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'Sinto que estamos quase sem rumo e todos misturados nessa massa humana barulhenta e instável' |
por Ivone Gebara, #Carta -
Estamos cansadas/os das bandeiras moralizantes e
defensoras de direitos que políticos, empresários, intelectuais, a
classe média, movimentos sociais populares e muitas pessoas empunham.
Todos aparecem como teoricamente corretos e em favor das leis e dos
chamados direitos “inalienáveis”.
Todos são seus defensores e a retórica apurada ou os
gritos e as palavras de ordem não faltam quando os proclamam. Para isso,
usam uma linguagem muitas vezes hermética para impressionar e marcar
sua importância. Cegos de seu próprio orgulho ou até de sua ignorância
são muitas vezes incapazes de mover uma palha na linha de ações eficazes
no cotidiano. Nós nos contagiamos por suas palavras e falsas promessas.
Nós chegamos até a reconhecer a importância de suas leis e de seu
saber. Mas, a vida e seus imprevistos são sempre mais.
Intelectuais, especialmente os que escrevem e leem
livros científicos, querem a partir de sua crença racional ser do bem e
também proclamar direitos claros. O clero de diferentes origens,
convencido de sua bondade, muitas vezes afoga-se em discursos vomitando
crenças metafísicas, fazendo aparentes milagres, prometendo o
impossível, e até garantindo sua realização futura confirmada por seu
Deus.
Estão convencidos, muitas vezes narcisicamente, de sua
palavra contanto que nenhuma ameaça mude seus grandes ou pequenos
privilégios. Como sairemos do lodo de nossas próprias idéias e
discursos? Como simplificar a fala, as leis, os direitos, os cuidados
frente às reais dores humanas? Como sair do legalismo em favor da perda
imediata da vida, do abandono de tantas pessoas vítimas de acasos e
necessidades? Como cultivar a compaixão entre nós?
Sinto que estamos quase sem rumo e todos misturados
nessa massa humana barulhenta e instável que, embora condenada ao
efêmero da vida, age como se fosse eterna e vivesse certezas absolutas.
Falamos de direitos sem de fato nos curvarmos diante da imediata
necessidade dos que de fato estão com sua vida a descoberto.
Com a filósofa espanhola Adela Cortina em seu livro
“Aporofobia”, fobia aos pobres ou medo, ou recusa, ou distância dos
pobres, acredito na complexidade de nossas relações políticas e
econômicas em relação ao ‘outro’, o outro, o estrangeiro, o imigrante, o
diferente do dominador padrão ou de mim. O outro não é qualquer outro, o
outro não é um genérico ou um universal. O outro tem cor, etnia,
religião, classe, contexto, mas, sobretudo dólares no bolso ou no cartão
de crédito. E é aí que se situa toda a diferença.
Por exemplo, as lutas identitárias, quer religiosas ou
políticas, quer étnicas ou de gênero, são marcadas pelo corte da
aporofobia. O que quer que façamos pode ser aprovado ou rejeitado,
permitido ou proibido quando estamos acompanhados pelo estatuto de
pertencer em primeiro lugar à identidade dos que são reconhecidos como
cultuadores e mantenedores fiéis do capitalismo.
Esses fiéis têm atestado batismal dado pelo cartão de
crédito, atestado dado e aprovado pelo sistema vigente. Esta identidade
invisibiliza as diferenças, as torna suportáveis e lhes dá direito de
cidadania internacional. Torna-se “passe livre” e quem a possui não
sofre qualquer constrangimento e pode gozar de todos os benefícios da
liberdade e do direito capitalista.
Podem entrar e sair de hotéis e shoppings de luxo,
pode-se receber honrarias públicas internacionais mesmo aquelas
reconhecidas pelos prêmios internacionais de direitos. Podem frequentar
palácios reais e episcopais, ter colóquios privados com autoridades
supremas, mudar publicamente de opinião e outras benesses garantidas.
Os preconceitos e os conflitos identitários existem
apenas para os degraus inferiores da hierarquia social. Os grandes, os
que degustam do mesmo champagne e caviar, têm grande tolerância entre
si, suportam suas diferenças, suas cores, suas crenças religiosas, seus
cheiros e orientações sexuais porque vivem do mesmo estofo ou com o
mesmo ‘passe livre’ que lhes permite e exige respeito mútuo, ao menos
para salvar as aparências.
Lembrar essa situação incômoda nos convida a ir mais
longe do que a simples defesa dos focos identitários e de suas lutas de
reconhecimento. Embora admitamos sua grande importância e a validade de
suas reivindicações atuais, temos que admitir que existe algo mais a ser
observado e considerado. Para além do universalismo dos direitos
humanos há uma espécie de berço seletivo no qual eles repousam.
Trata-se do berço dos privilégios que seu ‘passe livre’
financeiro lhes proporciona. As leis na teoria são para todos, mas
repousam num Direito deitado em um ‘berço esplêndido’ de privilégios.
Quem não tem o berço simbolizado pelo cartão de ‘passe livre’ não
tem Direitos. E não tem Direito a leis igualitárias que deveriam em
primeiro lugar favorecer a que todos tenham o vital para a manutenção de
suas vidas. Esse velho vício humano dos ‘privilégios dos donos do ouro’
ainda persiste como marca quase indelével em nós.
Tudo gira em torno do vil metal agora volatizado em
‘bancos de nuvens’ reconhecidos internacionalmente e localmente. Todos o
desejam e ele vai penetrando em larga escala em todos os ambientes.
Será mesmo que o apartheid na África do Sul terminou? Será mesmo
que os Estados Unidos ou Israel temem o islamismo quando recebem os
príncipes do petróleo? Será que o racismo norte-americano e brasileiro é
igual para todos os negros e negras? Será que as mulheres agora
procuradas pelos partidos políticos, pelos bancos, pelas empresas de
grandes empreendimentos e até pelas igrejas apontam para o crescimento
da dignidade das mulheres?
Cegos de orgulho por nossas pequenas lutas
identitárias ou pelo respeito pretendidamente radical às nossas leis
nacionais, talvez não percebamos o roubo mais profundo de nossa
dignidade. Não percebemos que o sistema capitalista entranhado em nós,
em nossas instituições e lutas, nos leva aonde não queremos ir
imaginando muitas vezes que estamos no bom caminho. Ele penetra em nossa
intimidade, em nossos sonhos e a tal ponto que só conseguimos sonhar a
partir dele, decidir a partir dele, pensar com ele, ser livre a partir
da liberdade que ele nos permite ter.
Tudo o que escrevo agora certamente não é novidade. Apenas intuo que temos que nos lembrar dessas ‘antiguidades’
que nos habitam porque as armadilhas que o capitalismo arma e que nós
armamos a nós mesmos são tão grandes e sutis que às vezes nem as
percebemos.
E mais, as armadilhas provindas de nossa própria
ingenuidade transformada na crença na bondade inerente das pessoas
muitas vezes nos impedem de ver as nefastas transações dos poderes
estabelecidos sobre nós. O que nos ajuda a viver pode também nos matar.
Esta é a dialética contraditória da vida. Mas, apesar disso ousamos
esperar... Talvez de nossas entranhas, um dia, algo melhor possa surgir
como aquela flor cantada que “brotou do impossível chão”.
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