Teu corpo será o meu altar




por Eberth Vêncio, Revista Bula -
 
Rio de janeiro, madrugada de 1 de janeiro de 1895. Devoro-te. A rigor, te amo. Nunca te vi antes, nunca te vi mais linda, mesmo assim, te amo. O rigor mortis deixa o teu corpo digno de figurar entre as beldades do museu de cera de Madame Tussauds, em Marylebone Road, Londres. Quisera expor a tua estátua num pedestal de prata, nos recônditos do meu lar; porém, pobre de mim, resido num daqueles cortiços de que falou o escritor Aluísio Azevedo, meu confrade; sou, portanto, digno do zarcão.

Adorar-te-ei até o fim dos meus dias. É sob segredo que te venero. És jovial e bela como uma festa primaveril. És suave como uma gota de orvalho sobre a tez da pétala branca. Em boa hora, espocam os fogos na baía. O povo bebe e se diverte. Aqui, na silente alcova de uma funerária, amo-te com fervor indescritível. Meu corpo em brasa, literalmente, derrete-se sobre o teu. Gozo de certos desvios insólitos, execráveis aos olhos da humanidade, eu suponho. Amo e sofro, calado. Desventurado é o que sou. Vivo a aventura pecaminosa de amar: eu e você, minha rosa albina.

Arrasado, recosto o dorso nu contra a parede, deixo-me deslizar até o assoalho, exausto, zonzo, quase desfalecido, triste como uma lágrima dentre tantas que já foram derramadas pelos teus parentes em causa tua. És tão bela inerte e nua. Parece injusto quando Deus, meu Pai Venerável, ceifa da Terra criaturinhas imberbes como tu. Também chorarei quando partires deste recinto insalubre aos primeiros raios do sol. Sofro ao pensar que em breve serás entregue às gulodices da terra. Sinto-me também aterrado, juro. Serei um verme?

Tua história, minha glória, que mais parecerá inglória aos olhos de quem nunca amou nessa vida, tudo isso é um drama insolúvel. Só sei que te amo. Nunca te vi antes, nunca te vi mais linda, mesmo assim, te amo. Que os hipócritas, os radicais religiosos não me ouçam, muito menos, me acusem de heresia: penso que te conheço de outras vivências, de outras encarnações. Tua carne anda mais rija a cada minuto. É o tempo rindo, ruindo e se interpondo entre nós de maneira cruel.

Antes pudesse gritar com os braços estendidos para o céu que te quero mais do que a mim mesmo. Não. Não me sinto imundo. O mundo, sim, parece sujo demais desde que o Criador expulsou, por motivos pessoais, diga-se de passagem, Eva e Adão do Jardim do Éden. Sirvo-me dos vapores do éter.

Entorpeço-me por ti. Um desejo profundo me preenche. Amo com enlevo e graça. Osculo, a partir dos artelhos delicados, o teu corpo infinito, alvo, gélido como a neve do Kilimanjaro. Deixo-me espetar pelos teus mamilos róseos, flechinhas pontiagudas que por muito pouco não me ferem de morte. “Qualquer maneira de amor vale a pena, qualquer maneira de amor vale amar”, sei que um dia alguém haverá de cantar versos bonitos assim. Sou um poeta, sabias?

Haverei de escrever em tributo a ti sonetos parnasianos com uma métrica impecável. Impossível, contudo, mensurar o quanto tenho apreço por ti.
Preparo sobre a bandeja uma dose a mais de formalina. Urge concluir a obscura missão de preparar o teu cadáver para o funeral. Venero-te tanto quanto podem suportar de dor as minhas entranhas. É estranho: tens as feições de uma santa. Creia, hoje, orarei por ti. Teu corpo será o meu altar. A despeito de nunca ter visto as tuas pernas de loiça desfilando pelas ladeiras pedregosas do Rio.

Bonequinha, minha deusa cândida, eu te adoro e te desejo mais que tudo. Mergulho na tua história comovente. Ontem cedo, ao te despedires do teu noivo — agora, o meu algoz anônimo — perdeste o equilíbrio, caíste de um bonde em movimento, que seguia para Mangaratiba, bateste a cabecinha na guia, apagando para sempre.

Acendeste em mim o pavio da paixão inescrupulosa, minha rosa. Pareço dissimulado, sei. Devo ser um dissimulado, não sei. O mundo não apenas fomenta em mim tamanha dissimulação, como não compreenderia, não aceitaria, não aprovaria essa paixão tórrida, súbita, infinita que uniu os nossos corpos e as nossas almas; a tua, desgarrada da carne, isso é líquido e certo, devidamente amparada por Jesus e Maria na Mansão dos Mortos; a minha, entregue ao pesadelo de continuar vivo e desamparado.

Contudo, viverei para te amar. Prometo. Teu corpo exala o aroma das alfazemas. Sim. Cuidei bem de ti. Perfumei-te. Banhei-te com todo cuidado. Lavei os coágulos que grudavam os teus cabelos amarelos como o milho. Devorei-te, a princípio, com os olhos, pelas beiradas, bem o sabes. Penteei-te com delicadeza. Adornei-te com esmero. Foi muita sorte cruzar por ti nesta noite, magistral criatura. O Arquiteto do Universo, o meu Senhor Justiceiro, é testemunha do quanto zelei de ti, com a devoção de quem vela um jardim florido. Antes eu tivesse também morrido, para juntos brotarmos nos campos etéreos do Paraíso. Vai com Deus. Vai com os teus. Com amor, para sempre, Olavo, adeus.
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