O samba do rapaz folgado, em parceria com Gregorio Duvivier e Noel


Fernando Brito, Tijolaço 

"Não sei se foi o sono matinal, mas as duas primeiras leituras do dia se misturaram: a da coluna de Gregorio Duviver, sobre os “folgados” e a da reportagem da Folha sobre os bilhões pagos aos nossos ínclitos juízes (porque quase tudo é para eles, um nada para os servidores) a título de “benefícios”.

Diz Duvivier que o folgado sabe exatamente o que está fazendo, e não está nem aí: “folga porque acha que tem direitos”.

Suas excelências, certamente, sabem as condições em que vive o povo brasileiro e certamente acreditam que o Estado é perdulário, gasta demais e sustenta privilégios.

Mas não estão nem aí: salários polpudos, dois meses de férias, auxílio creche, escola, universidade, transporte, moradia, neonatal, funeral e o escambau.

Se ganham só para morar onde já moram, no que já é seu,  recebem mais, muito mais,  que um professor para enfrentar uma turminha de crianças ou adolescentes irrequietos, a quem o mundo da mídia não ensina senão a darem o mínimo de importância ao aprender, não importa.

Como o folgado, acha que tem direito.

Diz lá Duvivier que  o que o define  o folgado como ser humano “é a certeza de que a vida lhe deve mundos e fundos”.

Assim também os ilustres magistrados acham que, por terem passado  em um concurso – difícil, ninguém nega – a sociedade lhe deve, vitaliciamente, mundos e fundos. Não ficará bem a sua excelência andar num carro popular, morar fora dos bairros mais nobres, tomar aquele vinho da promoção e apertar-se para pagar um escola para os filhos, porque pública só a universidade onde estudarão.

Não diz o Duvivier, mas digo que: para o folgado, a culpa sempre é do outro. Se o Estado não tem recursos, a culpa sempre será de sua ineficiência, da corrupção e, certamente, de alguns privilégios injustos que, com certeza, são de outros, não os deles.

No fundo, acha que os seis promotores do miserável Piauí que recusaram o auxílio-moradia por imoral, diante da pobreza do povo, são uns demagogos, populistas. O folgado não acha que eles são simplesmente “otários”, porque não se acham espertos: acham-se semideuses.

Duvivier lembra Noel: “Proponho ao povo civilizado/ não te chamar de malandro/ e sim de rapaz folgado”.

Modestamente, eu completo com Chico: “… o malandro pra valer/…trabalha/mora lá longe e chacoalha/num trem da Central”.
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About Antonio Ferreira Nogueira Jr.

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Revista- WMB

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1 comentários:

Galvam disse...

A Folha tem bons motivos para tentar desmoralizar Juízes de Direito. Ora se tem!
Mas, eu não entendo como é que o Gregório Duvivier tem, digamos competência para definir Juízes e demais autoridades como folgados!
Quem é ele? A melhor definição é incrivelmente que ele é um folgado!
Juízes, promotores, e outras autoridades do Judiciário fazem jus sim a tudo aquilo que tem direito: Auxílio Moradia, Dois meses de Férias (mentira grossa!), Polpudas diárias, e o escambau!! O motivo é simples! São Juízes! Precisamos que ele esteja confortáveis e tranquilos sim! Para que decidam com justiça sempre!
Alguma destas vantagens financeiras são opcionais. Eles tem direito, mas podem abster-se de usá-las. Os motivos são pessoais a cada um. E foi o que fizeram os promotores lá do Piauí! Acharam que já ganham o suficiente e renunciaram! Mas, se eles querem aproveitar e dizer que é em protesto a miséria do povo e coisa e tal...é problemas deles!
E vamos ver se eles vão usar o cargo para promover justiça! Se vão tomar a iniciativa de ficar atento as políticas sociais dos seus municipios! Se vão cobrar judicialmente sempre que o executivo estadual não cumprir com o seu papel! Se eles tiverem a coragem de acionar prefeito e governador por exemplo pela falta de saúde pública! Segurança e educação de qualidade... aí terão o meu respeito! Se só ficarem nessa onda de renunciar a verbas previstas em lei...é pura garganta!!!