
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O mais divertido retrato do Brasil como um país que vive
contemporaneamente em todas as idades do continente, no período
pré-cabralino, no Brasil dos viajantes estrangeiros, na Colônia, no
Império e na modernidade. O grande feito do livro é transformar as
características do homem nacional tidas como defeitos em elementos
positivos de nossa identidade malandra, ao mesmo tempo em que elege a
pilhagem nos documentos como uma forma de invenção selvagem. |
Vidas Secas (1938), Graciliano Ramos
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Um romance montado com cenas avulsas, a partir de quadros, em que
Graciliano Ramos acompanha a rotina desesperadora de nordestinos que
vivem de fazenda em fazenda, isolados do mundo. Fabiano e Sinhá Vitória
têm que tomar uma decisão crucial, eternizar este ciclo de exploração ou
tentar dar aos filhos o estudo que eles nunca tiveram. Mais do que um
romance sobre a seca e o nordeste, é uma narrativa sobre o poder da
linguagem. |
Fogo Morto (1943), José Lins do Rego
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É a obra máxima do Ciclo da Cana de Açúcar, construída com recursos
narrativos modernos, longe da memorialística de outros livros do autor.
Em “Fogo Morto” ele transforma em mito e em fantasmagoria o fim de um
período colonial da história do Brasil, mostrando a falência do modelo
social dos engenhos, do qual ele se sente órfão. Aqui, a matéria
nordestina ganha uma estrutura narrativa de planos que se sobrepõem,
condensando todo um tempo. |
Grande Sertão: Veredas (1956), Guimarães Rosa
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Verdadeira enciclopédia do Sertão, este romance avança barrocamente para
todos os lados, mostrando um narrador sertanejo que usa filosoficamente
a linguagem, modificando-a para tentar dar vazão aos seus
questionamentos interiores. Riobaldo narra para nos e para se convencer
de sua inocência em relação a três episódios centrais: o pacto que ele
teria feito com o diabo, o fato de amar em Diadorim (a guerreira
travestida de jagunço) a mulher e não o homem e as mortes que ele comete
na jagunçagem. |
A Paixão Segundo GH (1964), Clarice Lispector
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É o livro mais importante de Clarice Lispector, marcado por uma
estrutura solta, que não tem começo nem fim — inicia e termina com
reticências. O que o leitor acompanha é parte dos intermináveis
questionamentos de uma narradora atormentada pela necessidade de se
conhecer, ampliando metaforicamente o eu e o agora até os primórdios da
vida no planeta. |
O Coronel e o Lobisomem (1964), José Cândido de Carvalho
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Ambientado no litoral carioca, este romance coloca em cena um narrador
mentiroso, que gosta de contar vantagem, mas que revela, em cada
episódio, a sua ingenuidade de roceiro. O coronel que acreditava em
lobisomem é completamente enganado por figuras urbanas, cifrando o fim
deste mundo mítico, que não tem mais continuidade no presente. Aqui, a
linguagem sertaneja ganha um colorido deslumbrante para cifrar o
descompasso deste mundo. |
A Pedra do Reino (1971), Ariano Suassuna
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Obra monumental, de incorporação da cultura popular, que se apresenta
programaticamente inconclusa, na qual o narrador, preso por seu
envolvimento com um episódio trágico do sertão (a degola de animais e
pessoas para instaurar o Império da Pedra do Reino) constrói o romance
como uma peça de defesa, tentando nos convencer de sua inocência. Farsa e
fanatismo dão a tônica ao romance. |
Miguel Sanches Neto, doutor
em Teoria Literária pela Unicamp, é autor, entre outros, dos romances
“Chove Sobre Minha Infância” (Record), “Um Amor Anarquista (Record)” e
“A Máquina de Madeira” (Cia das Letras). Este ano, a Intrínseca lança
seu romance sobre os nazistas no Sul do Brasil, “A Segunda Pátria”.
Site:
www.miguelsanches.com.br
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