30 Dezembro, 2010

O império do consumo

Eduardo Galeano, Envolverde / Consciência.net

“A produção em série, em escala gigantesca, impõe em todo lado as suas pautas obrigatórias de consumo. Esta ditadura da uniformização obrigatória é mais devastadora que qualquer ditadura do partido único: impõe, no mundo inteiro, um modo de vida que reproduz os seres humanos como fotocópias do consumidor exemplar.

O sistema fala em nome de todos, dirige a todos as suas ordens imperiosas de consumo, difunde entre todos a febre compradora; mas sem remédio: para quase todos esta aventura começa e termina no écran do televisor. A maioria, que se endivida para ter coisas, termina por ter nada mais que dívidas para pagar dívidas as quais geram novas dívidas, e acaba a consumir fantasias que por vezes materializa delinquindo.

Os donos do mundo usam o mundo como se fosse descartável: uma mercadoria de vida efémera, que se esgota como se esgotam, pouco depois de nascer, as imagens disparadas pela metralhadora da televisão e as modas e os ídolos que a publicidade lança, sem tréguas, no mercado. Mas para que outro mundo vamos mudar-nos?

A explosão do consumo no mundo atual faz mais ruído do que todas as guerras e provoca mais alvoroço do que todos os carnavais. Como diz um velho provérbio turco: quem bebe por conta, emborracha-se o dobro. O carrossel aturde e confunde o olhar; esta grande bebedeira universal parece não ter limites no tempo nem no espaço. Mas a cultura de consumo soa muito, tal como o tambor, porque está vazia. E na hora da verdade, quando o estrépito cessa e acaba a festa, o borracho acorda, só, acompanhado pela sua sombra e pelos pratos partidos que deve pagar.

A expansão da procura choca com as fronteiras que lhe impõe o mesmo sistema que a gera. O sistema necessita de mercados cada vez mais abertos e mais amplos, como os pulmões necessitam o ar, e ao mesmo tempo necessitam que andem pelo chão, como acontece, os preços das matérias-primas e da força humana de trabalho.

O direito ao desperdício, privilégio de poucos, diz ser a liberdade de todos. Diz-me quanto consomes e te direi quanto vales. Esta civilização não deixa dormir as flores, nem as galinhas, nem as pessoas. Nas estufas, as flores são submetidas a luz contínua, para que cresçam mais depressa. Nas fábricas de ovos, as galinhas também estão proibidas de ter a noite. E as pessoas estão condenadas à insônia, pela ansiedade de comprar e pela angústia de pagar. Este modo de vida não é muito bom para as pessoas, mas é muito bom para a indústria farmacêutica. Os EUA consomem a metade dos sedativos, ansiolíticos e demais drogas químicas que se vendem legalmente no mundo, e mais da metade das drogas proibidas que se vendem ilegalmente, o que não é pouca coisa se se considerar que os EUA têm apenas cinco por cento da população mundial.

“Gente infeliz os que vivem a comparar-se”, lamenta uma mulher no bairro do Buceo, em Montevideo. A dor de já não ser, que outrora cantou o tango, abriu passagem à vergonha de não ter. Um homem pobre é um pobre homem. “Quando não tens nada, pensas que não vales nada”, diz um rapaz no bairro Villa Fiorito, de Buenos Aires. E outro comprova, na cidade dominicana de San Francisco de Macorís: “Meus irmãos trabalham para as marcas. Vivem comprando etiquetas e vivem suando em bicas para pagar as prestações”.

Invisível violência do mercado: a diversidade é inimiga da rentabilidade e a uniformidade manda. A produção em série, em escala gigantesca, impõe em todo lado as suas pautas obrigatórias de consumo. Esta ditadura da uniformização obrigatória é mais devastadora que qualquer ditadura do partido único: impõe, no mundo inteiro, um modo de vida que reproduz os seres humanos como fotocópias do consumidor exemplar.”
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29 Dezembro, 2010

Receita para um Ano Novo mais feliz

Marcelo Barros, Adital

“Se existe uma palavra mágica é o desejo. Quando desejamos com toda força interior, emitimos uma energia misteriosa que nos compromete no empenho de realizar o que desejamos. Isso pode ter conseqüências concretas para as outras pessoas e no mundo. Nestes dias, há quem tenha desejado "Feliz ano novo!" como mera formalidade social. Entretanto, a maioria das pessoas, de fato, anseia que este ano de 2011 seja um tempo mais feliz e de paz para si mesmo/a, para os entes queridos e para todo mundo. Por isso, quem, de coração, almeja os melhores votos de ano novo, precisa saber como transformar o seu desejo em caminho positivo para um futuro melhor.

As culturas e religiões antigas crêem na força da palavra. Em muitas religiões indígenas, as palavras curam ou, ao contrário, podem matar. Na Bíblia, vários salmos pedem a Deus que nos proteja dos "i pô ´allê ´awen", isto é, as pessoas que, com sua palavra, provocam males como doenças, tragédias ecológicas e todo tipo de infelicidade. Esta cultura dos amaldiçoadores vinha de Sumer onde existiam rituais de Shurpu, maldições do tipo que em nossa cultura popular se chamaria "rogar praga". No Novo Testamento, a 1ª carta de Pedro insiste que "nós temos a vocação da bênção, isto é, somos chamados a bendizer, ou seja, invocar o bem sobre as pessoas e sobre o universo (1 Pd 3, 9).”
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28 Dezembro, 2010

“Desta vez não haverá Arca de Noé”

A tarefa coletiva da humanidade é buscar o equilíbrio com a natureza. Cada um tem de fazer sua parte, ser mais com menos. O problema não é o dinheiro, afirma nesta entrevista exclusiva o escritor e teólogo brasileiro Leonardo Boff.

Daniela Pastrana, Envolverde / Terramérica

Cidade do México, México, 27 de dezembro (Terramérica).- “O mercado não resolverá a crise ambiental” afirma o teólogo e ecologista Leonardo Boff, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. A solução, insiste, está na ética e na luta dos povos originários para mudar a relação com a natureza. Boff, que ensina ética, filosofia da religião e ecologia, é um dos principais representantes da Teologia da Libertação, corrente progressista da Igreja Católica na América Latina, escreveu mais de 60 livros e dedicou os últimos 20 anos a promover o movimento verde.

Foi um dos 23 incentivadores da Carta da Terra em 2000 e, um ano depois, recebeu o Right Livelihood Award, conhecido como Prêmio Nobel Alternativo, concedido a personalidades destacadas na busca de soluções para os problemas globais mais urgentes. “Se não mudarmos, vamos ao encontro do pior... Ou nos salvamos ou pereceremos todos”, disse Boff em uma entrevista concedida ao Terramérica na capital mexicana, após assistir como observador a 16ª Conferência das Partes (COP 16) da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática, realizada este mês em Cancún.

Terramérica: Como avalia a COP 16?

Leonardo Boff: O que predominou, salvo nos últimos dois dias, foi um clima de decepção, de fracasso. No entanto, surpreendentemente, houve três convergências: o compromisso de lutar para a temperatura mundial não subir dois graus, a criação do Fundo Climático Verde de US$ 30 bilhões (para 2012) a fim de ajudar os países mais vulneráveis, um sinal de solidariedade interessante, e a criação de um grande fundo para a redução do desmatamento e da degradação das florestas, porque aí está a causa principal do aquecimento global.

Terramérica: Como entender a posição da Bolívia, único país que não aceitou esses compromissos?

LB: A Bolívia parte da tese de que a Terra é Pachamama, um organismo vivo que deve ser respeitado, cuidado, e não apenas explorado. É uma visão contrária à dominante, que está no contexto da economia: vender bônus de carbono, por exemplo, que significa ter direito de contaminar. As sociedades dominantes veem a Terra como um baú de recursos que podem ser usados infinitamente, embora seja preciso fazer isso com sustentabilidade, porque são escassos. Não reconhecem dignidade e direito aos seres da natureza, os veem como meios de produção e sua relação é de utilidade. Estes são temas que não entram em Cancún, nem em nenhuma COP.

Terramérica: Por que teriam que entrar?

LB: Porque o sistema que criou o problema não vai nos tirar dele. Se cada país tem de crescer um pouco ao ano e ao fazê-lo degrada a natureza e aumenta o aquecimento, então este sistema é hostil à vida.”
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27 Dezembro, 2010

Um balanço dos melhores autores da década de 1980

O teste do tempo – posteridade deve ser isto – é algo absolutamente fora do nosso controle. By the way: aguardemos em 2020 o inventário da geração de 90

Márcia Denser, Congresso em Foco

O ano de 2010 marca o fim da década, logo balanços e listas se tornam inevitáveis. Pensando nisso, caiu a ficha: usando o critério crítico geracional (as gerações de autores se sucedem a cada 30 anos), em 2010 já se pode fazer uma avaliação da geração de escritores da década de 1980.

E na geração 70/80 (a minha) surgiram cerca duns 400 novos autores! Para se ter uma idéia, em 1976, só a Editora Ática (na época, investindo massivamente em ficção nacional; lembram as famosas capas do Elifas Andreatto?), na coleção Nosso Tempo, publicou cerca de 75 títulos de autores inéditos. E onde estão esses caras hoje?

Dos quatrocentos escritores emergentes daquela época, trezentos e setenta e cinco desapareceram por completo, porque hoje, trinta anos depois, só restam aí uns vinte e cinco, sem contar os poetas, os mortos ou ambos, tipo Leminski, Ana Cristina César...

Porque não se trata de fazer sucesso ou vender ou ganhar prêmios ou concursos ou bolsas ou petrobrases, não se trata nem de publicar muito, trata-se de escrever uma obra – pode ser apenas uma – realmente significativa, que faça diferença, que penetre o imaginário e se instale na memória profunda das gerações subsequentes. E esse critério inclui o equivalente inverso: o conjunto da obra é que se torna representativo. É o caso do escritor que publica constantemente e, pelo conjunto produzido, define um estilo, uma marca inconfundível.

Aliás, nessa categoria, de imediato posso citar três e todos gaúchos: Luís Fernando Veríssimo, Moacyr Scliar e João Gilberto Nöll – este menos prolífico, todavia, mais complexo, dum nível técnico-estilístico refinadíssimo.

Tal critério – a obra exemplar ou o conjunto de obras – consagrou nossos grandes escritores, claro, incluindo os gênios – o autor de várias obras fundamentais – a exemplo de Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Osman Lins, Lygia Fagundes Telles, Clarice Lispector, João Cabral de Melo Neto, Érico Veríssimo, Mário de Andrade, etc. Mas a propósito, e citando o próprio Mário de Andrade: Uma grande literatura nacional não é feita de gênios porque o gênio aparece em qualquer lugar, até no deserto de Gobi, uma grande literatura nacional é feita por muitos escritores médios.”
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Estas sinistras festas de Natal


“Ninguém mais se lembra de Deus no Natal. Há tanto barulho de cornetas e de fogos de artifício, tantas grinaldas de fogos coloridos, tantos inocentes perus degolados e tantas angústias de dinheiro para se ficar bem acima dos recursos reais de que dispomos que a gente se pergunta se sobra algum tempo para alguém se dar conta de que uma bagunça dessas é para celebrar o aniversário de um menino que nasceu há 2 mil anos em uma manjedoura miserável, a pouca distância de onde havia nascido, uns mil anos antes, o rei Davi.

Cerca de 954 milhões de cristãos – quase 1 bilhão deles, portanto – acreditam que esse menino era Deus encarnado, mas muitos o celebram como se na verdade não acreditassem nisso. Celebram, além disso, muitos milhões que nunca acreditaram, mas que gostam de festas e muitos outros que estariam dispostos a virar o mundo de ponta cabeça para que ninguém continuasse acreditando. Seria interessante averiguar quantos deles acreditam também no fundo de sua alma que o Natal de agora é uma festa abominável e não se atrevem a dizê-lo por um preconceito que já não é religioso, mas social.

O mais grave de tudo é o desastre cultural que estas festas de Natal pervertidas estão causando na América Latina. Antes, quando tínhamos apenas costumes herdados da Espanha, os presépios domésticos eram prodígios de imaginação familiar. O menino Jesus era maior que o boi, as casinhas nas colinas eram maiores que a Virgem e ninguém se fixava em anacronismos: a paisagem de Belém era complementada com um trenzinho de arame, com um pato de pelúcia maior que um leão que nadava no espelho da sala ou com um guarda de trânsito que dirigia um rebanho de cordeiros em uma esquina de Jerusalém.

Por cima de tudo, se colocava uma estrela de papel dourado com uma lâmpada no centro e um raio de seda amarela que deveria indicar aos Reis Magos o caminho da salvação. O resultado era na realidade feio, mas se parecia conosco e claro que era melhor que tantos quadros primitivos mal copiados do alfandegário Rousseau.

A mistificação começou com o costume de que os brinquedos não fossem trazidos pelos Reis Magos – como acontece na Espanha, com toda razão –, mas pelo menino Jesus. As crianças dormíamos mais cedo para que os brinquedos nos chegassem logo e éramos felizes ouvindo as mentiras poéticas dos adultos.

No entanto, eu não tinha mais do que cinco anos quando alguém na minha casa decidiu que já era hora de me revelar a verdade. Foi uma desilusão não apenas porque eu acreditava de verdade que era o menino Jesus que trazia os brinquedos, mas também porque teria gostado de continuar acreditando. Além disso, por uma pura lógica de adulto, eu pensei então que os outros mistérios católicos eram inventados pelos pais para entreter aos filhos e fiquei no limbo.

Naquele dia – como diziam os professores jesuítas na escola primária –, eu perdi a inocência, pois descobri que as crianças tampouco eram trazidas pelas cegonhas desde Paris, que é algo que eu ainda gostaria de continuar acreditando para pensar mais no amor e menos na pílula.

Tudo isso mudou nos últimos 30 anos, mediante uma operação comercial de proporções mundiais que é, ao mesmo tempo, uma devastadora agressão cultural. O menino Jesus foi destronado pela Santa Claus dos gringos e dos ingleses, que é o mesmo Papai Noel dos franceses e aos que conhecemos de mais. Chegou-nos com o trenó levado por um alce e o saco carregado de brinquedos sob uma fantástica tempestade de neve.

Na verdade, este usurpador com nariz de cervejeiro é simplesmente o bom São Nicolau, um santo de quem eu gosto muito e porque é do meu avô o coronel, mas que não tem nada a ver com o Natal e menos ainda com a véspera de Natal tropical da América Latina.

Segundo a lenda nórdica, São Nicolau reconstruiu e reviveu a vários estudantes que haviam sido esquartejados por um urso na neve e por isso era proclamado o patrono das crianças. Mas sua festa é celebrada em 6 de dezembro, e não no dia 25. A lenda se tornou institucional nas províncias germânicas do Norte no final do século 18, junto à árvore dos brinquedos e a pouco mais de cem anos chegou à Grã-Bretanha e à França.

Em seguida, chegou aos Estados Unidos, e estes mandaram a lenda para a América Latina, com toda uma cultura de contrabando: a neve artificial, as velas coloridas, o peru recheado e estes quinze dias de consumismo frenético a que muito poucos nos atrevemos a escapar.

No entanto, talvez o mais sinistro destes Natais de consumo seja a estética miserável que trouxeram com elas: esses cartões postais indigentes, essas cordinhas de luzes coloridas, esses sinos de vidro, essas coroas de flores penduradas nas portas, essas músicas de idiotas que são traduções malfeitas do inglês e tantas outras gloriosas asneiras para as quais nem sequer valia a pena ter sido inventada a eletricidade.

Tudo isso em torno da festa mais espantosa do ano. Uma noite infernal em que as crianças não podem dormir com a casa cheia de bêbados que erram de porta buscando onde desaguar ou perseguindo a esposa de outro que acidentalmente teve a sorte de ficar dormido na sala.

Mentira: não é uma noite de paz e amor, mas o contrário. É a ocasião solene das pessoas de quem não gostamos. A oportunidade providencial de sair finalmente dos compromissos adiados porque indesejáveis: o convite ao pobre cego que ninguém convida, à prima Isabel que ficou viúva há 15 anos, à avó paralítica que ninguém se atreve a exibir.

É a alegria por decreto, o carinho por piedade, o momento de dar presente porque nos dão presentes e de chorar em público sem dar explicações. É a hora feliz de que os convidados bebam tudo o que sobrou do Natal anterior: o creme de menta, o licor de chocolate, o vinho passado.

Não é raro, como aconteceu frequentemente, que a festa acabe a tiros. Nem tampouco é raro que as crianças – vendo tantas coisas atrozes – terminem acreditando de verdade que o menino Jesus não nasceu em Belém, mas nos Estados Unidos.”
Gabriel García Márquez

23 Dezembro, 2010

O sequestro das Luzes do Natal e a escuridão

Jung Mo Sung, Adital

“As propagandas de alguns dos maiores bancos privados do Brasil para esta época de Natal nos ensinam que devemos lutar contra o consumismo desenfreado, usar dinheiro com consciência, saber que o dinheiro é um instrumento, buscar a verdadeira felicidade, etc. É o espírito de Natal invadindo espaços que normalmente são dominados por ganância de mais dinheiro, ostentação e eficiência econômica acima de tudo.

Essas propagandas me fazem pensar: será que na época de Natal ocorre uma "conversão radical" entre os grandes capitalistas e executivos e eles percebem que a vida é mais do que a busca ilimitada de riqueza e a sua ostentação? Uma conversão que, mesmo sendo por muito pouco tempo, mostraria o "poder" do espírito do Natal? Gostaria de acreditar, mas a vida real me lembra que não devemos confundir retóricas de propaganda com as reais intenções dos capitalistas e a lógica econômica capitalista.

É claro que deve haver algum grande empresário ou executivo desejando que a vida realmente seja assim, com o uso consciente do dinheiro, consumo sustentável, justiça social acima da acumulação da riqueza nas mãos de poucos, etc. Mas, ele também vai tomar consciência de que uma coisa é propaganda do final de ano e a outra é a "vida dura e crua" dos negócios.

A apropriação ou o seqüestro do "espírito de Natal" pelas propagandas das grandes empresas nos lembram que não basta líderes de igrejas ou teólogos/as propagarem discursos enaltecendo o espírito do Natal, pregando que todos nós deveríamos viver de acordo com os valores natalino. Esses discursos, por mais bonitos e tocantes que possam ser, não fazem mais diferença no e para o mundo. Tudo ficou pasteurizado! E quando o anúncio da Boa Nova não faz mais diferença, não provoca mudança e não produz uma novidade, não é mais Evangelho.”
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22 Dezembro, 2010

Natal: ver com os olhos do coração

Leonardo Boff, Adital

“Somos obrigados a viver num mundo onde a mercadoria é o objeto mais explícito do desejo de crianças e de adultos. A mercadoria tem que ter brilho e magia, senão ninguém a compra. Ela fala mais para os olhos cobiçosos do que para o coração amoroso. É dentro desta dinâmica que se inscreve a figura do Papai Noel. Ele é a elaboração comercial de São Nicolau -Santa Claus- cuja festa se celebra no dia 6 de dezembro. Era bispo, nascido no ano 281 na atual Turquia. Herdou da família importante fortuna. Na época de Natal saia vestido de bispo, todo vermelho, usava um bastão e um saco com os presentes para as crianças. Entregava-os com um bilhetinho dizendo que vinham do Menino Jesus.

Santa Claus deu origem ao atual Papai Noel, criação de um cartunista norte-americano Thomas Nast em 1886, posteriormente divulgado pela Coca-Cola já que nesta época de frio caía muito seu consumo. A imagem do bom velhinho com roupa vermelha e saco nas costas, bonachão, dando bons conselhos às crianças e entregando-lhes presentes é a figura predominante nas ruas e nas lojas em tempo de Natal. Sua pátria de nascimento teria sido a Lapônia na Finlândia, onde há muita neve, elfos, duendes e gnomos e onde as pessoa se movimentam em trenós puxados por renas.

Papai Noel existe? Esta foi a pergunta que Virgínia, menina de 8 anos, fez a seu pai. Este lhe respondeu: "Escreva ao editor do jornal local! Se ele disser que existe, então ele existe de fato". Foi o que ela fez. Recebeu esta breve e bela resposta:

Sim, Virgínia, Papai Noel existe. Isto é tão certo quanto a existência do amor, da generosidade e da devoção. E você sabe que tudo isto existe de verdade, trazendo mais beleza e alegria à nossa vida. Como seria triste o mundo se não houvesse o Papai Noel! Seria tão triste quanto não existir Virgínias como você. Não haveria fé das crianças, nem a poesia e a fantasia que tornam nossa existência leve e bonita. Mas para isso temos que aprender a ver com os olhos do coração e do amor. Então percebemos que não há nenhum sinal de que o Papai Noel não exista. Se existe o Papai Noel? Graças a Deus ele vive e viverá sempre que houver crianças grandes e pequenas que aprenderam a ver com os olhos do coração.”
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21 Dezembro, 2010

Trepadeiras natalinas

Paulo Rebelo, Terra Magazine

“O que eu mais gosto do Natal é que eu detesto Natal. Logo, não preciso inventar desculpa ou matar algum parente pela terceira vez no mesmo ano para não ir às confraternizações onde há o maior número de inimigos por cadeira quadrada.

Fujo de eventos assim o ano inteiro. Dividir uma cerveja é um ato sagrado de contrição espiritual e minha religião não permite participar desse ritual com lobos que viram cordeiros só porque é Natal. Me dá uma ressaca dos infernos.

Veja você. Aqui na ruazinha onde morei por cinco anos alternados, no centro deste Recife limpo e cheiroso, há um grupo de cheira-colas que dormem por lá desde sempre. Às vezes aumenta, às vezes diminui, mas sempreteve.

Fazem parte da paisagem e até me chamam pelo nome, pois geralmente o único bêbado sem noção que tem coragem de passar por ali de madrugada sou eu, confiante no meu crachá subjetivo de "mantenha distância, sou cidadão nativo, bêbado local".

Até quando não sei, mas até hoje funciona. Embora desconfie que o pão com mortadela e a garapa de uva que costumo pegar no caminho de volta e deixar pela ruazinha sejam, de fato, minha moeda de isenção.

Há poucos dias, regresso ao lar de madrugada, tropeçando como de costume, e vejo cinco pessoas distribuindo sopas e presentinhos, crentes de que são a encarnação do papai noel 2.0 com banda larga da GVT.”

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Foto: Paulo Rebelo, Terra Magazine

20 Dezembro, 2010

Mulher no comando do país! E agora?

Débora Carvalho, Digestivo Cultural

"Já não basta comandar o fogão, a educação dos filhos, o orçamento doméstico, as salas de aula... Elas foram se infiltrando no trabalho ― depois de sofrer muito preconceito por serem consideradas incapazes. E agora, no Brasil, a primeira presidenta. Me lembro da sacada que ela teve ao puxar para si os votos de Marina Silva, no segundo turno, dizendo que mais da metade da população manifestava o desejo de ver uma mulher na presidência...

Me lembro também que, antes dos meus 9 anos de idade, foi a vez da Luiza Erundina. O fato de ela ser mulher e prefeita virou motivo de chacota nos corredores do condomínio, e até mesmo em casa - entre os amigos do meu pai.

― Onde já se viu uma mulher na prefeitura de São Paulo? Vai afundar a cidade. Lugar de mulher é no fogão.

E, depois de um tempo, todo mundo reclamava da buraqueira no asfalto. "Os buracos da Erundina." E eu percebia até um pouco de maldade, sem entender direito o que significava (como quando alguém diz uma coisa querendo dizer outra mas você não entende o contexto porque não conhece a palavra, mas nota algo no tom de voz). Pirralha ainda, eu não entendia o contexto nem o conceito.

Minha família, à moda dos tempos das fazendas, é bem grande. Primogênita de seis, tenho quatro irmãos e uma irmã. Eles destruíam minhas bonecas e eu ajudava. Minha mãe conta que quando eu era bebê, não podia ver uma boneca que abria a boca a chorar - morrendo de medo, quase apavorada. Então, eu brincava com meus irmãos de carrinho, de bolinha de grude, de fazer e soltar pipa, de futebol no meio da rua. As pessoas comentavam. Uma vez ouvi uma senhora criticando minha mãe por permitir que eu brincasse de bola com meus irmãos e os amiguinhos deles.

Por outro lado, assim como eu aprendi a cozinhar bem cedo, todos os meus irmãos também aprenderam. Casados, eles é que ensinaram as esposas a melhorar o desempenho no fogão. No entanto, isso também era visto de modo estranho por algumas pessoas.

Interessante como quando a gente é criança escuta conversa de adulto e não entende direito, mas sabe que tem algo misterioso... Depois que cresce e aprende o significado daquelas palavras desconhecidas, cai a ficha. ("Cai a ficha"? Isso não existe mais. Bem, poderíamos substituir a expressão por algo tipo "fazer o download", mas eu ainda sou do tempo do orelhão de ficha, que existiu até os meus 18 anos.)”
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19 Dezembro, 2010

Seu bumbum já sorriu hoje?


Eberth Vêncio, Revista Bula

“Gluteoplastia consiste na injeção cirúrgica de gordura corporal no bumbum ou na inserção de próteses de silicone, parecidas com aquelas colocadas nas mamas, com o intuito de modelar, corrigir deformidades, ou simplesmente aumentar o volume da bunda, da autoestima e dos admiradores (as), uma vez que o procedimento pode ser aplicado em homens e mulheres com “bundas tristes”, conforme diz o jargão da cirurgia estética.

Uma vez realizada a cirurgia, a (o) paciente deve seguir rigorosos cuidados pós-operatórios, permanecendo vários dias sem se sentar (de sete a trinta dias, dependendo da rotina ou do bom humor do médico). Nariz de tucano, orelhas de abano, pés de galinha, peitos caídos, bundas tristes... Nada que uma lanternagem e pintura não resolvam, desde que realizadas pelas mãos hábeis de cirurgiões capacitados. Portanto, a bunda é triste, mas a vida é bela. Freak le boom boom, baby!

Um meu quase amigo quase perde a esposa por causa dela, a incrível, a Rainha do Bumbum, a toxina botulínica facial mais mal sucedida do show business, a ícone de adolescentes punheteiros dos anos 70 e 80, a sumidade do pornoespaço virtual, a campeã de acessos e decessos, acessos e decessos, acessos e decessos, acessos e decessos... Uau!! Quanta fricção...

Acontece que o casal degustava uma pizza numa cantina chique da cidade, quando foi surpreendido — principalmente, ele, rapagão surpreendido com tamanhos glúteos encarcerados dentro de um vestidinho — com a entrada da veterana beldade. Ela é mais gostosa ao vivo do que nos programas vespertinos da TV em que ficava rebolando, gemendo e fazendo cara de safadinha, pensou boquiaberto, pausando a mastigação da massa.

O rebolation da ex-musa da masturbação juvenil pelo salão do restaurante causou um frisson na clientela. O ruído que mais se ouvia no ambiente eram dos talheres arremessados sobre os pratos, cadeiras sendo arrastadas com rispidez, e mulheres sapateando rumo ao toalete, local de se recompor da ira, retocar a maquiagem borrada pelas lágrimas, maldizer os homens e constatar que eles realmente não prestam.”
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Dez conselhos para viver a religião

Frei Betto, Adital

“1. Religue-se. Evite o solipsismo, o individualismo, a solidão nefasta. Religue-se ao mais profundo de si mesmo, lá onde se cultivam os bens infinitos; à natureza, da qual somos todos expressão e consciência; ao próximo, de quem inevitavelmente dependemos; a Deus, que nos ama incondicionalmente. Isto é religião, re-ligar.

2. Tenha presente que as religiões surgiram na história da humanidade há cerca de oito mil anos. A espiritualidade, porém, é tão antiga quanto a própria humanidade. Ela é o fundamento de toda religião, assim como o amor em relação à família. Busque na sua religião aprimorar a sua espiritualidade. Desconfie de religião que não cultiva a espiritualidade e prioriza dogmas, preceitos, mandamentos, hierarquias e leis.

3. Verifique se a sua religião está centrada no dom maior de Deus: a vida. Religião centrada na autoridade, na doutrina, na ideia de pecado, na predestinação, é ópio do povo. "Vim para que todos tenham vida e vida em abundância", disse Jesus (João 10,10). Portanto, a religião não pode manter-se indiferente a tudo que impede ou ameaça a vida: opressão, exclusão, submissão, discriminação, desqualificação de quem não abraça o mesmo credo.

4. Engaje-se numa comunidade religiosa comprometida com o aprimoramento da espiritualidade. Religião é comunhão. E imprima à sua comunidade caráter social: combate à miséria; solidariedade aos pobres e injustiçados; defesa intransigente da vida; denúncia das estruturas de morte; anúncio de um "outro mundo possível", mais justo e livre, onde todos possam viver com dignidade e felicidade.”
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17 Dezembro, 2010

O Planeta vai continuar com febre

Leonardo Boff, Envolverde, O autor

“A COP 16 terminou na madrugada do dia 11 dezembro em Cancún com pífias conclusões, tiradas mais ou menos a forceps. São conhecidas e por isso não cabe aqui referi-las. Devido ao clima geral de decepção, foram até mais do que se esperava mas menos do que deveriam ser, dada a gravidade da crescente degradação do sistema-Terra. Predominou o espírito de Copenhague de enfrentar o problema do aquecimento global com medidas estruturadas ao redor da economia. E aqui reside o grande equívoco, pois o sistema econômico que gerou a crise não pode ser o mesmo que nos vai tirar da crise. Usando uma expressão já usada pelo autor: tentando limar os dentes do lobo, crê-se tirar-lhe a ferocidade, na ilusão de que esta reside nos dentes e não na natureza do próprio lobo. A lógica da economia dominante que visa o crescimento e o aumento do PIB implica na dominação da natureza, na desconsideração da equidade social (dai a crescente concentração de riqueza e a célere apropriação de bens comuns) e da falta de solidariedade para com as futuras gerações. E querem-nos fazer crer que esta dinâmica nos vai tirar das muitas crises, sobretudo a do aquecimento global.

Mas cumpre enfatizar: chegamos a um ponto em que se exige um completo repensamento e reorientação de nosso modo de estar no mundo. Não basta apenas uma mudança de vontade, mas sobretudo se exige a transformação da imaginação. A imaginação é a capacidade de projetar outros modos de ser, de agir, de produzir, de consumir, de nos relacionarmo-nos uns com os outros e com a Terra. A Carta da Terra foi ao coração problema e de sua possível solução ao afirmar:”Como nunca antes na história, o destino comum nos conclama a buscar um novo começo. Isto requer uma mudança nas mentes e nos corações. Requer um novo sentido de interdependência global e de responsabilidade universal. Devemos desenvolver e aplicar com imaginação a visão de um modo de vida sustentável aos níveis local, nacional, regional e global”.
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16 Dezembro, 2010

Para Noel

Urariano Motta, Direto da Redação

“Costuma-se dizer que Noel Rosa transformava a sua vida em samba. Consola. Como todo bom pequeno-burguês, adoramos um artista sofrido que cante para nós a sua dor. (Há uma foto de mulher, feiticeira, há uma foto da Dama do Cabaré que deve ter tantalizado Noel. Imaginamos o que ela escreveu no verso da imagem, se alguma vez lhe deixou alguma foto: “Como prova de amizade, Ceci”.) Então se diz que ele transformava a vida em samba, mas se esquece que nos intervalos da arte Noel evitava comer na frente dos admiradores. O queixo danificado mortificava-o, o seu mastigar era um espetáculo de animal de zoo. Ele, que já havia sido chamado, num duelo de sambas, de O Frankestein da Vila.

Se tentamos apanhar Noel a partir da maioria de suas letras, que diríamos, sem erro, quase sublimes, no limite da oração, da queixa de um homem a Deus, como em Último Desejo, diante de uma melodia que não podemos expressar em palavras, diante da expressão de tal sentimento, sempre novo, tão vivo e primordial que nos faz penetrar um cheiro de sal e mar pelo nariz, diríamos, que dor, que felicidade trágica na expressão! A impressão que Noel nos deixa, em seus versos mais cruéis, é que ele compõe epitáfios. Ou enternecedores testamentos. E Último Desejo é uma expressão de última vontade bem ambígua.

E aqui cabem duas observações. A primeira delas é que o patrimônio do poeta se faz em torno de coisas, como diríamos, intangíveis: bares que jamais possuiu, álcool bebido e sumido, amor que se foi, se alguma vez houve. Visto de um modo mais geral, as letras de Noel sempre exibem uma miséria material que não atinge o seu espírito. A miséria de bens tangíveis, materiais, não atinge a miséria humana A outra observação fala da ambiguidade dos seus rompimentos amorosos. Ações típicas de quem rompe pelo afastamento físico, mas não rompe no sentimento.”
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15 Dezembro, 2010

A última entrevista de Lennon

Luiz Antonio Mello, Direto da Redação

“A revista americana Rolling Stone publicou em seu site trechos inéditos da última entrevista de John Lennon, feita no dia 5 de dezembro de 1980, três dias antes de sua estúpida morte, onde o ex-Beatle lamentou que seus fãs desejassem "heróis mortos".

Nesta entrevista, já publicada em parte logo após a sua morte, John Lennon atacou, com ferocidade, seus fãs e também os críticos, que não aceitavam a saída do cantor do mundo da música, cinco anos antes. O que os fãs e os críticos querem, explicou o artista, "são heróis mortos, como Sid Vicious (baixista do Sex Pistols, morto em 1979) e James Dean (morto em 1955)". "Não estou interessado em ser um maldito herói morto (...), então esqueçam, esqueçam", disse Lennon.

E o cantor não afastou uma volta aos palcos. "Não é improvável. Mas sem bombas de fumaça, batons ou flashes. Tem que ser agradável. Podemos nos divertir. Somos roqueiros regenerados e vamos recomeçar do zero. Temos muito tempo, não é? Muito tempo", garantiu John Lennon.

A entrevista, com nove horas de duração, foi realizada três dias antes de John Lennon ter sido assassinado por Mark Chapman em Nova York. Os trechos transcritos do áudio, feito pelo jornalista Jonathan Cott, "foram publicados pela Rolling Stone na edição em homenagem a John Lennon (logo após a sua morte), mas Cott nunca transcreveu completamente suas fitas cassetes", explicou a revista em seu site.

Há alguns meses, contou Cott, "estava fazendo uma limpeza em meu armário na esperança de encontrar pastas em algum canto esquecido, quando achei duas fitas com os dizeres "John Lennon, 5 de dezembro de 1980". Fazia 30 anos que não as escutava e, quando coloquei para tocar, aquela voz incrivelmente tônica e viva começou a falar".

14 Dezembro, 2010

Facebook é a história de um vencedor e de perdedores


Euler de França Belém, Ravista Bula

“Os vencedores sofrem com o ressentimento dos perdedores, que, como são maioria, acabam por se tornar um imenso proletariado. Aqueles que perdem têm de pôr defeitos absurdos e suspeitos naqueles que vencem. Os vencedores se tornaram vencedores porque “roubaram” alguma ideia. Nós, que não somos gênios, no sentido de gênios criativos que se tornam poderosos em termos financeiros (como Bill Gates e Steve Jobs) ou mesmo estéticos (caso de James Joyce), sempre achamos que os que pegaram uma ideia que parecia simples, e estava dando sopa no mercado, e a transformaram numa ideia lucrativa, ou, no caso literário, esteticamente avançada, só podem ter plagiado. É o caso de Mark Zuckerberg, de 26 anos, criador do Facebook, a rede social que mais cresce em todo o mundo — no Brasil ainda perde para o Orkut, mas não por muito tempo.

Em Harvard, Zuckerberg era um estudante inquieto, menos dedicado às aulas do que à criação de alguma coisa, qualquer coisa que pudesse revolucionar a comunicação na internet. Desenvolveu algumas ideias, como programador excelente que é, e mexeu com os ânimos numa das melhores universidades do mundo. Um dia, convocado pelos irmãos gêmeos Cameron e Tyler Winklevoss, mais Divya Narendra, Zuckerberg começa a desenvolver uma rede social. Ao perceber que não precisava dos três, desenvolve o Facebook sozinho, com o apoio financeiro do amigo brasileiro Eduardo Saverin, hoje com 28 anos.

Com pouco dinheiro, mas muito trabalho criativo, Zuckerberg criou um empreendimento, o Facebook, que vale 41 bilhões de dólares (dado de novembro deste ano) e tem 500 milhões de usuários (7,3 milhões no Brasil, mais do que toda a população do Estado de Goiás). O Facebook é uma rede social — uma base para contatos empresariais, profissionais, debates sobre quaisquer assuntos (música, literatura, sexo, cinema), afetivos (três amigos encontraram namoradas interessantes) e mesmo para jogar conversa fora. As pessoas se tratam como amigas. Antes, as revistas punham na capa: “Computador — Você vai ter um”. Depois, vieram o notebook, o netbook, o iPhone, o iPad e virão outros. Agora a internet amplia os contatos globalitários e as revistas terão de dizer: “Redes Sociais — Você vai pertencer a uma delas”.
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13 Dezembro, 2010

O drama de Maria, José e Jesus

Eliakim Araujo, Direto da Redação

“Na semana que passou, uma jovem mãe brasileira que vive no sul da Flórida recebeu em casa a visita de seis agentes da Imigração americana e só não foi levada presa porque tem um bebê de apenas dois meses, mas foi notificada de que terá que comparecer a uma Corte, junto com o marido, para justificar-se perante um juiz da sua permanência nos Estados Unidos, sem a devida documentação legal.

Os agentes, na verdade, procuravam por uma outra brasileira que morou anteriormente na mesma casa alugada, ou seja, atiraram no que viram e acertaram no que não viram. E a nossa jovem mãe, ao provar que não era ela a mulher procurada, acabou revelando sua vulnerabilidade legal. Os únicos documentos que possuia, os passaportes brasileiros dela e do marido, foram apreendidos pelos visitantes inesperados e indesejados.

Maria e José, vamos chamá-los assim, vivem há vários anos nos EUA e sonham em voltar para o Brasil com algum pé-de-meia. Para isso trabalham duro de sol a sol, ele como handyman – aquele que faz serviços gerais em uma casa – e ela como manicure em um salão de beleza de brasileiros (trabalho do qual está afastada para cuidar de Jesus, o filho recém-nascido). Todo dinheirinho que juntam é mandado para a família no Brasil.

Maria, José e Jesus formam uma típica família brasileira nos Estados Unidos, gente honesta e humilde que veio geralmente do interior do Brasil em busca de uma oportunidade no país do qual ouviram dizer maravilhas, onde não falta trabalho e é fácil construir fortuna e ter acesso ao carro e à casa própria. Mas não têm acesso à mídia, a não ser quando cometem ou são vítimas de algum crime.

Em busca do sonho americano, todos os anos milhares de brasileiros, como Maria e José, correm atrás dele. Entram na terra do Tio Sam clandestinamente, correndo todos os riscos possíveis e imagináveis, até mesmo de morte, como aconteceu recentemente com quatro brasileiros que foram fuzilados por narcotraficantes no México, junto com dezenas de latinos que pretendiam atravessar a fronteira. E, se escapam dos sicários mexicanos, ainda têm que fugir da polícia de imigração americana, quando não morrem de fome e sede no deserto.

O drama de Maria, José e Jesus aconteceu na mesma semana em que o presidente Lula participava de uma festa no Itamaraty, no Rio, quando foi empossado o Conselho de Representantes de Brasileiros no Exterior (CRBE), nome pomposo para uma entidade de utilidade praticamente nenhuma.”
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12 Dezembro, 2010

O jornalismo e a pinga, uma combinação explosiva

Lucia Faria, Portal IMPRENSA

“Álcool e jornalismo sempre andaram lado a lado. Quem não tem histórias para contar sobre porres de colegas na redação ou nas redondezas do jornal é porque nunca trabalhou nesse ambiente. A velha guarda tem ainda muito mais casos. Todos deliciosos, de uma boemia nada ingênua, mas romanceada na cabeça de muitos.

O fotógrafo mais engraçado com quem trabalhei era um desses. Largava a gente na entrevista e ia dar uma volta. Gordo e branco, voltava com as bochechas vermelhas. Era sempre divertido e não se cansava de ajudar os focas. Pelo menos a mim. Já na redação, o editor de Internacional saia pouco para a rua após 18h, pois sua atenção maior naquele tempo estava na sala de telex. Então, para otimizar o tempo, como se diz hoje, deixava a garrafa de pinga embaixo da mesa. O fechamento, para ele, era literalmente um porre. Ambas os personagens já partiram para o outro andar, mas os amigos não se cansam de relembrar histórias.

Eu mesma já tive de admitir a minha editora que estava sem condições de escrever uma reportagem devido ao elevado grau etílico. Justifico. A pauta era sobre produção de vinhos caseiros. Fui à casa de uma búlgara que, além de preparar uma mesa farta com comida típica de seu país, me "obrigou" a experimentar boa parte de sua produção da bebida. De volta à redação, abri o jogo para a chefia. Era melhor deixar o texto para o dia seguinte.

Também percebi que o assunto de toda segunda-feira, principalmente entre os rapazes, era sobre os porres do final de semana. Cada um se vangloriava de ter bebido mais que o outro, como se fosse uma competição para saber qual fígado era o mais resistente. Por sorte o meu sempre foi ruim. Daí, que o fogo de hoje vira o tormento de amanhã.

Hoje as redações mudaram muito e, não muito tempo atrás, vivenciei uma cena oposta. Foi um ex-cliente meu que bebeu além da conta em um almoço de relacionamento com uma jornalista e ficou muito inconveniente. Falava alto no restaurante chique e exagerava nas bobagens. Eu, que não conhecia essa peculiaridade da pessoa, ficava cada minuto mais constrangida. A jornalista odiou, óbvio. O encontro, que era para ser agradável, virou um desastre total.

Como estamos na época de festas de confraternizações, de amigos secretos, das celebrações típicas de final de ano, é bom sempre lembrar: no dia seguinte a gente volta a encontrar as mesmas pessoas. Por isso, cuidado.”

11 Dezembro, 2010

WikiLeaks, o melhor de 2010

Vicente Escudero, Digestivo Cultural

“Quantos furos jornalísticos da última década foram capazes de tornar seus autores inimigos declarados da OTAN? Qual jornal teve seu site atacado por hackers antes de divulgar uma matéria que causaria abalos nas relações diplomáticas dos Estados Unidos e foi ameaçado pelo seu Procurador-Geral de ser processado por infringir o Espionage Act de 1917, que pune a obtenção, troca ou publicação de "qualquer informação relacionada à segurança nacional, com a intenção declarada ou não de causar prejuízo aos Estados Unidos"?

Nenhum. Segundo o governo dos Estados Unidos e a OTAN, não faz parte da imprensa esse pessoal de paradeiro desconhecido, que trabalha editando e publicando na internet informações de fontes confidenciais do mundo todo, escondido dentro de um bunker num país qualquer. Tratando-os como espiões que roubam informações confidenciais apenas para prejudicar terceiros, sem finalidade jornalística e com seu fundador preso depois de ter sido procurado pela Interpol, os maiores prejudicados pela divulgação dos diários da guerra suja no Iraque e dos documentos diplomáticos americanos sobre diversos países tentam de todas as formas desqualificar a competência do WikiLeaks. E que competência! Afinal, sem num curto período de existência o site chegou a cancelar o recebimento de documentos devido ao grande acúmulo de material vindo de fontes do mundo todo, enquanto o resto da imprensa cobria apenas o dia a dia dos escândalos revelados pelo site, a impressão que resta é a de que existe uma certa desconfiança das fontes que buscam o WikiLeaks com a imprensa tradicional.

Sob o ponto de vista dos prejudicados pelos vazamentos, os argumentos que tornam o WikiLeaks um inimigo são quase os mesmos utilizados pelos países rivais durante a Guerra Fria. Argumenta-se que as informações reveladas pelo site colocariam em risco a vida de muitas pessoas, os documentos publicados seriam sensíveis, imprescindíveis para a defesa nacional dos autores e seu caráter sigiloso tornaria criminosa a divulgação. É fácil perceber a fragilidade desta estratégia que se apoia num tripé tão fraco quanto os sistemas de segurança onde estavam armazenados os quatrocentos mil documentos sobre a Guerra do Iraque e os duzentos e cinquenta mil relatórios e telegramas do corpo diplomático americano. Os diários da Guerra do Iraque revelaram diversos abusos do exército e das forças policiais locais, como a conivência dos soldados com a tortura de suspeitos pelos policiais iraquianos e a execução sumária de civis. Vidas em risco? Os direitos humanos devem sempre ceder em estados de exceção? E o que dizer da publicação dos documentos diplomáticos? Uma análise superficial da pequena parcela que foi publicada até agora revela o descompasso entre a política externa americana e os fatos narrados pelos seus correspondentes em terras estrangeiras. Entre eles, destacam-se os pedidos nem um pouco republicanos de Hillary Clinton para que fossem coletados dados particulares de oficiais da ONU, como números de cartões de crédito e dados biométricos, além das informações precisas sobre a situação no Oriente Médio, como a instabilidade do corrupto governo civil paquistanês, pressionado pelo avanço dos militares e relutante com o auxílio do exército americano no combate a Al Qaeda nas regiões tribais do país.”
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10 Dezembro, 2010

Beco escuro

Menalton Braff, Revista Bula

“Afirma o Adamastor, reflexivo como compete a um gigante da sua estirpe, que a civilização de qualquer forma acabaria conduzindo a humanidade a esse beco escuro, sem saída e perigoso. A solidão cósmica acabaria, mais cedo ou mais tarde, transtornando o ser humano que, à guisa de consolo, anula-se com um desprezo também sideral, elegendo outros seres para o digno posto de protagonistas do mistério da existência. Seres com anima, movimento próprio e que se reproduzem sexuadamente.

Agora, ele continua, começam a surgir grupos cada vez maiores defendendo a ideia, de aparência ingênua, de que é suma maldade o homem servir-se de animais, seus irmãos, como cobaias. Matam-se coelhos, ratos e macacos, para salvar a vida deste reles ser, deste ser desprezível que é o homem. Experiências em laboratórios com animais deveriam ser proibidas, pois eles são nossos irmãos.

Para sermos coerentes, diz meu amigo, imagino que comer frango, churrasco de carne bovina, comer ovo de galinha ou uma bela costeleta de porco, tudo isso também pode ser considerado como verdadeira agressão à parentalha. Os açougues deverão ser fechados, matadouros proibidos e o confino de animais, de todas as espécies, extirpado da face da Terra.”
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09 Dezembro, 2010

Sintomalogia de uma foto

Muniz Sodré, Observatório da Imprensa / Envolverde

“Alto, forte, de uniforme preto semelhante aos dos colegas, o policial (do Bope, do Core, não se pode saber) carrega às costas, ao lado do moderno fuzil-metralhadora, uma enorme perna artificial. Parece pesada, como sugere a leve curvatura dos ombros do seu portador. [A fotografia acima descrita apareceu na internet e em jornais de pequeno porte, em meio às centenas e centenas de imagens estampadas durante a cobertura jornalística da tomada do Complexo do Alemão, o famigerado reduto dos traficantes de drogas, pela operação policial, veiculada com inédito destaque na mídia brasileira e internacional.] Acontece com certa freqüência nas coberturas de grandes eventos, guerras ou catástrofes que uma única fotografia ancore visualmente toda a carga dramática da narrativa midiática. São inúmeros os exemplos, mas até hoje permanece nas retinas de quem tinha idade para acompanhar o noticiário da Guerra do Vietnã a imagem do chefe de polícia de Saigon executando com um tiro na cabeça o jovem vietcong, ainda de mãos amarradas. A foto chocou a opinião pública mundial, muito mais talvez do que os relatos circunstanciados dos combates, em que se morria aos magotes. Seria possível, quem sabe, pensar-se na foto da bandeira nacional hasteada no alto do morro pela polícia como uma imagem representativa da reconquista do Complexo do Alemão pelas forças da ordem. Mas não: essa imagem é um tanto banal, por sua recorrência em outras situações de conflito tanto em episódios de controle da criminalidade interna quanto em batalhas remotas. Além disso, seria eticamente injustificável sugerir, com a ostentação midiática da bandeira, o triunfo puro e simples do Estado sobre apenas uma parcela do tráfico de drogas. Vítima como cúmplice Sim, porque o tráfico, como todo negócio de mercado, supõe oferta e consumo, acionados pela livre vontade dos sujeitos da troca.

A bandeira no alto do Alemão sinaliza apenas o lado da oferta – dos vendedores, em suma. Para se justificar moralmente, o verde lábaro teria que ser hasteado também no asfalto, nos bairros de classe média que, à noite, "brilham", como já ironizou um chefe de polícia carioca. Melhor ainda: deveria ser hasteada pelos responsáveis uma bandeirinha na janela de cada apartamento que pudesse proclamar-se livre do consumo desse produto prodigiosamente elástico do ponto de vista da formação de preços e da obtenção de lucros, que é a droga. Assim como na Idade Média européia uma residência podia sinalizar em sua porta que não fora contaminada pela peste negra – a grande dizimadora de populações, fora a guerra –, na Idade Mídia [termo cunhado pelo professor baiano Albino Rubim] em que vivemos, a peste negra é a droga, e não apenas o estupefaciente químico ou vegetal, mas a relação social de droga, induzida pela falência dos valores, pelo extermínio do sentido coletivo e pela metástase consumista. A droga implica um crime em que a vítima é cúmplice do criminoso. É impossível acabar com ela, como proclamam os decadentes nostálgicos da romântica grass dos anos 1960 e 70? Mas então por que tentar acabar com o câncer, a Aids, as pestes? A droga é a peste negra que retorna.”
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08 Dezembro, 2010

Homossexuais são da Terra

Urariano Motta, Direto da Redação

“As recentes e documentadas agressões a homossexuais em São Paulo me obrigam a refletir, ainda que breve e superficial, sobre o tema. Mais de uma vez, homossexuais, travestis, têm cruzado o meu caminho no trabalho de repórter, de escritor ou como amigo.

Lembro de uma entrevista que fiz no V Encontro de Travestis e Transexuais do Nordeste, em 2008. À minha pergunta de se, num mundo ideal, Flávia Desirée seria travesti, ela assim me respondeu:

- Não. Eu mesma já disse à minha mãe: “quando um dia eu morrer, eu não quero reencarnar no corpo de uma travesti mais não. Porque eu não aguento mais”.

Em outra oportunidade, um funcionário do Ministério da Cultura me contou, numa mesa de bar, a história de Dona Maria, uma senhora prostituta que, na altura dos 84 anos, era cuidada por um casal de gays. E sobre o seu relato, assim escrevi:

“Dona Maria é cuidada, penteada, lavada e medicada hoje por um casal de homens. José e Jeová, a quem chamaremos assim, em respeito à liturgia do nome da única mulher a quem se devotam, têm os ofícios de advogado e de enfermeiro. Jeová cuida dos assuntos mais altos, dos papéis, documentos e males gerais da vida exterior, pública, de Dona Maria. José, cuida de sua vida mais privada, pois lhe dá remédios, arruma, lava e espana os móveis, e tem uma paciência infinda em tratar da erisipela, que hoje teima em marcar a mulher, a ‘ex-prostituta’, como corre na boca das mais virtuosas famílias do Edifício Califórnia...

O funcionário conta a história até o ponto em que alguém na mesa, de forma elogiosa, afirma que somente um gay poderia despir, dar banho em uma mulher. E com um tom cínico, o elogiador completa:

- Só um gay poderia dizer pra ela, ‘abra as pernas’, sem nada sentir.

O morador do Califórnia, que conta o caso, a isso não responde. Ele olha de lado, como se procurasse algo mais concreto para além da mesa, em outro lugar, em outra terra, que expressasse um sentimento. Algo como, por que dividir assim a humanidade? Por que não ver nesse carinho a expressão de uma esperança? Por que não ver nisto algo tão simples quanto um afeto, afeto sem adjetivo, afeto, afeto, simplesmente? As pessoas na mesa riem diante do ‘abra as pernas’, mas o contador da história, não”.
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07 Dezembro, 2010

Isso aqui sim é perversão, sujeira da grossa

Depois da decepção causada pela revelação do personagem Gerson de Passione, eu não poderia deixar de republicar esse meu texto manjado, sujo e explosivo, cujo título é Festinha na Masmorra. E jamais deixaria de dar o meu pitaco com relação à ocupação do Complexo do Alemão”

Marcelo Mirisola, Congresso em Foco

Aos muito sensíveis e aqueles que têm problemas cardíacos, éticos e morais, sugiro que interrompam a leitura agora mesmo. Isso aqui sim é perversão, sujeira da grossa. Embora a crônica que siga não seja 100 % inédita, garanto que é muito oportuna.

Ou seja. Depois da decepção nacional e internacional causada pela revelação do personagem Gerson de Passione, eu não poderia deixar de republicar esse meu texto manjado, sujo e explosivo, cujo título é "Festinha na Masmorra". E jamais deixaria de dar o meu pitaco com relação à ocupação do Complexo do Alemão pelo estado brasileiro. Creio, inclusive, que é possível estabelecer uma interseção entre uma coisa e outra, ficção e realidade.

Só pra refrescar a memória. Lembram de Luis Eduardo Soares? Ele era secretário de segurança do estado do Rio de Janeiro, e defendia a mesada que o banqueiro João Moreira Salles dava ao traficante Marcinho VP . Segundo o banqueiro, VP tinha uma “centelha de humanidade”. Além disso, o dinheiro era dele e não se tratava de “mesada” mas de uma “bolsa” para o traficante escrever um livro. O governador Antonhy Garotinho, ao ser informado sobre o episódio, se não me engano no RJ-TV, demitiu Soares ao vivo e a cores. Quem lembra disso? Os escritores que se fodem nesse país deviam lembrar. Pois bem, a vida prosseguiu. Luis Eduardo Soares ocupou outros cargos em outras esferas que não me interessam e ressurge como autor de um livro muito ruim chamado “Elite da Tropa”. A partir desse livro, Jose Padilha filma Tropa 1. Ele, Soares, trabalhou como co-roteirista nesse filme junto com Rodrigo Pimentel, e no Tropa 2 também.

Agora, depois de o Estado ter ocupado a Vila Cruzeiro e as favelas do Complexo do Alemão, o dublê de roteirista e defensor dos traficantes fracos e oprimidos é entrevistado no Roda Viva e defende a tese de que os “meninos” do Exército serão corrompidos pela realidade e que as milícias tomarão o lugar dos traficantes. Ah, não me diga! E ainda tem gente que adora Luis Eduardo Soares e reproduz suas redundâncias como se fossem a tábua da lei.

Não por acaso, os mesmos crédulos acreditam que Tropa de Elite 2 é um grande filme porque denuncia “o sistema”. Que diabo de sistema? De ar condicionado? De freio? Sistema de alto falantes? O que eu quero dizer, enfim, é que seria ótimo para os fãs de Soares se tivesse ocorrido um massacre na Vila Cruzeiro e no Complexo do Alemão. Como quebraram a cara, agora se municiam das “ressalvas”, dos “poréns” e das teses ululantes do guru, Luis Eduardo Soares. A quantidade de merda escrita nos jornais desta semana é muito maior do que a quantidade de droga apreendida pela polícia, não é exagero meu. Percorram os jornais e confiram.

E se o espírito de porco politicamente correto prevalecesse? Em outras palavras: e se a expectativa de Soares e de seus seguidores fosse correspondida? Se os helicópteros do Exército e da PM tivessem acionado as metralhadoras na hora em que os traficantes-ratazanas saíram dos bueiros da Vila Cruzeiro em direção ao Complexo do Alemão?

Ia ser um espetáculo, né? Prato cheio para os urubus. Mas não aconteceu nada disso. A operação foi um sucesso, apesar da fuga dos traficantes, do discurso ufanista, daquela baboseira de que o “bem” venceu o “mal” e dos abusos cometidos por policiais. Obvio que ocorreriam desvios e abusos. Não dá para ignorar o fato de que o ser humano é corrupto e corrompido desde sempre – fingir o contrário é corroborar a lenga-lenga de Soares. Em última instancia, é alimentar a má-fé e dar mesada pra traficante bonzinho. Ninguém aqui é ingênuo de achar que numa operação envolvendo quase 4 mil homens e várias toneladas de maconha, cocaína e mais um arsenal de guerra dando sopa, abusos e desvios não seriam cometidos. Repito: claro que seriam, e foram e serão e deverão ser exemplarmente punidos, ora bolas.”
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06 Dezembro, 2010

Se cada um soubesse o que o outro faz dentro de quatro paredes, ninguém se cumprimentava

Eberth Vêncio, Revista Bula

"A frase famosa (hilária, em minha opinião) é do escritor Nelson Rodrigues, um dos maiores provocadores que se tem notícia na literatura brasileira. Porque os meandros da sexualidade humana, quando não cômicos, podem ser trágicos, trágico-cômicos, dramáticos, inconfessáveis, e até mesmo insalubres. Mesmo aos que fazem sexo como quem come chuchu, o chamado coito burocrático, insosso, para se “cumprir tabela”, para se ver logo livre do outro, o ato termina em se tornar maléfico, pois diminui, humilha seus protagonistas.

Eu pensei em escrever esta crônica ao me deparar com o folder duma tal “clínica de massoterapia” dependurado na porta do carro. Pelo tamanho da bunda da “massoterapeuta”, percebia-se que a “massagem” era proibida aos menores de dezoitos anos. Mas a ingenuidade ainda insiste em fazer morada no coração manso e na mente sonsa de muitos adultos. Foi assim com Agamenon, o escriturário.

Desavisado, Agamenon, filho único, chegou ao endereço que constava no cartão de visitas, empurrando a mãe numa cadeira de rodas. Arrebatada por uma doença neurológica irreversível, a pobre senhora penava na condição de completa dependência da boa vontade de terceiros para as necessidades mais fundamentais de um bípede mamífero, como se alimentar, tomar medicamentos e expelir pelo ânus, poros e uretra tudo o que entra pela boca.

“Massagem terapêutica e relaxante” era o que dizia o cartão. Quando adentrou na “clínica”, uma cínica clínica, diga-se, o constrangimento foi mútuo. A ousada atendente (estilo índia amazonense ninfomaníaca sem frescura e que quer ser a sua namoradinha) corou, mas sorriu aos futuros clientes. A senil enferma, impedida pela paralisia facial resultante da moléstia, riu por dentro, divertindo-se com a situação constrangedora, com a estultícia do filho solteirão, e com a própria desgraça.”
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Do Alemão ao WikiLeaks

Mário Augusto Jakobskind, Direto da Redação

“Passados alguns dias depois da ocupação do Complexo do Alemão e da Vila Cruzeiro pelas forcas da ordem (?), muitas dúvidas continuam a pairar no horizonte. Claro, para os colunistas de sempre e as autoridades responsáveis pelas operações militares está tudo ótimo.

Agora, o Exército que deu apoio logístico à investida policial poderá permanecer na área por pelo menos sete meses, segundo Sergio Cabral. Não é essa a missão das Forças Armadas, mas vale tudo neste momento para manter a ”pacificação”, inclusive agradar o Departamento de Estado norte-americano e o Pentágono que há décadas exortam os governos latino-americanos a transformarem os efetivos militares em forças policiais.

A maioria da população apoiou a operação. Não podia ser diferente, até mesmo pela verdadeira lavagem cerebral a que foram submetidos os telespectadores com as imagens em alta definição proporcionadas pelos canais. Uma pergunta deve ser feita: e o crime organizado propriamente dito, por onde anda? Os bandos que fugiam da Vila Cruzeiro para o Complexo do Alemão podiam ser tudo, menos criminosos organizados.

A resposta à indagação sobre onde anda o crime organizado pode ser dadas pelas milícias, integradas por policiais militares, pessoal do Corpo de Bombeiros e outros do gênero, que já dominam várias áreas do Rio e, segundo as últimas informações, estão se dedicando também ao lucrativo trafico de droga.

Mas o Secretário de Segurança, José Mariano Beltrame parece que não está nem aí nesse sentido. Para ele, segundo declarou em uma entrevista a uma radio carioca, o grande perigo é o Comando Vermelho. E disse mais o Rambo do Governador Sergio Cabral, que o Comando é radical e perigoso, mas a outra facção, a Amigos dos Amigos (ADA), é mais pragmática e seus efetivos estão voltados para os negócios. Realmente, é no mínimo estranha essa declaração.

Todos os postes do Rio de Janeiro sabem que as bocas de fumo onde se comercializam as drogas só funcionam a pleno vapor porque policiais recebem propinas para fazer vista grossa. Maiores esclarecimentos podem ser dados pelo antropólogo Luis Eduardo Soares, ex-secretário de Segurança do Estado do Rio, que já denunciou várias vezes a existência da chamada banda podre da polícia e esse conluio.”
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05 Dezembro, 2010

Natal: Jesus ou Papai Noel?

Frei Betto, Adital

Aproxima-se o Natal. Curioso como, numa sociedade tão laicizada como a nossa, na qual predomina a tendência de escantear a religião para a esfera privada, uma festa religiosa ainda possa constituir um marco no calendário dos países do Ocidente.

Há nisso uma questão de fundo: o ser humano é, por natureza, lúdico e sociável, o que o induz a ritualizar seus mais atávicos gestos, como alimentar-se ou se relacionar sexualmente. Além de elaborar, condimentar e enfeitar sua comida, o que nenhum outro animal faz, o ser humano exige mesa e protocolo, como talheres e a sequência prato forte e sobremesa.

No sexo, não se restringe ao acasalamento associado à procriação. Faz dele expressão de amor e o reveste de erotismo e liturgia, embora o pratique também como degradação (prostituição, pornografia e pedofilia) e violência (jogo de poder entre parceiros).
O Carnaval, como o Natal, era originariamente uma festa religiosa. Nos três dias que antecedem a Quaresma, período de jejum e abstinência recomendados pela Igreja, os cristãos de fartavam de carnes - daí o termo Carnaval, festival da carne. Resume-se, hoje, a uma festa meramente profana, onde a carne predomina em outro sentido...

Essa transmutação ocorre também com o Natal. Por ser festa de origem cristã, para celebrar o nascimento de Jesus, a sociedade laica e religiosamente plural a descaracteriza pela introdução da figura consumista de Papai Noel. O que deveria ser memória da presença de Deus na história humana, passa a ser mero período de miniférias centrada em muita comilança e troca compulsiva e compulsória de presentes.

Daí o desconforto que todo Natal nos traz. Como se o nosso inconsciente denunciasse o blefe. Sonegamos a espiritualidade e realçamos o consumismo. Ótimo para o mercado. Mas o será também para as crianças que crescem sem referências espirituais e valores subjetivos, sem ritos de passagem e senso de celebração?”
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03 Dezembro, 2010

O tráfico no Rio de Janeiro e o crime organizado transnacional

Os verdadeiros chefes do narcotráfico no Rio de Janeiro são ligados à rede do crime organizado transnacional que movimenta no sistema bancário internacional cerca de 400 bilhões de dólares por ano. A situação que vemos no hoje no Rio, diz o jurista Wálter Maierovitch, reflete um quadro internacional, onde as polícias só conseguem apreender entre 3 e 5% das drogas ofertadas no mercado. "É preciso ter em mente essa dimensão global do crime organizado na hora de buscar soluções para enfrentar o problema em nossas cidades", defende.

Marco Aurélio Weissheimer, Carta Maior

Os verdadeiros chefes do narcotráfico no Rio de Janeiro são ligados à rede do crime organizado transnacional que movimenta no sistema bancário internacional cerca de 400 bilhões de dólares por ano. Esses são os grandes responsáveis pela violência e pelo tráfico de drogas e armas em todo o mundo. A situação que vemos no hoje no Rio reflete um quadro internacional, onde as polícias só conseguem apreender entre 3 e 5% das drogas ofertadas no mercado. É preciso ter em mente essa dimensão global do crime organizado na hora de buscar soluções para enfrentar o problema em nossas cidades. A avaliação é do jurista Wálter Maeirovitch, colunista da revista Carta Capital e ex-secretário nacional antidrogas da Presidência da República.

Compreender essa dimensão global é condição necessária para evitar discursos e propostas de soluções simplistas para o problema. Maierovitch dá um exemplo: “Os produtos principais do tráfico de drogas são a maconha e a cocaína. Tomemos o caso da cocaína. Sua matéria prima, a filha de coca, é cultivada nos Andes, especialmente no Peru, Bolívia, Colômbia e Equador. No entanto, a produção da cocaína exige uma série de insumos químicos e nenhum destes países tem uma indústria química desenvolvida. O Brasil, por sua vez, possui a maior indústria química da América Latina”. Ou seja, nenhum dos países citados pode ser apontado, isoladamente, pela produção da cocaína. Essa “indústria” tem um caráter essencialmente transnacional.

Novas tendências das máfias transnacionais
Presidente do Instituto Brasileiro Giovanni Falcone de Ciências Criminais, Wálter Maierovitch é um estudioso do assunto há muito tempo. O livro “Novas Tendências da Criminalidade Transnacional Mafiosa” (Editora Unesp), organizado por ele e por Alessandra Dino, professora da Universidade Estadual de Palermo, trata dessas ramificações internacionais do crime organizado. A primeira Convenção Mundial sobre Crime Organizado Transnacional, organizada pela ONU, em 2000, em Palermo, destacou o alto preço pago ao crime organizado internacional em termos de vidas humanas e também seus efeitos sobre as economias nacionais e sobre o sistema financeiro mundial, onde US$ 400 bilhões são movimentados anualmente.

Em 2009, diante da crise econômico-financeira mundial, o czar antidrogas da ONU, o italiano Antonio Costa, chamou a atenção para o fato de que foi o dinheiro sujo das drogas funcionou como uma salvaguarda do sistema interbancário internacional. “Os bancos não conseguem evitar que esse dinheiro circule, se é que querem isso”, observa Maierovitch. A questão da droga, acrescenta, é muito usada hoje para esconder interesses geopolíticos. Muitos países são fortemente dependentes da economia das drogas, como é o caso, por exemplo, de Myanmar (antiga Birmânia), apontado pela ONU como o segundo maior produtor de ópio do mundo (460 toneladas), e de Marrocos, maior produtor mundial de haxixe.”
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02 Dezembro, 2010

Por dentro do Wikileaks: a democracia passa pela transparência radical

Fui convidada por Julian Assange e sua equipe para trazer ao público brasileiro os documentos que interessam ao nosso país. Para esse fim, o Wikileaks decidiu elaborar conteúdo próprio também em português. Todos os dias haverá no site matérias fresquinhas sobre os documentos da embaixada e consulados norte-americanos no Brasil.

Natalia Viana, do Opera Mundi / Última Instância

Por trás dessa nova experiência está a vontade de democratizar ainda mais o acesso à informação. O Wikileaks quer ter um canal direto de comunicação com os internautas brasileiros, um dos maiores grupos do mundo, e com os ativistas no Brasil que lutam pela liberdade de imprensa e de informação. Nada mais apropriado para um ano em que a liberdade de informação dominou boa parte da pauta da campanha eleitoral.

Buscando jornalistas independentes, Assange busca furar o cerco de imprensa internacional e da maneira como ela acabada dominando a interpretação que o público vai dar aos documentos. Por isso, além dos cinco grandes jornais estrangeiros, somou-se ao projeto um grupo de jornalistas independentes. Numa próxima etapa, o Wikileaks vai começar a distribuir os documentos para veículos de imprensa e mídia nas mais diversas partes do mundo.

Assange e seu grupo perceberam que a maneira concentrada como as notícias são geradas – no nosso caso, a maior parte das vezes, apenas traduzindo o que as grandes agências escrevem – leva um determinado ângulo a ser reproduzido ao infinito. Não é assim que esses documentos merecem ser tratados: “São a coisa mais importante que eu já vi”, disse ele.

Não foi fácil. O Wikileaks já é conhecido por misturar técnicas de hackers para manter o anonimato das fontes, preservar a segurança das informações e se defender dos inevitáveis ataques virtuais de agências de segurança do mundo todo.

Assange e sua equipe precisam usar mensagens criptografadas e fazer ligações redirecionados para diferentes países que evitam o rastreamento. Os documentos são tão preciosos que qualquer um que tem acesso a eles tem de passar por um rígido controle de segurança. Além disso, Assange está sendo investigado por dois governos e tem um mandado de segurança internacional contra si por crimes sexuais na Suécia. Isso significou que Assange e sua equipe precisam ficar isolados enquanto lidam com o material. Uma verdadeira operação secreta.”
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01 Dezembro, 2010

Combatendo o preconceito


Leila Cordeiro, Direto da Redação

“Finalmente, depois de décadas o ser humano está acordando para as mudanças de mentalidade no mundo. Criado em berços preconceituosos sob vários aspectos, o homem sempre procurou seus iguais, desprezando os diferentes. Mas hoje, diferente é quem não aceita o outro lado da moeda seja em pensamentos, idéias, cor da pele, orientação sexual e até mesmo das doenças genéticas que estigmatizavam seus portadores, alijando-os de qualquer oportunidade de vencer seus próprios limites.

E nesse quesito aparece o problema da Síndrome de Down que é explicada cientificamente como um distúrbio genético causado por um cromossoma a mais no DNA do portador.

Lembro-me bem que, ao engravidar do meu segundo filho, aos 35 anos, fiz um exame chamado aminiocentese, no qual o especialista pode detectar, através de uma punção na barriga da mãe chegando até o líquido aminiótico, se o bebê possui essa síndrome. Esse preocedimento é feito aos três meses de gestação e é aconselhável, segundo me disseram os médicos, para mães depois dos trinta anos para lhes dar a opção de continuar ou não com a gravidez caso seja detectada alguma anomalia genética no bebê.

Talvez você esteja querendo me perguntar se eu teria coragem de negar à vida a uma criança com problemas . Não, eu não teria essa coragem, apesar de saber o que poderia me esperar dali pra frente.Felizmente tive um filho saudável, pelo qual fiz alguns sacrifícios normais de toda mãe, mas incomparável à dedicação dessa mulher que inspirou meu artigo.

A história se passa em Joinville, Santa Catarina. Gina Fruit, então com 23 anos, esperava feliz sua primeira filhinha. Já sabia o nome bem antes dela nascer, Ana Carolina, que Gina havia escolhido em meio a várias opções. A gravidez foi normal e tudo parecia muito natural até Ana Carolina vir ao mundo.

Com a filhinha nos braços, Gina recebeu a notícia de que a criança era portadora da síndrome de down e que dali para a frente ela teria uma missão difícil a cumprir. Mas Gina, não se abalou. O importante era ter dado vida a alguém e principalmente a um bebê que precisaria muito mais dela do que qualquer outro. E Gina foi à luta, acreditando acima de tudo no amor e na dedicação maternal que fluía dela de maneira incontrolável.”
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