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Conversation dans un Parc, de Louis Léopold Boilly (detalhe) |
Tio Fábio é um homem sábio do interior. Uma vez ele me viu aflito com uma pilha caótica de livros que eu tinha na cabeceira. Tantas coisas para ler, tão pouco tempo: esse o motivo da minha aflição, expliquei a Tio Fábio. Na próxima vez que o encontrei, ele me passou uma citação de Sêneca, o grande filósofo romano de quase 2000 anos atrás. Tenho-a até hoje. “Uma profusão de leituras sobrecarrega o espírito, mas não o ilustra. É melhor se aplicar num pequeno número de autores do que vagar no meio de muitos”. (
Agora confesso que esqueci por que falei em Sêneca e no esforço inútil despendido em leitures inúteis. Ah, lembrei. É que no esforço de seguir o romano genial eu passei a me concentrar em alguns autores, não numa infinidade. E tirei de minha vista a montanha de livros que me trazia tanta ansiedade. Entre as minhas poucas e constantes leituras estão dois escritores “espirituais”. Um deles é o monge católico Thomas Merton, já morto. O outro é o monge zen Thich Nhat Hanh, um vietnamita que ergueu uma comunidade budista num lugar retirado na França.
Citei ambos porque, em livros que escreveram, eles trataram de um assunto que é único, vital, indelevelmente marcante na vida de um homem: o primeiro amor. É quando descobrimos que não somos mais crianças. É quando descobrimos que existem outros prazeres além da bola de futebol e do videogame.
E é quando descobrimos também o quanto a alegria está conectada à tristeza. O quanto a euforia está próxima da angústia. Um telefone que toca com a voz de quem você deseja ouvir. E então é o êxtase. Um telefone que teima em ficar silencioso, cruelmente silencioso. E então é a agonia. Você é um antes do primeiro amor. E outro depois. Os beijos. O adeus.
(E então me ocorre aquela linda canção chamada Crying Game, que deu nome ao polêmico filme. “First there are kisses/Then there are sighs/And then before you know where you are/You’re saying goodbye”. O sentido é a fugacidade da paixão. A impermanência, como dizem os budistas. Quem sabe um dia o Mantraman me diga palavras de conforto em relação à revolta ingênua que sinto contra a impermanência).
Merton, em sua autobiografia, nota algo que eu nunca tinha pensado. Somos tão jovens, tão frágeis quando aparece pela primeira vez em nossa vida aquela onda avassaladora que é o primeiro amor. Tanto impacto e somos tão indefesos. Merton se apaixonou antes de virar monge.
Thich Nhat Hanh, num pequeno e belo livro chamado Cultivando a Mente de Amor, confessa a paixão que o tomou quando, jovem monge, conheceu uma monja. Ele diz que decidiu falar desse amor para ajudar outros monges que por acaso enfrentem a mesma situação.
Pelo lirismo inspirado, transcrevo um trecho em que Thich Nhat Hanh fala do objeto de seu amor: “O comportamento dela como monja era perfeito – a forma de se mover, de olhar, de falar. Ela era tranquila. Jamais dizia alguma coisa, a melhor que lhe perguntassem”. Mais adiante, ele compara seu amor a uma tempestade pela qual ela e ele tinham sido apanhados sem saber como. E também sem saber como escapar.
Num capítulo intitulado “A beleza da primavera”, Thich Nhat Hanh faz um convite ao leitor. “Por gentileza, pense no seu próprio primeiro amor”. Faça-o devagar, visualizando como aconteceu, em que lugar foi, o que lhe trouxe naquele momento. Relembre essa experiência e observe-a calma e profundamente, com compaixão e entendimento. Você descobrirá muitas coisas que não notou naquela ocasião”.
E então aceito o convite do monge zen. E penso nela. Nos olhos verdes. Na pele suave como um pêssego. No sorriso meigo e constante. No telefone que tocou e trazia a voz dela para dentro de minha casa e de meu coração. No vestido azul e amarelo que usou quando saímos pela primeira vez.
No primeiro beijo.
E então penso na tempestade (para usar a expressão de Thich Nhat Hanh) que se seguiu. Deus, que tempestade. Mas quanta poesia, quanto calor, quanto ensinamento se escondia naquela torrente de água ao mesmo tempo tão sofrida e tão gloriosa.
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