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A autora |
Milhares de pessoas nos conhecerão de maneira talvez mais visceral que os nossos amigos mais chegados. Protegidas por uma tela de computador, elas podem tudo: nos amar, nos acusar, nos insultar. Por uma mesma opinião podem nos achar brilhantes ou completos imbecis. Podem se tornar aliados ou nos declarar guerra.
Nos despimos por completo – não o corpo, o que, à esta altura, já é facílimo e banal, mas a alma, onde poucos têm coragem de se desnudar. A cada postagem, declaramos aberta a sessão de julgamento, e, garanto: é preciso psicológico preparado e santo forte. Ossos do ofício.
Tentei escrever sobre feminismo em todos os sites que me deram algum espaço: uma ideiazinha aqui, um recado sutil ali, uma ideologia contextualizada acolá… Era, muitas vezes, impossível ser direta. Depois da entrega de uma deadline sobre assédio sexual, a resposta desistimulante: “Acho que esse conteúdo é um pouco forte, feminista demais. Vamos tentar algo mais leve? Porque você não escreve sobre amor?”
Bem, eu adoro falar de amor. Mesmo. É quase uma terapia. Mas em um país onde milhares de mulheres morrem vítimas do machismo e um deputado propõe a criminalização da pílula do dia seguinte, não dá pra falar só de amorzinho e dormir tranquila. É nossa obrigação moral usar o nosso ofício para falar do que interessa, do que constrói, do que acrescenta: política, feminismo, educação, igualdade.
E é dever de cada leitor que ainda se indigna diante dos rumos que a sociedade vem tomando se inteirar sobre isso: o que está acontecendo à minha volta e o que eu posso fazer para mudar isso? Bem, nós fazemos.
E a boa notícia é que temos cada vez mais voz pra isso. Cada vez mais as mulheres têm vez, dentro e fora do mundo virtual. As leituras leves e poéticas têm, sim, o seu lugar: mas reservemos um tempo para pensar sobre o que o sistema não quer que pensemos. Façamos jus à tão dificultosa liberdade de expressão – porque, acredite, ainda no século XXI há censura – e prestemos atenção nos espaços que nos dão a chance de difundirmos uma liberdade lúcida.
Em bom português e sem firulas: escutem a imprensa que escuta as mulheres.'
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