As coisas incríveis que o dinheiro tenta mas não compra

Eberth Vêncio, Revista Bula

Comprei um deputado federal e ganhei de troco uma noite inesquecível com uma moça cujo nome não me recordo. Dane-se. Elas jamais usam os seus nomes verdadeiros quando estão a trabalho. Eu me amarro em toda espécie de mimo que rola na esplanada. O ser humano, vocês sabem, é movido a reconhecimento em busca do poder. Caixões não possuem gavetas, é o que dizem. Que azar.

A coisa funciona assim: comprei um alvará de funcionamento na prefeitura, meti a porcaria do documento numa moldura bem fuleira e o dependurei na parede para que os fiscais apreciassem. Esses caras são odiáveis. Apesar do carimbo, do carinho da propina e do slogan pomposo “Prefeitura de Pasárgada, fodendo com a sua paz de espírito em prol do bem comum de todos” — também achei o lema deveras longo e redundante — quase sempre era preciso molhar a mão dos caras para que eles escrevessem estrofes horrorosas numa prancheta sobre aquele formulariozinho verde-água, ao invés das famigeradas autuações em flagrante. Quase sempre havia uma fragrância de merda no ambiente. Quando submetido ao estresse, vocês nem imaginam, os meus intestinos ficam enfezados.

Comprei de um cambista um ingresso para assistir às finais das cotas do mundo. Achei aquilo o fim da picada. O mundo não acabou — vocês devem ter notado, pois estão aí sentados a ler este texto — mas a minha paciência anda por um triz. Não se pode mais confiar nos cambistas, nos vigaristas, muito menos, nas previsões dos porcos chauvinistas. Em matéria de precisão, os sujeitos simplesmente não dão uma dentro ao entrever o escambau para o planeta.

Comprei um anel de noivado, gastei um escândalo em begônias, contratei um padre pela bagatela de cento e cinquenta hóstias esterlinas e fiquei esperando até que a morte nos separasse. Nem de perto, eu morri. Tanto assim que lhes escrevo. O amor, este sim, definhou até desaparecer. Ardeu pouco mais que um fósforo num vendaval, tornando inviável o chamado final feliz. Foi triste encarar a matilha de advogados se escafedendo com nacos de dinheiro entre os dentes.

 O que foi feito da cadela? A última notícia que tive foi que ela se apaixonou pelo patrimônio de um pastor alemão que grudou nela e a arrastou por cinco quadras, enquanto crianças atiravam-lhes pedras. Foi uma cachorrada.

Comprei o silêncio da testemunha de um esquema com o Governo. Não é nada fácil fazer com que uma mulher se cale. Tagarelar está incrustado no seu DNA. Então, não tinha outro jeito, ela foi homenageada pelos exterminadores do presente com uma salva de tiros no céu da boca. Mais morta que o trema, foi encontrada caída num matagal com a boca cheia de formigas e palavras que jamais serão ditas, quem dirá, os meus segredinhos.

Comprei a sentença de um juiz que achava que era deus. Debaixo da toga de tergal, o sujeito fedia a enxofre nos sovacos. Parecia o cão chupando manga, batendo com o martelo sobre a mesa como se ali estivessem as unhas de alguém pra ele macetar. Antes de se autoproclamar Divino Maravilhoso, o magistrado prestara relevantes serviços à ditadura servindo como carrasco do DOPS, quando ainda era um jovem cruel. Hoje, ficou velho, decrépito, mas continua malvado. Faz o estilo linha dura, porém, o coração sempre amolece quando abre uma valise recheada de dólares. O câmbio, suponho que vocês assistam aos telejornais diários, anda indecente: estamos pagando quatro por um.

Comprei uma comenda de honra ao mérito. Foi o próprio governador, ladeado pelo comandante geral da polícia militar, que espetou o meu peito com aquele alfinete enferrujado. Senti uma pontada no mamilo. Tive vontade danada de rir, de pegar um tétano e sobreviver, mas tocava o hino nacional. Sua Excelência piscou pra mim. Eu pisquei pra ele. Ficamos ali parados, em pé, piscando um para o outro, enquanto a caravana passava e os cães latiam. De alguma forma, quase todos os presentes tinham vendido suas almas ao diabo. Era uma bela solenidade de rabos-presos.

Comprei uma passagem de primeira classe para me consultar com uma equipe médica de primeira classe num hospital de primeira classe de um país do Primeiro Mundo. Primeiramente, os doutores foram bem prestativos, até ficarem desconcertados e gaguejarem o seu inglês de primeira linha. Apesar da minha disposição em torrar grana com o tratamento oncológico — é lógico que eu pagaria qualquer coisa por um pâncreas novinho em folha — os caras disseram: Sorry, mister. Go home and rest.

Não havia mais tempo nem uma nova chance. Saí dali rico, mas, tonto. Por mais que procurasse, não encontrei nada que me interessasse nos outlets lotados de Miami, a não ser um bocado de melancolia e pieguice quando o sol se pôs. Eu sei: acontece com qualquer pessoa. Aceitam um conselho, caros leitores? Se beberem, não escrevam."


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About Antonio Ferreira Nogueira Jr.

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